domingo, 16 de agosto de 2015

VERSO 29

Disto de Tuas certezas, que És o imorredouro princípio e fim
De toda a Natureza Material, posto uma presença cabal
Em todos os acertos dos passos de uma insignificante formiga
Ao tremor inquieto de um grande vulcão falsamente adormecido...

Passo os dias com uma felicidade imensa em Te ter, oh Krsna,
Amigo de todos os meus entristeceres igualmente, que teço por vezes
Um sentimento de medo por pensar em esquecer quando esqueço...

Visto que És tudo em que vivo, não sei de mais nada a não ser ter-Te
Como um maestro de minhas aulas diárias em que apontas
No voo inquieto de um pássaro que adormece uma estrela
Quando por um instante passa por ela em que a sinto Sua falta!

Srikesa, És conhecedor da Natureza Material, e agora repouso
Sob Tua flâmula espiritual, onde vertes os mananciais que não esgotam
A mais remota esperança de Te ver brincando em Vrndavana
Em que Radharani escuta de Tua flauta maravilhosa...

Posto que sou um grão de areia em Teus mundos, És tudo
Do que alguém jamais pensou existir na onipresente face
Que mesmo em todas as nossas dificuldades nos reside imutável...

NOTURNO

            Um dia que fosse, e estaria Ramon mais complicado do que estava em outras épocas, igualmente endividado, mas esperando que sua esposa não o abandonasse, conforme diuturnas ameaças veladas. Sofria por seu próprio descompasso, mas não haveria como não perder esse metrônomo existencial, pois sua vida já não empunhava o mesmo ritmo de antes... A vida em si, como que encerrada em um parágrafo, não seria o suficiente em qualquer descrição, mas de momentos efêmeros tirava suas conclusões. Claro estaria que nada pudesse transtornar mais o seu humor do que aqueles dias de incursões tão graves na natureza humana, que se processava em continentes e continentes vários, estes de sua própria cabeça, próprio igualmente do que via ou presenciava, em seus testemunhos serenos mesmo em duros aprendizados... O que gostaria Ramon para si era apenas, em sua conduta, o que esperava do próximo, na mesma igualdade de cidadania e condições, sem preconceitos de classe, religião, etnias, pensamentos ou atitudes. Essa questão da utopia, de algo que não constasse muito na sua realidade é que chateava Mariana, sua esposa. Talvez o excesso de sonhos de seu marido a exacerbasse de trabalho em que ele não focava muito, no de se ser atento, deixar passar algum detalhe de casa, ou mesmo na incompreensão de alguns desafetos. Mas que se acertassem as celeumas, os temperamentos ambos eram tais que pareciam com rosa que nunca murchasse. De um modo algo simplificado, reclamavam em seus olhares um pouco da tristeza de se amarem muito... Talvez não fosse amor suficiente, mas a flor não emurchecia, brotava um contentamento às vezes, afinal não seriam os melhores tempos aqueles, pois nada seria tão fácil de mudar assim, como se fosse de rompante. Conviviam com suas duras realidades, e o diálogo era às vezes pontual. Certo dia, ele a procurou em seus lençóis para que falassem da vida, algo de depois, algo de cotidiano quebrado, uma madrugada quebrada da labuta de ambos, em suas longas jornadas diárias:
            - Pois sim, Mariana, estás com os olhos tão semicerrados que eu não te adivinho mais... – Ele teimava em ser um pouco sincrônico, e isso de ensaiar palavras esquisitas a colocava inquieta.
            - Basta, meu caro esposo, estás te quedando acelerado. Tenha a mesma ternura em dar um tempo na lógica!
            - Não entendo, talvez fosse este dia, não me apercebo de tudo, Mariana. Sei do amor gigante, mas não sei dos detalhes desse amor.
            - Reza que tenhas paciência, meu amor... É assim que é a vida, nem sempre a compreendemos, somos muito minúsculos em suas frentes, em nossas percepções, nosso carinho com ela devia ser mais atento, apenas penso assim.
            - Quem dera fossemos algo mais do que as pernas que se cruzem na vastidão de um começo de noite...
            - E que me venhas com sempre de poética. Me faz bem! – Mariana o provocava com pequenos beijos, e o diálogo verbal sucumbia a mais de se amar, como o sonho de um poeta solitário que busca fazer amor com palavras...
            E os dias transcorriam de um modo de um agosto conturbado por um pouco, de outra feita algo previsível, pois nesses tempos os is tinham seus pingos em cada qual e não se precisava de carapuças, pois as máscaras já estavam prontas no grande teatro, em que a vilania não era a mostrada na televisão, mas esta mesma, a vilã maior. Não de máquina, mas de escoadouro pura e simples de concessão de mídia. Essa era a vilã que não se escondia, parecia que fazia o seu papel, e Ramon apenas era vitimado, um pouco que fosse, pois trabalhava como jornalista e, como mero empregado, tinha que fazer vista grossa a todas as misérias da farsa do material jornalístico. Já era agosto, e qualquer pensar opinioso mais livre de sua parte recebia cortes da censura de sua empresa, que pensava exatamente contra o progresso social de seu país.
            Sabia ele que era uma rede grande, um grande monopólio de comunicação, sabia ser uma máfia comunicacional, não passava disso e das concorrentes – todas – depondo contra o andamento constitucional da livre opinião dentro do contexto da expressão profissional do que pensava ser um jornalismo coerente. Não se contestava, e o Governo Presidencial se travava nesse óbice gigante, caracterizado como um outro poder dentro do país continental.
            Pausa dada, pausa continuada, pois muitos já pensavam assim, mas o sistema os engolia e todos os outros engoliam igualmente no mundo ocidental, com uma crise recorrente e ódios que surgiam de poucas conveniências desses pequenos estopins inquisitórios. Na verdade, a nação estava em jogo, como em um dado lançado, e assim pensavam muitos, rogando que estivesse pior o panorama para desfechar suas tentativas de golpe e, evidentemente, a tomada de consciência vinha por entrever por dentro das mesmas invectivas declaradamente malfeitoras que participavam desses quadrantes do poder da comunicação, deitando por terra as mesmas tentativas e fortalecendo no viés as correntes mais progressistas. Seria um mês de derrota dessas tentativas infames e o dado tinha dado seis no jogo, facilitando em mais um round vitorioso dos patriotas, pois a elite branca mais uma vez dava de sua presença alicerçada em seus quadradinhos de brinquedo, mostrando que já não possuíam força, e a mudança continuada por instante de pausa continuaria sempre, nesse longo processo de democracia, antes propriamente pela palavra, agora agregada da palavra participativa, em que os laços entre a cúpula do poder estreitavam com seus movimentos sociais, e essa mesma elite branca estamparia os jornais do mundo com uma realidade vergonhosa de participação inequívoca no cenário da anti-história da nação brasileira. Esses estranhos capítulos onde o que se quer é ganhar sem precedência em todos os casos, mantendo níveis de aproximação com injustiças sociais imensas, como imersão nas profundezas do atraso histórico. E a juventude já não entrava nessas questões, pois havia juventude mais esclarecida, apesar de retrocessos atávicos nas gerações que recrudesciam das catervas... De pequenas vitórias a vitórias maiores, assim seria o processo histórico onde, por incrível que pareça, não houvesse água não se contestava o Governo Regional responsável, na terra que secara, e que não se imputava culpa nesse planejamento, de prevenção – anterior – extremamente importante.
            O sonho da paz, companheiros, passa por lutas que nunca são as mesmas, pois só haverá uma receita histórica quando compreendamos que, em cada revolução tecnológica, os meios mudam suas complexidades em termos de engenharia e arte... E a Natureza entra como maestrina a acompanhar nem tão silenciosamente a ligação absolutamente necessária entre ela, os motores fabris, a arte, a cultura como um todo, e o respeito étnico e social como base de todas as estruturas, onde não há como integrar tudo, pois suas contradições necessariamente existentes mostram que jamais seremos estanques em mudar o mundo, pois este é dinâmico e mutável como a água: ela mesma um retrato do que vimos produzindo para nós mesmos, em que todos tenhamos – para começar – o mesmo direito a ela e suas funções.

sábado, 15 de agosto de 2015

PALAVRAS DE CALCÁREO

Outras gentes respiram a si mesmas de um modo anacrônico,
Quando vertem sobre a superfície do querer algo de muito ou pouco
No que não se sabe qual a vivência dos desejos em que estamos
Quase por aguardar as vertentes de uma fonte que por todos os lados
Respira por geometrias consagradas a que não nos sintamos jamais
Na mesma distância em que um vértice cria a sua poligonal realidade...

Mesmo que claudiquemos o afã de estarmos mais sóbrios nas primaveras,
O que dizem, que as flores também fenecem, mas nunca em suas plantas
No que permanecem, antes plantas, quando também alimento, em searas
Nas vezes em que o tempo engana o clima de algo que já não verte a água
Onde deveriam ao menos preservar as fontes, ainda que em segredos...

Nessa seara sem artifícios de outrora sentimos que não apenas o chão,
Mas em nossas superfícies respiremos de atos de legitimidade o suposto
Em encontrarmos nas veredas paulatinas os reforços que nos abraçam
Das forças que prezam pela soberania de um Governo legitimado e atento
A que não intentem contra a pressuposição atualmente posicionada
De fato e de direito a nós mesmos consagrados no ano 14 do silêncio.

Saber que muitos dormem sob o silêncio de verdadeiros homens, é sal
Que não haja regresso no que pensem que são atuantes os que depõem
Contra um gerirmos nossas vidas apoiados sobre uma grande coluna rosa
Como seria a própria planta que empunhamos de modo sagrado nos espinhos!

terça-feira, 11 de agosto de 2015

UM DIA DE UM NAVIO

            Quem dera, fantasiar que viajamos, singramos o mar, que o seja, quiçá uma ponta de realidade quando o que queremos é navegar... Pode até ser que o poeta disse a verdade quando navegar é preciso, que naveguemos nossa existência! Posto que a trilha sobre o oceano tem procelas, tem náufragos, isso é normal em uma casca de noz sobre um manto quase infinito e azul. Quando conosco mesmo conversamos, saibamos que não são as pausas, as vírgulas, seriam talvez uma parte de uma grande bússola onde aprumamos nossas razões em prosseguir ao prumo, em aportar nas realidades cotidianas, em saber que não estamos sozinhos, apenas por vezes mais distantes. Grande foi a obra de James Watt, a supor que em nossa casa das máquinas o navio se sustém desde então, com sua gigantesca hélice. A partir disso vencemos parte dos ventos, as ondas inquietas, mas o casco é forte para tanto... Mas que não encontremos o tufão, pois remontando a uma época mais moderna já o sabemos e não saímos do se aportar. Podemos saber que uma companheira vive ao lado de nossos destinos, e quem sabe sonhar com os seus olhares nas vezes que subimos ao convés e vemos as estrelas dando lugar à luz.
            A navegação é maravilhosa... É como escrever uma carta e colocar em uma garrafa, e esta sobreviver às rochas chegando à areia dentro do contexto de uma falena, que sorri discretamente em suas noites sabendo que o reflexo da lua contém na mesma garrafa seus significados internos. Mais até do que o navio onde lançamos a mensagem, está o coração de outras falenas que escutam as suas esperas no crescer de suas cobertas. Que estejam em proteção divina, assim como os pássaros que veem no movimento de peixes os reflexos das luzes das orlas, onde um homem verte seu cansaço no prazer de fumar uma pipa. Assim como os homens, sonhamos todos os bichos que igualmente somos, pois que se escreva como uma jaguatirica que deve estar olhando agora em uma floresta – supondo dia ou noite – os caminhos que a levam às vertentes de um riacho ainda intocado por nossas mãos. Quisera termos a ciência de navegarmos plenamente, mas sempre estaremos nas estações dos dias de todos os que estão dentro de coletivos igualmente, em procelas e sacrifícios, a ver que se é de letra saibamos que a palavra liberdade possui nove sagradas... Essa é a navegação do mundo, em estarmos meio que à deriva por vezes, mas sabendo que o leme tem sua própria ciência, mecânica, que seja, sagrada ou não, mas não se rompe jamais com o seu sentido de sentir a embarcação em seu mesmo significado de sempre, com suas idiossincrasias, seus modos de ser, e que há muitos desses barcos, percorrendo mares e mares e que – conforme disse um poeta – muitos nunca foram navegados, já que o infinito é apenas uma sombra de um simples despertar que faz uma frase alcançar a uma ilha que nos pareça alvissareira! Como se fosse de uma pausa, um remanso nos faz lançar alguma rede, e outras ondas nos oferecem as imagens de cardumes, quais veias de contentamento. 
           Parecendo que somos hoje um dia de um navio, e que esperemos que a serenidade nos abrace, que aplaquemos os maus sentimentos, que se é de alimento nos alimentamos de conhecimento, da paz de um oceano de bondade, de um justo alinhamento das estrelas, de uma bússola que mostra o norte sempre, de remos que não serão necessários, pois agora o motor está desligado e as velas com os seus ventos é que traçam o rumo e a navegabilidade que vá a algum lugar, e que nos deixemos levar. Até um ponto em que o navio pede que o aprumemos mais, a sentir algumas velas meio rotas, içadas em mastros mais cansados, mas que ligamos o motor que o barco anda, e outras máquinas tecerão outras velas no mesmo continente onde sabemos que estamos em uma costa de águas transparentes, onde os corais dão de suas presenças ao que encontremos até mesmo as plataformas onde suamos as nossas esperanças.
            Assim que o dia transcorre, e a noite de um navio chega à dimensão de seus próprios rumores, assim, de Natureza, quando respeitamos que nem todos os cardumes estão como fonte de algo, e que as letras já chegam no alcance inumerável de seus próprios caminhos, como uma carta que vai e o barco torna a trazer, o mesmo inumerável tempo em que sonhamos cada vez mais com melhores dias, e o tempo mostra que esse percurso não possui muitos segredos, apenas um bom leme que apruma silencioso dentro de uma vereda incansável de ondas que vêm pela proa a sentirmos que nas descidas por vezes a grande hélice sai da água, tal a força da procela. Inevitável, mas já vivida por barcos bem menores, em sua intenção de ao menos manter a tripulação acordada e distante do vinho, com seus odres que Quixote enfrentou em outras navegações!

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

QUE SEJA, A PAZ...

            Na cerimônia católica se diz: eu vos dou a minha paz... Que estejamos sob esta paz, no que mais queremos de tudo. É nessa hora que devemos nos unir, pois um país se constrói com boas intenções, e a travessia é justamente essa, o bom senso em sabermos que estaremos legitimando um Estado de Direito e Fatos na liberdade sem conta que vivenciamos até então, e que não haja tormentas, pois estas não nos motivam, apenas atrapalham o andamento de uma democracia cabal, e nada ilusória. Não façamos divisões entre o que seja, um pensamento alinhado por algo, ou outro, pois a contenda devemos evitar a qualquer custo e assumirmos de uma vez por todas que o governo Dilma Rousseff é plenamente constitucional e saibamos que as críticas diárias e ininterruptas, a exposição da violência em nossas televisões mostra que a nossa fé é intensamente combatida por essas questões de programações e coisa e tal. Não sou propriamente um expert, vivo em uma classe mais abonada, tenho certos confortos, apesar de ter menos em outros casos, pois sofro sempre, principalmente na parte da manhã, em que as medicações me põem mais vulnerável. Mas me trato, exatamente como manda a grande medicina que é a psiquiatria contemporânea, tão fascinante quanto a ciência em si, mas resguardada pelo fator humano. Tenho o conforto dessa grande medicina, talvez por isso ainda concatene bem alguma análise do que sinto, e graças a Deus me brota a ideia.
            Sobre a paz, que pudesse eu ser um tipo de cavaleiro dela, que me animaria a prosseguir lutando sem os inimigos externos, como a luxúria e a ira tão presentes nas nossas sociedades em que sentimos os reflexos, mas daria como ponto importante a compreensão de que todo sentimento de maldade não passa de ilusão, pois não leva a lugar nenhum. Como quando fumo meu cigarro na rua, às vezes sinto que alguém acha desagradável, e passo a não fumar tanto, ou em lugares mais ermos, a evitar sempre que a fumaça chegue a alguém. São pequenos detalhes cidadãos que nos fazem mais puros de espírito, para sabermos lindamente como enfunar bem as velas e prosseguir... A vez agora é da paz de espírito, de que desistamos do impeachment ou qualquer outra espécie de artifício de tomada de poder, pois isso seria grave constitucional e moralmente. Clamo à medicina que aceitem os médicos que venham para este país, não entendo muito, mais creio que aumenta-se a assistência. Quando ensinei arte para enfermos dos CAPs percebi que havia uma sobrecarga nos profissionais da saúde, no que vivenciei que todos têm uma esperança de que a saúde neste país melhore, e o SUS inegavelmente é um plano abrangente, apesar de suas carestias. Esses fatos demonstram, tal como a operação Lava Jato, que estamos cuidando de mostrar ao mundo que somos uma nação transparente, pois a corrupção – convenhamos – já vem de longa data. Isso É aprendizado, pois com os erros aprenderemos melhor e – repito – dentro de uma União pela paz e legalidade democrática. Todos sabem que as pesquisas flutuam, e que no governo FHC, apesar de baixas popularidades ninguém citou sequer o impedimento, mesmo sabendo-se das privatizações sem medidas. Vejo uma presidente da República bem intencionada, é isso o que vejo, dentro de uma proposta de construção e progresso. Tantas são as opiniões contrárias que por vezes não enxergamos qualquer outra, mais positiva, fora dessa tempestade que teimam em alimentar para que o barco em que estão todos os brasileiros sofra o revés da pronunciação de uma crise muito maior que assolaria o país, pois a instabilidade democrática só nos impediria uma boa navegabilidade e nosso parque industrial poderia virar uma sucata.
            É por um sentimento patriota que temos que prosseguir nessa mesma travessia, sem nos manietarmos com extremos que vão do ódio à paixão de modo doentio, pois na verdade, o impeachment não significa nada aos olhos – repito – do bom senso, em pensarmos por uma melhor administração dentro da legalidade democrática, obtida graças ao voto popular, que concede plenos direitos do Executivo à nossa Presidenta da República. Agora, quanto àqueles que assumem que querem um golpe militar, estes depõem seriamente contra qualquer espécie de contemporização, pois pensam com um atraso em que nenhum país da comunidade internacional estaria de acordo, pois, se houver um que esteja, está claramente a favor da barbárie em um país tão maravilhoso como o nosso Brasil. São essas questões que põem um país em instabilidade, mas creio que apesar de tudo, conseguiremos vencer essa crise ética, econômica e humana, dentro dos mesmos questionamentos que norteiam nossas estruturas democráticas, nossas instituições federativas e nossa União que deve prosseguir ao rumo necessário, apesar dessas tempestades temporárias.  
            Resta a questão atávica de nosso planeta: usemos ambas as pernas para caminhar com independência. Não façamos divisão de qualquer espécie, se somos canhotos ou destros, saibamos que o caminho da paz, seja ele católico, muçulmano, hebraico, laico, evangélico, espírita, do candomblé, ou que seja apenas a mesma paz que encontramos em uma boa infância, que não interfira o lado, qual que seja, já que seria impróprio fazer do país uma seara de discórdia religiosa, ou mesmo étnica, de valores, ideológica, ou de qualquer cunho. É premente a União, que não estamos em uma sociedade em guerra e nem queremos estar, e torçamos para passar por essa crise política sem os contratempos de outrora que desejam alguns repetir, já que nossos erros servem para que avancemos no humanismo, e não que apostemos no regresso.

domingo, 9 de agosto de 2015

CARTA SOBRE AMIZADE

            A quem endereçaria uma linha que principia no se dizer do muito a que temos por uma questão humana? Uma carta bastaria? A amizade é algo pra se guardar dentro do peito, como diria a canção... Não é troca de experiências, não é motivo de falso orgulho, pois se um homem descreve algo da realidade de sua vida, seria razão para contatos mais concretos. Não há que se dizer que a enfermidade possui linha reta. Para mim, basta ser amigo de Krsna. Apenas isso me basta, de tudo o que já enfrentei, basta como refúgio iridescente de meu espírito. Começo algo prolixamente, mas desfio um rosário de minha própria simplicidade enquanto homem. Não desejo mulheres nem vinho, não desejo maiores prazeres que não seja servir com humildade os desígnios a mim impostos pela natureza divina ao Senhor Supremo. Não que para isso tenha que convencer alguém, mas só encontro a paz dentro de meu Paramatma em consciência. Falaria longas horas a alguém que quisesse estar igualmente mais desperto, mas sei que por vezes o deserto é imenso para um punhado de areia, ou de sementes, quando possuímos a sorte de tê-las em nossas mãos.
            Conheci vários devotos em minha senda espiritual, e chego a um ponto em que não especulo mais a respeito de uma natureza material que só encontra seus reflexos nas lutas que se processam para obtenção de poderes, suas manutenções, seus hipócritas jogos, seus interesses, e me parece que – antes de comprovar nos diálogos inevitáveis – todos estão torcendo para perder ou ganhar nesse campo, ou lucrar, ou apegar-se gigantescamente aos sentidos, numa busca em que não me encontro e nem quero, não tenho ganas disso tudo... Lembro-me de pessoas que combateram a hipocrisia, que não possuíam preconceitos de nenhuma ordem, lembro-me de pessoas que estão presentes em lutas verdadeiras e, à simples lembrança desses heróis, faço-me crer que – mesmo tendo limitações em minhas liberdades – sou um homem feliz e realizado como poucos, pois aprendi a contemplar muito antes disso virar moda. Não sento na posição de lótus e olho para o Tao, mas compreendo que a física se aproxima do oriente, e que a Índia é um país muito mais importante do que os EUA, pois enquanto um é o berço da espiritualidade no planeta, o outro é campeão em guerras, violências e mortandades, além de ser a nação que incentiva cada vez mais a morte de animais para experiência e fast foods industriais. Prabhupada tentou levar a consciência de Deus a partir dessa nação, mas talvez não esperasse que o berço do imperialismo contemporâneo visse a si mesmo no trágico desfecho que agora se processa, juntamente com a crise global da União Europeia e todos os seus aliados, que permitem o apartheid que se sabe há muito em território de toda a Palestina ocupada.
            Portanto, creio que o momento é de profunda reflexão, e não poderia jamais dizer algo a alguns amigos queridos que não fosse real da minha relação com a própria vida, pois – que se saiba – apenas desta que a própria surge. Relato que surjo com a minha vida a cada instante que me caiba, e que continuo apaixonado por tudo que seja da bondade, pois ainda acredito que é nessa plataforma que conhecemos mais profundamente o que quer que seja, posto filosofica, religiosa ou existencialmente... Sigo em Bhakti, não sou um devoto exemplar pois ainda como carne, mas espero que a humanidade alcance sua razão de melhorar humanisticamente as angústias que assolam o coração dos aflitos, e para isso, creiam-me, o mundo tem que socializar um pouco a sua visão como um todo, se não, é impossível ser feliz. O processo de se conhecer alguém não se dá através de encontros fortuitos, justamente quando esse alguém possui mais vivência do que a pecha imposta de que esta pessoa seja enferma, já que a luz nem sempre é confortável...

sábado, 8 de agosto de 2015

O CAMPO E SEU CONHECEDOR

            O corpo que recebemos para nosso espírito se chama campo; o espírito, através de sua consciência se chama o conhecedor do campo. Essa questão passa por vezes por não termos a ciência do fato de que nosso corpo muda de forma ao longo da existência, ou seja, que assumimos vários corpos, desde bebês até a velhice. Talvez não compreendamos esse fato, mas surpreendentemente devemos saber que a nossa posição enquanto seres habitantes deste mundo torna as fronteiras relativas, pois o corpo depende de uma energia independente para prosseguir em suas jornadas. A consciência corporal manda que usemos nossa mente e inteligência para prosseguir em nossa energia interna, que dita a vida mais espiritualizada, para fazer frente à grande ilusão que está se tornando o mundo contemporâneo... Tudo que diz respeito apenas à matéria se torna a mesma ilusão citada, incluso as designações: sou brasileiro, sou americano, finlandês, bonito, feio, saudável, doente, pois são todas designações corpóreas. Não assumamos necessariamente a postura de tal ou qual religião, pois os que possuem vida religiosa têm que respeitar o ateísmo igualmente como postura de vida. A filosofia em suas vertentes mostra o espírito secular e laico igualmente na postura assumida perante a sociedade, pois do mesmo modo em que professemos uma religião devemos saber que a disciplina de filosofia em um estado laico – repito – deveria estar presente nas cadeiras da educação. Um homem e uma mulher devem ter condições de se aprofundarem existencialmente, e as letras – religiosas ou não – são sempre vitais na educação de um povo. Independe de qualquer situação, laica ou não, pois para um homem ou mulher optarem por uma vida religiosa, convém terem apreendido a matéria, a ciência e a filosofia como um todo seus estudos, já que um médico conhece parte do funcionamento de nosso corpo, tornando-se, através de seus estudos acadêmicos, igualmente um conhecedor do corpo.
            Do mesmo modo em que as fronteiras são relativas, o corpo social também existe enquanto coletividade, enquanto massa crítica, e enquanto houver maiores possibilidades nesse campo, melhor será o conhecimento dessa massa. A queda da crítica depõe contra a educação de todo um coletivo, pois academicamente o diletantismo ou estudo paralelo traz benefícios para a tomada de consciência de qualquer povo, em qualquer fronteira, até para sabermos que esta é apenas uma designação, uma delimitação histórica, que mudou durante todo o processo de nossa civilização. Assim seremos maiores e mais fortes, realmente, se dermos às letras o quinhão necessário para termos melhores cabeças neste país e em outros, se aprendermos do que há de melhor em outros, e se nos conhecermos mais enquanto indivíduos, latentes em nossas células familiares, estudantis e de trabalho.
            Pois bem, por experiência de vida saibamos que o corpo físico de alguém, esta máquina maravilhosa que possuímos depende de nosso conhecimento, do que ingerimos, do que estudamos, do que gazeteamos nas escolas, do que é ilusão, as questões da liberdade tão importantes em um mundo repleto de gente, o que significa saneamento e como podemos melhorar, os ismos ilusórios,  o que é factível, o que transcende, o que é religião e o que será de uma sociedade que a pensemos melhor, sem rancores ou ódios que manifestam claramente a intolerância de qualquer frente do pensamento e ação dos homens. Quando falamos em liberdade, havemos de nos apoiar na democracia participativa, como meio de sabermos onde lidar com problemas recorrentes em nossas cidades, já que mesmo sabendo que as fronteiras são designações, o Estado de Direito manda que as respeitemos, pois assim se comportam as nações, seus continentes, seus blocos e suas alianças comerciais e estratégicas. Em opinião tosca de quem vos escreve, creio que há vários corpos ou campos no mundo, apenas adoto uma postura mais simples e contemplativa pois faz parte da idiossincrasia de um homem que encontra no hinduísmo e no cristianismo suas duas veias religiosas, pois assumo que talvez possa exercer uma crítica imparcial, mas dando de mim a minha própria vivência cotidiana. A questão é saber que a cidadania é o ponto nevrálgico da sociedade em que vivemos, pois é pela usurpação desse direito que a intolerância de vários cunhos se processa no Brasil e em outros países. Se um cidadão aprende a caminhar conscientemente em suas veredas, em suas verdades inequívocas, talvez isso incomode alguns genéricos grupos que atentam contra patrimônio da bagagem desse mesmo ser humano. Há muitos desses grupos que usam de violência verbal ou física – antes verbal – para combater com suas covardias àqueles que conhecem melhor o corpo social, que lutam por melhores dias aos necessitados, que buscam uma justiça social mais efetiva, que zelam pela segurança, que trabalham como mouros e que enfrentam já no seu dia a dia as dificuldades em se prosseguir a viver na dureza deste país em dificuldades, como as são internacionais, pois a crise econômica está no ocidente como um todo...

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O CAMINHO SINUOSO

            Tantos são os vórtices de furacões que assombram sobremaneira os lugares mais ermos do mundo. Seriam consequências de algo mais importante em se perceber que nem tudo são flores para as humanidades que se propõem sanas. Para certas situações, o tipo de questão onde figuras ilustres de nossa memória cultural caem no esquecimento cabal prediz um luto confortável na dissolução de nossos alicerces históricos. Pois, quando isso acontece, sempre haverá um atraso nos registros ou livros idôneos que narram a nossa memória, nossas bagagens... Que seja dito: os fatos que retratem a verdade histórica de um país.
            Se trilhamos por vezes por uma intenção de obscurecer o factual, pontuando sobre interpretações parciais na documentação histórica, incorremos no erro precisamente totalitário de secarmos as raízes mesmas de nossas culturas, regionais ou da União, como um todo. Resgatarmos continuamente a nossa memória popular enquanto patrimônio é fundamental ao criarmos a necessidade para tanto e, nisso, importa que sejamos coerentes para observar mais atentamente os erros em que nos colocamos na não democratização dos meios de comunicação, e suas regulações igualmente fundamentais. Esse modo de atenuar danos atávicos promovidos pelas modernas indústrias culturais promoverá progressos substanciais a que se evite a manipulação das massas nas vias rápidas dos caminhos de facilitação dessas regras em um jogo semelhante a uma roleta viciada onde quem ganha são as grandes produtoras ou seus “representantes” locais, nos países como o Brasil, em que a mídia reflete seu papel nocivo e entreguista.
            Claro está que, se quisermos um país verdadeiramente livre, deveremos rever nossas concessões, independente de quais sejam.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

VERSO 28

Oh, Govinda, oh inumerável tempo de trilhões de anos do eterno,
Vertemos em uma tênue superfície do planeta próprios desatinos,
Quando ignoramos que o destino mesmo está ensartado no cordão
De milhares de pérolas que respiram um parecer sereno sobre qualquer.

Encontro um prazer inigualável, como um estranho paradoxo
Em ver-Te acima dos prazeres, pois que usufruis de tudo
Do que antes acabamos por não termos completamente conhecido
E ao presente cremos sabermos algo que acontece mesmo em futuro...

Que todos busquem  a Verdade, seja ela a semântica de um servo,
Seja na capitania de um grande barco, ou mesmo no encontro conTigo
A sabermos que um quando quer algo, se busca sinceramente,
Acaba aprendendo de um mínimo necessário a se compartir...

Krsna, que eu creia-Te, em minha tosca opinião, de devoto que sou
A Ti que ofereço meus cantos e todos os meus trabalhos,
Posto que Mohini Murti seja a minha musa, mas não quero o prazer
De ser seu consorte, nem o imortal néctar do oceano de leite.

Passo a não ter consortes, vejo que a dimensão da divindade é grande
Como imenso é outro planeta que está em Vaikunta, luminoso
Qual o sol de onde recebemos o Teu olhar, quando acordamos para ele.

Sigamos com bondade, é o que se espera, pois, está no Gita:
Quem está com ela, nunca é vencido pelo mal...

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

DESPERTAR DE UM HOMEM

            Escutei a noite como um chamado tardio em que dela estivesse distante. Talvez o tenha feito sem saber se sonhava, ou se uma vigília me descartava enquanto ser que não a mais vivera, do que apenas dormir de um sono que me parecia secular. Mas na verdade eram apenas horas em que tudo se definia como um intervalo apenas numérico, substantivo do próprio tempo, porém progressivo nos dias subsequentes. Lera na noite anterior um texto religioso aos quais textos eu já habituara nesses costumes espirituais de buscar minhas referências nos Vedas que sempre me surpreendiam e me faziam pensar em Prabhupada como um santo que me ajudava a despertar em cada noite ao que se aproximasse o dia, de um dia bom...
            Bem desperto, abri um livro em italiano sobre arte, e soubera ao menos compreender alguns parágrafos que, em seus silêncios de estante apenas ajudavam-me a alinhavar meus pensamentos, dando a minha tão premente retaguarda intelectual. Desse mesmo modo em que o prazer se torna menos previsível do que o gozo sexual, passível de existir coito, a que não me disporia facilmente, pois que me bastassem para isso os anos de minha juventude. O prazer que obtinha na arte me mantinha sereno, e a esse princípio de prazer eu o poderia mesclar com o princípio de realidade... Pois, como se me revelasse o dia, as letras poderiam ser meu universo, ou mesmo algo que torna próximo o infinito. Não haveria que prover de um ideário, pois a postura de quem escreve muitas vezes depende de um ponto de vista mais raro, ou quase impossivelmente raro, tornando a vida nessa simbólica acepção o convexamente útil, quando se trata de cidadania, infelizmente. Infelizmente no quadrante que tem limitado a mesma cidadania daqueles que continuam a ser discriminados por serem pobres ou loucos. Esse acordar-se era saber que poderíamos contestar mais profundamente essas questões, como imperativas de um quilate de decência humana.
            Como se soubesse de teor a ser pronunciado como fato, apenas reportava a mim mesmo e outros poucos um quasar suficiente de luzes, ínfimo como a areia e seu grão, no entanto um grão mesclado ao sol. Esse era o despertar meu e próprio que fossem outros os de outras gentes, a saber, que o propósito da lucidez passa pelo seu exercício cidadão!

terça-feira, 4 de agosto de 2015

UM DIA A MAIS

Que se passe, um dia, não mais, ou que fosse uma noite em que estamos
No querermos algo que não passe muito, ao que seja, por fim
Algo que desconheçamos mas que nos abraça quente como um sopro
Daqueles verões que algumas gerações jamais esquecem, como tempo
Em que as praias tinham suas vegetações, e o mar respirava muito mais...

Insisto, um dia que fosse algo a mais, por assim dizermos que temos
Muito a se aprender no sempre de estarmos querendo somar
Todos os sentimentos do mundo, em que floresçamos a paz,
Mas que esta não subsiste sem a fecunda e necessária justiça social.

Estarmos patinando nos dias nos deixa crermos que não saímos do ovo
Em que nos encontremos brincando com nossas liberdades,
Como se estas fossem fabricadas nos países ricos e suas raridades
Que supomos encontrar em um beber ou outros insumos de prazer...

Por aí nos vamos, a crer que se fazemos algo de bom para todos
Espelharemos na base de sustentação de nossas propostas
A própria cúpula de uma catedral de domo de cristais tchecos
A luz que na verdade ilumina, refletindo a bondade a todos os povos.

Seria crível dizer um pouco a mais, mas o cansaço nos nubla as mãos
Quando vertemos delas o carinho a todos os seres, sem exceção
E, como diria Parra, ao mal apenas o carinho – este mesmo –
Pode torna-lo puro enquanto existe, e sincero enquanto ato.

Pois que pensemos em algo como o perdão, algo maior do que tudo
O que seja de pararmos um pouco de uma luta por vezes inglória
Mas que sabemos que o alívio intempestivo no dossel do hedonismo
Não trará o prazer espiritual de nos encontrarmos com os erros nossos.

Teremos que dialogar com nós mesmos, teremos que tentar ao menos
Saber que tipos de propostas temos a tentar, que não tentemos muito
A se tentar o próximo com as doses do principio, nos termos finais,
Ou nos entrementes que solapam a vulnerabilidade dos sãos.

Pois os são os da saúde que por vezes são enfermos, a escalas,
Em que no vértice de cada coração solitário possa residir
A mesma casa que nos retrate a um destino qualquer
Em que se pese da balança da vida todo um passado que remete.

Um dia a mais, e as palavras se nublam docemente como um mel
Que escorre da colmeia com a metáfora linda da Natureza,
Ou quando um pássaro noturno brinca com pequenos peixes
Que escapam divertidamente de seu bico no término de mais um dia...

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O PLANO DAS DIMENSÕES

            Seria fácil despontar como algo que prevemos como fácil, facilitando o próprio crescer do significado, mas por outro lado, um enfermo em doses mentais deveria descrever os rumos de sua lógica. Será isso mesmo de máxima importância? Em que dimensões vivem aqueles que são discriminados por esse fato, quais não sejam seres que apenas querem viver com a harmonia tão necessária da ausência de contendas?...
            É difícil combater o preconceito contra os doentes mentais, pois este se reveste de uma tênue ferrugem onde o que pensam ser o bem por vezes é algo assustadoramente equivocado. Nas séries de televisão vemos recorrentemente o fato de alguém que seja paciente psiquiátrico definir trágicas trajetórias, como exemplo de bárbaros crimes, talvez pelo tabu em que a sociedade revela como incompreensível o universo e a complexidade da existência desse tipo de enfermidade, tabu este que na verdade apenas interessa à indústria cultural no seu aspecto produtivo a respeito do que deva ou não ser interessante do ponto de vista comercial. Isso descarta da cidadania e segrega como anormais na convivência em sociedade essa fatia considerável das populações vulneráveis que desejam profundamente a tolerância e sociabilidade.
            É sempre mais fácil mirar o mais fraco, quando este não possui ainda direitos cidadãos franca e amplamente estabelecidos... Há que se reiterar que recorre o fato de que quase sempre ainda não possuímos mecanismos de defesa para preservar os direitos e respeitos suficientes a essa categoria social, e suas frágeis patologias, mesmo sabendo que foi sob a administração do atual governo federal que a luta de emancipação dessa gente fincou raízes mais fortes, como a luta antimanicomial, os CAPs e a cobertura do SUS, como um todo, como a distribuição das medicações gratuitamente.
            Como portadores e usuários, sempre levamos em conta que é uma luta diária em se propor estar bem com o entorno – por vezes assaz ofensivo – e as idiossincrasias que podem dificultar aos ditos normais um respeito digno a quaisquer cidadãos que portam algum transtorno psíquico, mas que enfrentam sérios problemas existenciais pela falta de compreensão do próximo.
            Tornar esse diálogo em amplas frentes e debates seria muito salutar e muitos têm sido os guerreiros dessa luta, pois há que se solucionar de modo humano e lúcido a questão da doença mental e sua recorrência na sociedade contemporânea: suas causas, a compreensão dos familiares e amigos, os modos de se tratar, a não internação compulsória, e a estabilidade na inserção tão dificultosa em trabalho e geração de renda. Essa luta social poderia não ser estancada pelo preconceito que trava as suas raízes, mas segue a proposta de união de frentes onde um tipo de cooperação seria de boa valia para comercializar algo de arte ou artesanato em oficinas de trabalho e desenvolvimento da conscientização dessa classe.
            Segue a proposta, pois a continuidade responsável do próprio doente mental encontrará o bom rumo quando este sentir que nos seus familiares, colegas, os seus aparentemente inimigos internos, as suas limitações, encontrarem em sua própria força motivadora e solidária um palco salutar para que desenvolva muito do que se desaprendeu, ou aprenda muito do que ainda se desconhece...

VERSO 27

Escuto os ventos que, silenciosos em suas curvas,
Sabem mais do que silenciam a si mesmos quando sopram
Em outras margens, de rios que fecundam de esperança
Aos mesmos Shastras que, no reverberar védico de um sábio,
Mostram a religação de páginas de Vrndávana de luzes.

Que saibamos das vertentes recorridas de outras páginas
Em outros ventos, algo de sabermos um mínimo que deve
Supor uma grandeza do que nos anima o espírito
Em sabermos que no Paramatma localizado
Reside o Brahmam impessoal que passa no real sentido.

De todo o arcabouço filosófico, nada é pressuposição
A que não saibamos da vastidão de onde estamos,
E quem somos em nossa Svarupa eterna em que saibamos
Que é na divisão do saber que aprenderemos mais
Em sua união com as díspares e constantes descobertas.

A verdade não é fruto de especulação fortuita, nem o modo
De se ver um mundo mais distante de si mesmo,
Pois o que dista dela será mais conforme ao ostracismo
Quando se pontua que uma centelha divina a mostra
Na existência em si em que nasce com a ciência das estrelas.

domingo, 2 de agosto de 2015

OS NÚMEROS DO MUNDO

Quais sejam tantos os inumeráveis dotes do mundo em que sentimos
Que se aproxima uma repetição de algo que nunca conhecêramos
A que se revele em uma simples placa de carro, seus fragmentos,
Talvez no número de fonemas em uma poesia tardia de outro ontem,
Nas linhas dos versos que se enumerem, mas não necessariamente
Para que datas nos lembrem de uma memória histórica concatenada...

O número um é precursor, mas não existe sem o que vem, que seja,
O dois, a que não se precise soma, mas obviamente teremos algo mais
Do que apenas uma cifra, que pulemos para um próximo do nove.

Do passado, não negativemos nas abcissas as coordenadas de referência,
Pois a memória sente mais importância a que relembremos um pouco
A mais do que seria o numeral do mundo, este que em cada país receba
O seu lote da história tantas vezes lida mas por vezes mal pronunciada.

Em que data a queda da Bastilha, mas em outro detalhe, por qual porta,
Em que números, quantos estavam, as datas, as horas, e o tempo
Sempre mostra que na construção e na destruição mostra-se implacável.

O número das faixas de pedestres talvez marque os passos de um idoso
Quando este tateia com seus pés a serenidade de sua mesma história
Em que cada passo revela a experiência de sua vida, independente,
No seu taciturno existir, que o seja, como os números de pedras
Que erigiram no gótico e seus maravilhosos encaixes a ascensão
Das alturas que revelam em números de arte a arquitetura do mundo!..

Os numerais antigos emblemam os peixes de um pescador no unitário
Em que os gestos de sua rede mostram em suas vilas o de se propor
Que se acompanhe a mais da pescaria, em que dois remos bastem
Para um mar de ondas médias, mas enumeráveis em sua eternidade.

Que não se contem as uvas dos vinhedos, mas se sabe da preciosidade
Das garrafas do bom vinho onde encerra-se que alguns goles devem
Proporcionar o prazer que um afortunado sente na comunhão do sacro.

Os números erguem de um modo preciso uma arquitetura, pois que esteja
Erguida a um tempo em que haverá de um encaixe, de um prego,
Ou no plasmar-se de mil quilos de cimento, para a areia igual,
E que a água verta de seu volume a olho, plasmando baldes numéricos
Sem saber ao certo se sempre contamos, ou simplesmente construímos...

sábado, 1 de agosto de 2015

O JOGO DE JOAQUIM

Havia um tabuleiro como tantos, no claro escuro das casas, em que o campo não seria exato, pois o homem jogava também com as peças derrubadas. Levantava-as, o glabro, de uma barba de prestobarba asseado, e o sangue que por vezes brotava da acne sem sulfa, esta que não havia. Pequenas gotas estancadas pelo papel do banheiro público. Levantava as peças de jogo alheio e pensava: como irei jogar com os relógios que os contendores batem nervosamente a cada movimento rápido e preciso? A cada tilintar da pequena sineta... A princípio os peões que abriam caminho para o centro do tabuleiro. Emprestavam-se a ele, e a algaravia de tocar as peças transformava-se em silêncio.
Olhava meticulosamente o “ele” dos cavalos e sorria na aproximação das damas! Deixavam-no brincar com aquele mosaico – grande para Joaquim – em preto e branco, na extensão exata da quadratura dos limites, principalmente quando observava o xadrez jogado por bons adversários. Por que tal a importância dos peões, se os seus movimentos configuravam geometrias tais que o sacrifício de um permitia um xeque de dentro do centro do tabuleiro? Permitindo a algumas peças a semântica dos números em um tempo em que sempre haveria um desfecho... Esse tempo dos jogos antigos, onde havia a conclusão de um bom desafio, seja ele matemático ou lógico, não a sincronização absurda de uma vida na virtualidade de uma máquina, porém fascinante.
Para Joaquim – o velho Joaquim – em síntese, jogava na perda: sempre, para ver a velocidade dos xeques e permitia óbvios xeques-mates... Via por através, os vincos cerrados de seus oponentes, as mãos crispadas segurando a rainha, os ventres gordos por vezes ou, o que o assustava, grossas lentes por vezes em fracas estratégias, as lentes... Os olhos, o orgulho de um término de alguns minutos. Porém, no que diziam de sua parca inteligência até então entornou em seu íntimo um universo na lógica das peças nas laterais da mesa, que erguia, uma a uma quando o oponente invectivo as deitava na mesa da praça, onde Joaquim – bancário aposentado – vivia seus dias na posição simples e digna sob a real companhia dos pombos.
“Eh, Joaquim”, diziam. Sorria feliz quando o convidavam para uma conversa a respeito das últimas notícias nos pasquins populares, ou da televisão dos bares, estes que se recusava a freqüentar. Em sua soberana inteligência havia muito que não abusava da bebida. Solitário, em sua casa, pulsava de felicidade em beber em seu estúdio por vezes um copo de vinho. Uma mulher o ajudava a manter-se e a um filho que trabalhava no Consulado. Criava também brinquedos de madeira para os pobres que não possuíam o computador. Seguia a sua vida... Era divorciado, tinha dois filhos, a filha era advogada e solteira.
Fizera em seu estúdio uma marcenaria improvisada e era assim que trabalhava um pouco em casa. A sua maior criação fora um jogo de xadrez, com peças torneadas e silenciosas na posição estática de suas formas. Fizera um tabuleiro de plástico com recortes em vinil. Ficara dissonante a madeira em cima do plástico, porém as cores isoladamente eram ricas em seu desenho. O que não resolvera a contento nas peças Joaquim remodelou alguns acertos com massa epóxi, como os rostos da dama, dos bispos e dos reis, além, obviamente, do corpo dos cavalos em seu desenho inevitavelmente belo. Gostava de misturar materiais e a cabeça dos peões manufaturara com bolas de gude metálicas da coleção que seu filho mantivera até então.
De manhã cedo se barbeava, se banhava, vestia uma de suas peças de roupa e seguia para a cidade onde conhecidos antigos jogavam com toda a experiência o jogo maravilhoso... Nunca havia uma repetição, nunca as mãos posicionavam-se de outros modos, mesmo nas clássicas aberturas, como na giocco piano, tão antiga e reflexa nos tempos atuais para quem – como Joaquim – desconhecia os vocabulários da lógica. Essa pura raiz que faz um movimento de um bispo cobrir com atenção um peão que protege a dama que, por sua vez, corre em sua própria semântica em defender o rei. No roque, a dama torna-se ciumenta ao ver seu rei mudar para os flancos da torre. Essa era a grande viagem de Joaquim em seus labirintos da vida. A fantasia! O sonho!
No critério da lógica há a fragmentada porém coesa estrutura do pensamento, de como descobrir as premissas se o cavalo ora galopa nos vários semi quadrantes, obviamente sabendo que a haste maior vale três e a menor pula dois. Por cima até do rei quando o iniciante tem a mal fadada pressa em avançar na direção frontal, ou mesmo em recuos distraídos. Porém, o iniciante possui a correção da humildade quanto enfrenta a proposta quase inverossímil de fatalmente perder para um contendor extremamente experiente.
Joaquim – o velho – era eternamente um iniciante; um aprendiz. Talvez por isso sabia tanto do jogo, suas variantes incontornáveis, peças mistas, o “ser” do jogo, as idiossincrasias... Enfim: tanto era a se aprender que a sua distração e imediatismo nunca o fariam ser um bom enxadrista, na acepção padrão do termo, nas regras estritas desse antigo jogo, misto de entreter-se e exercitar-se intelectualmente. Paradigma da estratégia de dois pensamentos digladiando-se saudavelmente.
Joaquim não pensava em fronts reais, visto que colocara em suas próprias mãos a vertente da própria existência. O calor em compreender como o peão consegue chegar ao outro lado do tabuleiro o fazia pensar no que haveria no outro lado da lua: e quantos peões enfrentariam tal temperatura... Não sabia ao certo o que era a ciência apesar de viver muito perto dela, em brio e atitudes. Sabia que a torre valeria quase tanto quanto um cavalo, ou muito mais, quando sua posição em defesa fosse assaz importante. O que via e pressentia nas ruas era por vezes uma brisa tépida que perpassava os corações repletos de esperança, nas vitrines via boas promoções e em mesas percebia refeições condignas, misto de conquista diária na luta vencedora do povo de sua nação. A comida a se bastar. Sem a origem costumeira dos que não dizem, mas a condição dos que se expressam tangenciando suas próprias raízes com a fecundidade do bom alimento e a resposta dos frutos brotados das mãos camponesas em comunhão com a terra.
Em sua estreiteza em vislumbrar uma compreensão mais panorâmica do planeta pensava: “por que as guerras? Por que as mortandades no mundo? Será que também é algo de um jogo? Não creio, seria uma idéia a respeito de tudo muito triste... Por que os opositores não se reúnem para jogar xadrez...? Ou mesmo damas... Será que toda a riqueza do planeta já tem donos?” Pensamentos fabulosos o cercavam... Um Quixote por vezes, por vezes Sancho. O mundo se afigurava a Joaquim a um moinho, mas com pás redobradas em força nas vertigens dos séculos... Um barril de vinho não seria suficiente para dirimir essa certeza. Um odre que fosse, mas se esquecia de beber que não fora por vezes algo, mas que mais um cigarro, depois do café, lhe aprazia. Era assim de seus prazeres em que não havia algum mistério, pois a Joaquim – o velho – lhe amava a própria vida, essa gênese de onde, somente dela, brota a vida. O mundo para tantos se afigura por vezes claudicante nos reveses que encontramos nos caminhos (por vezes veredas trançadas com farpas de arame), mas em outras – e quase sempre mais longas – os jardins, a preservação, o amor, o querer-se. Caminhos difíceis por vezes, mas que se nos apresentam com as luzes das descobertas, do se compartir, o punho sólido quebrando a hipocrisia, que não há trevas que não sucumbam; pois, para essas veredas o clarão da coragem e da fé nos faz prosseguir cumprindo alegremente a nossa missão por aqui onde estivermos, mesmo que para isso tenhamos que enfrentar um mar de idiossincrasias nefastas, que nos impeçam de sermos humanos nesse dever sobre a Terra. Pois que estamos com o egoísmo aflorado na superfície já não tão crespa do planeta, de suas florestas à parte do ideal preservacionista. Egoísmo por vezes formal na busca insana do nada, a se tentar apagar da história verdadeiros homens e mulheres que lutam ou lutaram, antes que a ignorância tente descartá-los, como em uma roupa em que não se vê mais o clarão da verdade, mas apenas o significado que insinua tristemente a boataria.
A se aferrar em lógicas rudimentares e ignoradas pelos que se acreditam em consciência desperta, mas que apenas despertam de um sonho para entrar na ilusão... Como se manter alheio a tudo, se até as máquinas são fabricadas nas esteiras da divulgação e do controle quase absoluto? Os aparelhos televisivos e seu mote tranqüilo dos padrões sincronizados pelas programações da hipnose no inconsciente.
Joaquim residia na geometria do jogo de xadrez. Permanecia atento às organelas da grande história recriada pela grande citologia do corpo enfermo da crítica digital, dentro do que percebia ser injusto quando – às vezes inevitavelmente – se expunha sob a influência dos programas absolutamente ensaiados e parciais das grandes televisões do país. O mito do grande irmão – falso e nocivo – era como um lazer estúpido e negociado pelos atores... Por isso o nosso herói encontrava mais conforto intelectual no jogo dos peões, nos movimentos dos bispos, na flexibilidade da dama e na defesa do rei; em seus cavalos por vezes e nas torres que se erguiam na grande metrópole: tabuleiro de suas caminhadas. Por ali continuava as jornadas, bem envolvido na grande lógica dos espaços, das áreas, dos campos, tanto na visão das conquistas territoriais quanto na idiossincrasia dos contendores. Não possuía perfil... A síntese de seu comportamento navegava na textura tépida da selva urbana. Tépida, pois onde residia o mar se fazia presente à brisa que trepida o consentimento... E o mar comungava com famílias que buscavam o seu sustento nos peixes, nas algas e nos moluscos. O mar fazia da Natureza o outro lado de Joaquim. Nele reverberavam a pureza do horizonte, a existência das aves e o recrudescer do sentimento marinho na vista dos barcos que saíam em busca de vertentes maiores do alimento. No entanto, mal sabia o velho Joaquim, que saíam com estranhas missões a serem cumpridas na vastidão de um tabuleiro – este sim – inexpugnável a quem dentro de sua vastidão ousasse mais do que os limites toscos do ferro das embarcações.
Havia as horas em que o homem despertava na amplitude marinha, o vôo dos pássaros, a profusão da areia sob o sólido manto das águas, das nuvens que retratam as reverberações do Criador e o sol que é a própria visão de Deus. Nessas horas Joaquim evitava que o importunassem, nas frações de seu tempo, de um tempo que o fazia pensar mas que a ele não importava: ou o tempo absoluto que passa pelos ponteiros ou o verdadeiro tempo das reminiscências, sejam elas de todas as cores do mundo e suas infinitas mesclas, como em um óleo impressionista de onde o olhar do artista tangenciou os tons amalgamados na origem de sua palheta. O tempo relativo quando não é contado, como quando o escritor vence mais um parágrafo na sua independência de simplesmente fazer chegar ao leitor um passado realizado no presente e remetido ao futuro, num ciclo em que torna imortal a sua obra, o seu espírito, mas não as complexas engrenagens da carne. Ou o tempo de se dar em um trabalho solidário onde o relógio que marca o ingresso de um operário mostra a ele – no tempo de sua saída – a importância concreta do trabalho realizado por vezes em um clima de solidariedade, esta mesma referida e tão necessária. Na verdade – pensava o nosso herói – o que será o tempo? Algo de uma abstração ímpar que gera a fama e por vezes a própria infâmia, e apenas aqueles que se despem desse significado contornam – nas labutas e sacrifícios – as barreiras de vidas difíceis no caudal da esperança consagradora.
Os horizontes em dias de chuva o faziam se preocupar com os moradores de rua que habitavam a cidade, os bairros, os nichos de guarida e abrigo improvisados. Não havia como resolver certas equações complicadas, quase insolúveis... Pensava que os ministérios que defendiam os direitos humanos ajudariam, mas seria preciso ações estruturadas nas raízes da cultura do país. Os povos indígenas ficavam restritos à ignorância – no de se ignorar – em certas regiões, no que versa em sua própria existência e manutenção intacta de seus territórios. Os negros por vezes eram massivamente levados a acreditar que a sua cor da pele era uma questão de raça, mal sabendo que esse conceito não admite uma sociedade plural, pois leva a questões mais profundas onde as plutocracias apostam que há alguma diferença em ser ou não, em ser negro, em ser branco, se há sanidades, se há pessoas “resolvidas”, plutocracias hipócritas, mal sabendo que é ao uso que o uso pertence, e que os preconceitos permanecem quando se separa as aparências e comportamentos em fórmulas divisionais. Se um usa ao outro fecha um ciclo incoerente como um peão que vai em frente apenas para ser trocado por outro, na antiga movimentação das peças. Não se faz o uso das gentes, pois que isto põe à prova a aceitação de verdades disfarçadas. Como as cores em seus padrões sem modulação. Há que se mesclar, as cores são sentidas em sua inocência pelos que delas esperam apenas a fruição necessária e encontram as representações no léxico interminável das vertentes...
As cachoeiras rugem mais do que certos trovões em que as tempestades os cabem no mar ou na selva, distantes das arquiteturas planejadas no caos organizado que sopra apenas como uma doce brisa em contraste com a fulgurante Natureza. Zangões são tão necessários como as abelhas dentro do espectro de sua maneira de ser: insetos, pois aos insetos cabe a sua própria lógica de serem livres também, apesar de outros atrasarem um pouco a vida dos camponeses. Mas sempre há, na biologia coerente e humana, modos e mais modos... Os pesticidas acabam por matar o que existe na terra envenenando o húmus que é o seu bem mais sagrado. Há que se plantar da aveia para que a vegetação travosa não impeça o florescimento de um bom pasto, a que se retirar do leite e dos frutos germinados na mesma terra, pasto e horta.
A cada família uma terra boa: A TERRA BOA! Não claudiquem as terras, pois é da terra que tudo há e é na Terra que tudo É. As vertentes clamam pela mãe Gaya, subtraindo Maya de seus alicerces. Assentar-se no planeta é tão evidentemente necessário que o é muito mais do que deitar-se sob um dossel nas carícias por vezes infiéis do prazer apenas, por dito e conforme. Pois do que se diz pouco realmente se escuta: de um velho homem em sua jornada maravilhosamente dura pelo mundo há que se prover da sua própria experiência na Angola que não se renuncia dentro de nós mesmos... Os velhos de Angola, os experientes da China, os sobreviventes do sudeste asiático, os Sioux ou seus descendentes, ao menos. Os Vedas, a Índia, os indígenas, os olhos d’água brotando incandescentes sob argila fecunda, o obreiro assentando a crueza do cimento para fazer adormecer mais um tijolo na construção da vida! Isso é e continua sendo o verdadeiro milagre que consagra a libertação de qualquer jugo, tanto colonial quanto imperialista, pois é apenas a noção exata e clara da evidência de sermos coerentes e humanos ao que nos cerca. O caminho da violência é a pátria de uma “laranja mecânica”, a não ser na própria coerência da defesa que se faz tanto no plano humano quanto existencial, quando algum dito sapiens “evoluído” se volta contra um ser lúcido na tentativa de impor restrições quaisquer que tente impedi-lo de seguir no embate saudável da existência. Há que se aceitar o humanismo também como um respeito à Natureza, pois não adianta erguer uma grande obra sem pensar na história do lugar onde se pretende erigir, pois esse erro torna-se por vezes o claustro uma arquitetura de viseiras. Diga-se de passagem, a história de onde colocar os dejetos sanitários, ou mesmo tentar ao menos preservar ou recriar o paisagismo necessário, mantendo-se justamente a história da vegetação original.
De se ler qualquer, de se ouvir músicas quaisquer, de fazer crescerem as raízes sem esquecer-se de regá-las, pois só à Natureza cabe regar por inteiro tanto a planta quanto a dar o alimento ao estômago do homem, ou ao molhar os cabelos da mulher na semântica cristalina dos mares, ou mesmo quando a própria Natureza ensina às gentes os perfis intemporais da poesia vertida sobre a flâmula dos papéis, pois empresta a madeira para tanto. E os papéis da caligrafia o sabem! De tal monta que o saberiam menos se não fora a verdadeira poesia que floresce no gesto de uma mão companheira... De suas latitudes inquietas, no portar-se a prosseguir em trabalhos sem desnudar os troncos que escondem a seiva, sem permitir aos homens funestos que decepem os seringais e derrubem as florestas, pois a fibra do madeiro singra pelo mar da compreensão da lógica existente em se preservar o que possuímos, tanto a selva como a faculdade de unir as idiossincrasias pessoais dentro da aurora da sincera e solidária coletividade, sem senão ou porquês desnecessários, pois as palavras ditas hão de ser ditas em seu significado primeiro, não no berço hipócrita das ofensas ensaiadas na eletrônica ou no jargão ignorante dos instintos da crueldade da patologia social, geralmente originários de manuais escusos e externos.
Sim, quem diria ou dirá algo que não seja o avesso da própria e extenuante realidade? Por vezes a dúvida permanece como em um jogo de xadrez em que as peças vencidas ainda participam do ritmo andante do mesmo jogo. Em ritmo andante como o Rocinante a suportar o peso do Quixote, revirando os olhos ao observar a lança no seu prolongamento cavaleiro. Das desditas que consagrou a loucura do velho fidalgo; de um próprio moto a ver com o cavalo peão da órbita geométrica das linhas e do caudaloso saber das colunas: torre. Antes fosse um peão a buscar a dama em sua saída do quadriculado do bom mármore. De como a se saber da contenda e dos contendores!
Medalha olímpica. O enxadrista cessa o esforço. Anoitece o seu ímpeto de prosseguir a mais uma contenda. Ficara em terceiro. Tudo isso lia Joaquim no jornal. Este Joaquim prosseguia em seus caminhos de aprendiz, as suas referências na verdade de fatos e status da realidade, sem a forja quase inverossímil de certa estupidez acadêmica em talhar a ferro mentes orgulhosamente obtusas.
Para Joaquim – o velho – a circunscrição do xadrez e seu tabuleiro era o próprio mistério... Apenas aplainava a sua paixão intelectual, mas até certo ponto ingênua em decifrar – não os movimentos das peças sempre iguais – mas a própria expressão que se fazia presente nos rivais. Via por vezes de cima e as peças tornavam-se botões no claro escuro, quando de um estar em uma casa branca, ou um círculo de mesma cor que confundia, ou não se sabia que peça: preto no preto, preto no branco, branco no branco, branco no preto, sem distinção de rei ou de peão. Era a sua fremente necessidade, de se saber, de se aprender com a sua própria idiossincrasia, de se tornar consciente de qualquer movimento, qualquer mirada, qualquer expressão. Via, tornava-se homem, cristal mineral, rocha plúmbea, alquimia de sua própria vida, tocava... Sentia! A sentir-se no caudal afã da própria respiração, da veia latejante, da vertente dos olhos de uma mulher, curiosa como tantas em tal velho, em tal tema, em tal latitude desse autêntico homem.
Por vezes escarneciam os seus modos e quereres que transpareciam no seu olhar por dentro das ávidas pestanas. O bigode meio franzino auscultava o toque de seus lábios em um cigarro, que por vezes o mantinha apagado para não perder o rebuliço do jogo. E fumava na companhia dos pombos, estes ausentes de qualquer reclame, qualquer foto compartida na mesa cruenta de quem está por detrás de “outros” tabuleiros, pois a mesma crueza mostra a covardia dos impérios em suscitarem antigos fantoches, querelas: quirelas perdidas em capim, sem ser do bom limão! Alto teriam a dizer os que estavam olhando taciturnamente os comportamentos das gentes, com os seus binóculos do oculto guarnecidos, como rege a sintaxe fria dos opositores ao progresso e desenvolvimento coerente ante a pluralidade social e o assentamento tácito da comunhão do povo e todos os habitantes do planeta. Há que se fazer da defesa uma grande morada e que tépidos lençóis sejam encontrados e fornecidos – de irmanada construção – abrigos de sólidos alicerces a quem queira... Por direito. O método de abraçar o mundo com as costas, como Cristo, como tantos os de obra. Vigamentos, colunas, janelas e portas, estas que abram na cunha das possibilidades, no alvorecer cigano de mais um acampamento em terra consagrada.
Há que se pretender mais do que uma casa sob o azul peremptório do céu... À noite, por sua vez, se tatua de estrelas como em um braço camponês há a sombra do húmus frutificado em trabalho. Da semeadura, das mãos pousadas sobre os labirintos da Terra... Pois que há muitas mãos e muita terra. Muitas máquinas também, em grandes lençóis que não são os de cetim, mas de um grânulo raivoso em fabricar rações em gigantescos latifúndios, porém fabricadas aquelas em outros países. Longe do quintal de Joaquim – o velho – pois em sua casa o terreno (feito jardim) resumia-se em uma pequena mas profícua horta de onde abastecia dois pratos em cada refeição. De boa monta que houvesse o de se plantar, pois se quer e é o desejado, em justo e sincero querer.

As palmas de uma palmeira diziam a si mesmas a riqueza de observarem de sua posição os laivos de uma pequena e justa fartura, pois a terra se doa a quem a semeia com carinho e colhe com a atenção e o amor bastantes...

O TABULEIRO IMAGINÁRIO

Cinco jogam no tabuleiro suas ideias de vitórias, apesar de negarem
Que suas peças nem sempre os representam, nos peões que atravessam
Acompanhados de cavalos com doze cilindros, ou barcos com bispos
Que trafegam sobre um rio de quatro flancos, em que o nível da água
Soletra aos índios o solar em suas multidões de espelhos...

Os castelos creem que são mais do que torres, e os peões meramente
Residem no seu passo inquieto, ao ignorarem que há damas em falsete
Que predizem a vastidão do infinito quando ignoram a presença do rei.

O rei inexiste, pois se soma a maioria do que seus peões, e tece
A renda duas alas para si, enquanto outras torres cobrem
Com suas antenas a materialidade da farsa em cinco ou mais dos seus.

Um jogo de tabuleiro de registros, as peças suando por vezes na linha
Que se propõe reta no ir e vir de outras propostas, que seja, apenas
O trânsito desimpedido de um tabuleiro sem regras nem estratégias...

De se formar um modo de subtrair contendas, no mote sem mates ou paz
Como finalidade do jogo, mas que cinco seriam demais com as mãos
Que se atrevem a verterem fantoches sobre os mesmos delírios céticos
Que travam a consecução de uma ordem qualquer a predispor uma mesma fé
Necessária a que tomemos como base o pressuposto de estarmos em dia
Com a vitória inabalada e já conquistada de nossa aprumada cidadania!