Uma
pedra no caminho é algo certo, porventura, mas o caminho com essa pedra parece
ter as frentes de um obstáculo, não parece o ideal, uma conformação bem
regular, mas não deixa de ser real, pois aquilo que imaginamos ser um máximo,
por vezes encontra essa irregularidade, essa jaça, esse desconforme, quiçá,
justamente quando essa pedra signifique um obstáculo, algo que nos atrapalhe,
ou mesmo nos impeça de continuar pela mesma direção. Não demolimos um muro, não
cortamos uma cerca de arame, sabemos da propriedade, sabemos que a rua é
pública, quando não está em um condomínio privado: nossa educação nos tem
revelado, desde que somos crianças, os códigos, o modo de se viver em
sociedade, as roupas que passamos a vestir, desde os primórdios das fraldas.
A
realidade material veste sobre nós a exatidão dos princípios e comportamentos,
sói na realidade do psiquismo ver que por vezes o que norteia coisas como uma
vida espiritual, apenas por vezes nos dá uma certa confusão, quando não sabemos
discernir exatamente quais são as suas fronteiras, talvez por isso, antes de
ingressar na espiritualidade pura e simples devamos passar pelas fronteiras dos
cânones, ou as demandas religiosas de per si. Pois que a educação religiosa é
apenas um início de que a realidade de nossas culturas e valores passa por esse
viés, e as escolhas são feitas sob determinados princípios de valores, onde podemos
inclusive não crer em nada, pois todos são livres em sociedades que demandem a
igualdade de crenças e identidade cultural, étnica, de classes ou ideologias.
Porventura temos a lei dos homens, e essa é a que conforma a lei para todos,
independente se algum cidadão crê na lei do Talmude, do Alcorão, ou da
Bíblia... Assim como há um princípio onde as nações não devem exercer qualquer
domínio político ou econômico sobre outras, pois isso fere a soberania mesma
das nações como um todo, e esse exercício imperial só faz com que demandas
histórias pregressas não coadunem com tempos em que isso era visto como normal
e que hoje, no novo milênio, espera-se que já seja considerado anacrônico como
sinal de regresso não apenas conceitual, mas mesmo do ponto de vista da
evolução histórica como um todo.
Temos a
exatidão, principalmente nas questões relativas à tecnologia, assim como em um
prisma bem construído a refração ótica isola em cores um feixe de luz branca...
Assim como na eletrônica, uma placa mãe bem realizada demanda que um bom computador
sirva para algo e consiga igualmente realizar com outros dispositivos os outputs
necessários. Uma enxada tem que ser boa para ser ferramenta útil, bem como a
semente ajuda como grão de vida a realizar o milagre do alimento. Esse, de
tantos, posto a vida não pede passagem, e o feijão serve na mesma medida tanto
para o cristão como para o ateu. Poder-se-ia até dizer que o critério da boa
ética não infere que um seja melhor do que o outro, pois existem lobos em pele
de cordeiro, e muitos que se dizem extremamente religiosos muitas vezes são
mais gananciosos do que alguns que dão duro trabalhando e só conhecem o valor
da terra e do pão. O exato no plano das humanidades não é tão fácil de
imaginar, posto o valor subjetivo nessa equação é algo que remonta eras
imemoriais, arquétipos subjacentes, ícones, símbolos, formas e funções,
comportamentos e psiques os mais variados, dependendo muito da cultura em que
se inserem as populações, suas diferenças, sua história e o que isso significa
em um panorama amplo onde não se exclui jamais a objetividade, mas o valor
subjetivo sobremodo é o mais saliente.
Sobretudo
na arte, esse fragmento cultural permanente e imanente do espírito humano, a
expressão e sua necessidade torna para aqueles que ainda a exercem e possuem o
meio vivo para tal, ou mesmo no esteio filosófico-anímico, tudo o que reja a
busca do ser humano para estar em conformidade com sua veia, sua atuação na
sociedade como agente que não subtrai, mas agrega sempre, vem a dar, ou já veio
a dar na realização de obras como a Pietá, de Michelângelo, da Virgem dos
Rochedos, de Da Vinci, ou mesmo na obra Ulisses, de James Joyce, considerados
os tempos, consideradas as circunstâncias e a cultura de cada era. A escola de
cada qual seja permanente, e um homem pode se considerar feliz se exerce suas
atividades plenas a bel prazer, na consecução de uma mensagem que possa consagrar
no mínimo a outro leitor algo que agregue mais atenção e oferte uma dádiva em
seu coração, não apenas no que consideraria um ideal de um pensamento, algo nos
antigos, de um afresco em um templo, ou mesmo um bronze de Krishna, quando de
se crer que exista mais de um bilhão de pessoas que creiam nessa imagem. E a
conclusão que se tire do ideal de beleza, ou do pensamento, ou mesmo de uma
carta de Paulo, quando se referia ao Salvador, era que a Palavra que proferimos
por vezes é grande como um sol, quando lida sob a luz do leito digital de um
celular, ou mesmo à luz de velas, quando impressa e sob a superfície crua de
uma pedra na selva, ou quando sabemos que fica a mesma mensagem para sempre, à
medida que o tempo em que nos tornamos imortais na citada palavra, nos torna
mais serenos por termos nos expressado, o que já é um bom começo de uma jornada
que começara bem mais cedo, antes do nascituro, como dizia Jung, antes mesmo da
fecundação, naquilo que já era inconsciente coletivamente, e que nos esperava
apenas para que, adicionado ao nosso self, desse corpo a que nos individuasse o
ser, no nosso processo gradual de existência.