Uma
tarefa de Hércules por vezes é a admissão de que somos dependentes do álcool e
das drogas, considerando que a nicotina é uma das piores. Que perdemos o
controle, que estamos insanos, causando danos à nossa saúde física, emocional e
espiritual. Esse é um passo importante, quando já racionalizamos, já mentimos,
já nos defendemos para usar a substância, depois que tudo fizemos para que
acontecesse uma doença que nos afetara, quando perdemos a família, quando estamos
no fundo do poço, ou mesmo quando algum risco tremendo à saúde vira coisa
concreta. Conseguimos, por vezes, vitórias rumo à recuperação, e em outras pode
vir a recaída, que faz parte da doença do adicto, mas não de sua recuperação. O
nível de dependência, quando muito alto, tem a ver com a tolerância que
desenvolvemos pela droga, onde a quantidade e a frequência aumentam
consideravelmente, para que o efeito seja o mesmo do que em escalas menores de
consumo. No caso de drogas psicoativas, quando o efeito psicoativo se dá no
consumo, e não na abstinência, será na realidade o fator onde a droga age no
cérebro mais evidentemente, mudando nosso comportamento, ou mesmo quando –
abstinentes – sentimos um descontrole que muitas vezes demanda a intervenção da
medicina psiquiátrica. Ou de um terapeuta competente. Quando a droga é a
nicotina, o que se dá é um grande impacto nas síndromes de abstinência, similar
ao álcool e aos opióides, ou mesmo em variantes da cocaína, como o crack ou
mesmo a inalação abusiva do pó. Essa abstinência pode vir a afetar sobremodo os
enfermos de outras comorbidades mentais, como psicoses, neuroses graves, ou depressão
e ansiedade generalizada. Quando isso ocorre, o acompanhamento do psiquiatra e
seu apoio se torna quase compulsório, e não basta um pneumologista, para
acompanhar o desenvolvimento e recuperação de um paciente tomado por enfisema,
se ainda não estiver muito afetado, pois o vício da nicotina é grande, e suas
recaídas podem ocorrer amiúde, tão frequentemente quanto uma oscilação abrupta
do humor, por isso a medicação se torna tão necessária...
O passo inicial para tomar-se consciência da
gravidade da dependência é simplesmente jogar a toalha, pedir – se necessário –
apoio de algum profissional, e por vezes se internar ou em uma instituição, ou
em grupos de recuperação, como o AA, NA ou NiCa. Exames físicos e mentais se
tornam necessários, apoios como o CAPSad igualmente dão um suporte razoável, e
outras retaguardas de apoio, como a vida em uma religião, igualmente ajudam
muito, quando ainda não se possui a fé suficiente para largar o vício. A questão
da espiritualidade revela que, depois do primeiro passo, o da aceitação de que somos
impotentes diante de alguma droga, vem o segundo, que fala que apenas rogando a
um poder superior, que possa nos devolver a sanidade, e que virá na entrega a
ele, finalmente, com o terceiro passo. O segundo passo é o “vir a acreditar” em
um Poder maior do que nós mesmos, e o terceiro, o passo da entrega a Ele, como
uma via onde esse citado Poder Superior, Deus, conforme cada um O conceba, venha
nos tirar dos grilhões do vício. Mas admitir, sobretudo, que as drogas são algo
que nos passa a rasteira de modo a fazer-nos muitas vezes sucumbir às suas
tentações, o primeiro passo, deve ser prática diária para todo aquele que apesar
de seu passado por vezes sinistro, não deve se esquecer do mesmo passado, mas
passar a sua experiência de vida para outros, já que é escutando as partilhas
em grupos de recuperação e praticando seus programas, que se torna possível
contornar as armadilhas do vício e recuperarmo-nos plenamente, a exemplo de
muitos que trilharam essa senda.