quarta-feira, 21 de outubro de 2026
Não tinha ainda quinze anos, e no engenho superava muitos homens graves e doutos. Confesso-Vos os Vossos dons, ó Senhor meu Deus, criador de tudo e abundantemente capaz de reformar as nossas deformidades — pois eu nada tive naquele menino senão o pecado. Que o houvéssemos criado na Vossa disciplina, fostes Vós, e ninguém mais, que no-lo inspirastes. Confesso-Vos os Vossos dons. Há um livro nosso intitulado O Mestre: é um diálogo entre ele e mim. Vós sabeis que tudo o que ali se atribui à pessoa que conversa comigo eram ideias dele, aos dezesseis anos. Muito mais, e ainda mais admirável, achei nele. Aquele talento infundia-me temor reverente. E quem senão Vós poderia ser o artífice de tais maravilhas? Cedo tirastes da terra a sua vida; e agora recordo-o sem ansiedade, nada temendo pela sua infância, nem pela sua juventude, nem por ele todo. Juntamo-lo a nós, contemporâneo nosso na graça, para ser criado na Vossa disciplina; e fomos batizados, e desvaneceu-se de nós a ansiedade pela vida passada. Nem me saciava, naqueles dias, da admirável doçura de considerar a profundidade dos Vossos desígnios acerca da salvação do gênero humano. Como chorei nos Vossos hinos e cânticos, tocado no mais fundo pelas vozes da Vossa Igreja de doce harmonia! Aquelas vozes fluíam para os meus ouvidos, e a Verdade destilava-se no meu coração, donde transbordavam os afetos da minha piedade; e corriam-me as lágrimas, e nelas era eu feliz. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.
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