sábado, 19 de setembro de 2026

Tornei-me para mim mesmo um grande enigma, e perguntava à minha alma por que estava triste e por que tanto me perturbava; e ela não sabia que responder-me. E, se eu lhe dizia espera em Deus, com toda a razão me não obedecia, porque aquele amicíssimo que perdera era, sendo homem, mais verdadeiro e melhor do que o fantasma em que lhe mandavam esperar. Só as lágrimas me eram doces, pois tomaram o lugar do meu amigo nas delícias do meu coração. E agora, Senhor, que estas coisas já passaram e o tempo curou a minha ferida, possa eu aprender de Vós, que sois a Verdade, e aproximar o ouvido do meu coração da Vossa boca, para que me digais por que o choro é doce aos miseráveis. Acaso Vós, ainda que presente em toda parte, lançastes para longe de Vós a nossa miséria? Vós permaneceis em Vós mesmo, e nós somos sacudidos por diversas provações. E, contudo, se não gemêssemos aos Vossos ouvidos, não nos restaria esperança alguma. Donde vem, então, que se colha fruto doce da amargura da vida, dos gemidos, das lágrimas, dos suspiros e das queixas? Adoça-a acaso o esperarmos que nos ouçais? Isto é verdade quanto à oração, pois nela há o anseio de nos aproximarmos de Vós. Mas será também assim na dor por uma coisa perdida, e na tristeza que então me esmagava? Pois eu nem esperava que ele voltasse à vida, nem isso pedia com as minhas lágrimas: apenas chorava e sofria. Porque era miserável e perdera a minha alegria. Ou será o choro, na verdade, coisa amarga, e pelo próprio enfado das coisas de que antes gozávamos é que nos agrada, quando delas nos afastamos? Mas para que falo destas coisas? Agora não é tempo de indagar, mas de Vos confessar. Miserável era eu; e miserável é toda alma presa pela amizade das coisas perecíveis: é despedaçada quando as perde, e sente então a miséria que já tinha antes de as perder. Assim se passava então comigo: chorava amarguíssimamente e encontrava o meu repouso na amargura. Assim era eu miserável, e essa vida miserável tinha-a por mais cara do que o meu amigo. Pois, ainda que de bom grado a quisesse trocar, mais me repugnava separar-me dela do que dele; e nem sei se a teria trocado sequer por ele, como se conta — se não é ficção — de Pílades e Orestes, que de bom grado teriam morrido um pelo outro, ou juntos, sendo lhes pior do que a morte não viverem juntos. Mas em mim nascera um sentimento inexplicável, muito contrário a este: pois ao mesmo tempo me repugnava sobremaneira viver e temia morrer. Suponho que, quanto mais o amava, tanto mais odiava e temia, como a inimiga cruelíssima, a morte que mo arrebatara; e imaginava que ela depressa daria cabo de todos os homens, já que tivera poder sobre ele. Assim era comigo, bem me lembro. Eis o meu coração, ó meu Deus, eis, vede dentro de mim; pois bem me lembro, ó minha Esperança, que me purificais da imundície de tais afetos, dirigindo os meus olhos para Vós e arrancando do laço os meus pés. Pois eu me admirava de que os outros, sujeitos à morte, vivessem, uma vez que morrera aquele a quem eu amava como se nunca houvesse de morrer; e mais ainda me admirava de que eu, que era para ele um outro eu, pudesse viver, estando ele morto. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.

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