quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Naqueles anos ensinava eu retórica e, vencido pela cobiça, vendia uma loquacidade destinada a vencer. E, contudo, preferia — Vós o sabeis, Senhor — alunos honestos, como se costuma dizer; e a estes, sem artifício, ensinava artifícios, não para os usarem contra a vida de um inocente, ainda que às vezes em favor da vida de um culpado. E Vós, ó Deus, de longe me víeis tropeçar naquele caminho escorregadio e, em meio a muita fumaça, lançar algumas centelhas de lealdade, que eu mostrava naquela minha direção dos que amavam a vaidade e buscavam a mentira — eu, companheiro deles. Naqueles anos tive uma companheira, não naquilo a que se chama matrimônio legítimo, mas que eu descobrira numa paixão desregrada e sem discernimento; contudo, uma só, e a ela permaneci fiel. E nela experimentei, no meu próprio caso, que diferença há entre a moderação do pacto conjugal, contraído em vista dos filhos, e o ajuste de um amor libidinoso, em que os filhos nascem contra a vontade dos pais — ainda que, uma vez nascidos, imponham o amor. Lembro-me também de que, tendo eu decidido concorrer a um prêmio teatral, certo mago me perguntou quanto lhe daria para que eu vencesse. Mas eu, detestando e abominando tais mistérios imundos, respondi: “Ainda que a coroa fosse de ouro incorruptível, não permitiria que se matasse uma mosca para ma dar.” Pois ele haveria de matar alguns animais nos seus sacrifícios, e com essas honras convidar os demônios a favorecerem-me. Mas também este mal rejeitei, não por amor puro de Vós, ó Deus do meu coração: pois eu não sabia amar-Vos, eu que não sabia conceber nada além de um esplendor material. E não fornica contra Vós a alma que suspira por tais ficções, e confia em coisas irreais, e apascenta o vento? E que outra coisa é apascentar o vento senão apascentar os demônios — isto é, tornar-se, pelo próprio extravio, o seu deleite e o seu escárnio? CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.

Nenhum comentário:

Postar um comentário