quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Havia naquele tempo um homem sábio, muito perito em medicina e nela afamado, que com a sua própria mão de procônsul pusera a coroa dos jogos na minha cabeça enferma — mas não como médico, pois esta doença só Vós a curais, Vós que resistis aos soberbos e dais graça aos humildes. Mas acaso me faltastes até por meio daquele velho, ou deixastes de curar a minha alma? Pois, tendo eu com ele travado maior conhecimento e me apegado assídua e fixamente à sua conversa (que, ainda que em termos simples, era viva, animada e séria), quando ele percebeu, pelo meu falar, que eu andava entregue aos livros dos que traçam horóscopos, aconselhou-me com bondade paternal a deitá-los fora e a não gastar inutilmente com tais vaidades um cuidado e uma diligência necessários às coisas úteis. Contou-me que, nos primeiros anos, estudara aquela arte, a ponto de fazer dela a profissão de que viveria; e que, entendendo Hipócrates, bem depressa poderia ter entendido também aquele estudo. E, contudo, abandonara-o e se dedicara à medicina, por nenhuma outra razão senão por havê-lo achado inteiramente falso; e ele, homem sério, não queria ganhar a vida enganando os outros. “Mas tu”, dizia, “tens a retórica para te sustentar; de modo que segues isso por livre escolha, e não por necessidade. Tanto mais, portanto, deves dar-me crédito nesta matéria, eu que me esforcei por adquiri-la tão perfeitamente que só dela vivia.” CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.
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