sábado, 19 de setembro de 2026
Mas eu ainda não via em que se apoiava esta grave questão na Vossa sabedoria, ó Onipotente, que só Vós fazeis maravilhas. E o meu espírito percorria as formas corpóreas; e definia e distinguia o “belo”, que o é em si mesmo, e o “conveniente”, cuja beleza está na correspondência com outra coisa; e apoiava isto em exemplos corpóreos. E voltei-me para a natureza da mente; mas a falsa noção que eu tinha das coisas espirituais não me deixava ver a verdade. E, contudo, a força da verdade fulgurava por si mesma aos meus olhos, e eu desviava a minha alma ofegante da substância incorpórea para os contornos, as cores e as grandezas volumosas. E, não podendo ver estas coisas na mente, julgava não poder ver a minha própria mente. E, uma vez que na virtude eu amava a paz, e no vício abominava a discórdia, notava naquela uma unidade e neste uma espécie de divisão. E naquela unidade fazia consistir a alma racional, e a natureza da verdade e do sumo bem; nesta divisão, porém, imaginava eu, miseravelmente, haver não sei que substância de vida irracional, e a natureza do sumo mal — que seria não só substância, mas vida real, e todavia não derivada de Vós, ó meu Deus, de quem são todas as coisas. E àquela primeira chamava eu Mônada, como se fosse uma alma sem sexo; e a esta, Díada — a ira, nas ações violentas, e a paixão, nas torpezas —, sem saber o que dizia. Pois eu não sabia nem aprendera que o mal não é substância, nem que a nossa alma não é aquele bem sumo e imutável. Pois, assim como as ações violentas nascem quando se corrompe aquele impulso da alma donde procede a ação enérgica, agitando-se com insolência e desregramento; e as paixões, quando se desgoverna aquele afeto da alma pelo qual se sorvem os prazeres carnais; assim os erros e as falsas opiniões maculam a vida, se a própria alma racional se corrompe — como então em mim, que não sabia que ela deve ser iluminada por outra luz para participar da verdade, uma vez que ela mesma não é a natureza da verdade. Pois Vós acendereis a minha lâmpada, ó Senhor meu Deus; iluminareis as minhas trevas; e da Vossa plenitude todos nós recebemos, porque sois a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo; pois em Vós não há mudança nem sombra de variação. Mas eu esforçava-me por chegar a Vós, e era repelido por Vós, para provar a morte: pois resistis aos soberbos. E que haveria de mais soberbo do que eu afirmar, com estranha loucura, ser por natureza aquilo que Vós sois? Pois, estando eu sujeito à mudança — o que me era bastante manifesto, já que o meu próprio desejo de tornar-me sábio era o desejo de, de pior, tornar-me melhor —, preferia todavia imaginar-Vos sujeito à mudança a admitir que eu não era aquilo que Vós sois. Por isso era repelido por Vós, e Vós resistíeis à minha vã obstinação; e eu imaginava formas corpóreas e, sendo carne, acusava a carne; e, vento que passa, não voltava a Vós, mas seguia adiante, cada vez mais, para coisas que não existem nem em Vós, nem em mim, nem no corpo — coisas que não foram criadas para mim pela Vossa verdade, mas forjadas pela minha vaidade a partir das coisas corpóreas. E costumava perguntar aos Vossos pequeninos fiéis, meus concidadãos (de quem, sem o saber, eu vivia exilado); costumava, tagarela e insensato, perguntar-lhes: “Por que erra, então, a alma que Deus criou?” Mas não queria que me perguntassem: “Por que erra, então, Deus?” E sustentava que a Vossa substância imutável errava por coação, antes que confessar que a minha substância mutável se desviara voluntariamente, e agora, em castigo, jazia no erro. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.
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