quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Ó loucura, que não sabe amar os homens humanamente! Ó homem insensato que eu era então, suportando com impaciência a condição humana! Enervava-me, suspirava, chorava, andava perturbado; não tinha nem repouso nem conselho. Pois carregava comigo uma alma despedaçada e sangrenta, impaciente de ser carregada por mim; e onde a depositar, eu não achava. Nem nos bosques amenos, nem nos jogos e na música, nem nos lugares perfumados, nem nos banquetes requintados, nem nos prazeres do leito e do repouso; nem sequer nos livros e na poesia encontrava ela descanso. Tudo era horrível, até a própria luz; tudo o que não era ele tornara-se-me repugnante e odioso, exceto os gemidos e as lágrimas. Só neles encontrava algum alívio. Mas, quando a minha alma se afastava deles, uma enorme carga de miséria pesava sobre mim. A Vós, Senhor, deveria ela ter sido erguida, para que a aliviásseis: eu o sabia; mas nem podia nem queria. E tanto menos porque, quando pensava em Vós, Vós não éreis para mim coisa sólida nem substancial. Pois não éreis Vós, mas um mero fantasma; e o meu erro era o meu Deus. Se tentava depositar nele a minha carga, para que descansasse, ela deslizava pelo vazio e vinha de novo desabar sobre mim; e eu ficava para mim mesmo um lugar infeliz, onde não podia estar, nem de onde podia sair. Pois para onde havia de fugir o meu coração, longe do meu coração? Para onde havia eu de fugir de mim mesmo? Para onde não me seguiria a mim mesmo? E, contudo, fugi da minha terra; pois assim menos o procurariam os meus olhos onde não estavam habituados a vê-lo. E assim, de Tagaste vim para Cartago. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.
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