sábado, 19 de setembro de 2026

Tinha eu, pois, uns vinte e seis ou vinte e sete anos quando escrevi aqueles volumes, revolvendo dentro de mim ficções corpóreas que zumbiam nos ouvidos do meu coração — ouvidos que eu voltava, ó doce Verdade, para a Vossa melodia interior, meditando sobre o “belo e o conveniente” e ansiando por deter-me e escutar-Vos e alegrar-me grandemente com a voz do Esposo; e não podia, porque pelas vozes dos meus próprios erros era arrastado para fora, e pelo peso da minha soberba afundava no mais baixo abismo. Pois não me destes ouvir a alegria e a exultação, nem exultaram os ossos que ainda não haviam sido humilhados. E que me aproveitou que, tendo eu apenas uns vinte anos, e caindo-me às mãos um livro de Aristóteles a que chamam as Dez Categorias — de cujo nome eu ficava suspenso, como de algo grande e divino, sempre que o meu mestre de retórica de Cartago e outros tidos por doutos o pronunciavam com as faces a estourar de orgulho —, eu o tenha lido e compreendido sozinho? E, quando conferia com outros, que diziam mal tê-lo entendido com mestres habilíssimos, os quais não só o explicavam de viva voz, mas desenhavam muitas coisas na areia, nada mais me souberam dizer dele do que eu aprendera lendo-o por mim mesmo. E o livro parecia-me falar muito claramente das substâncias, como o “homem”, e das suas qualidades: qual é a figura do homem; e a estatura, quantos pés tem; e a sua relação, de quem é irmão; ou onde está situado; ou quando nasceu; ou se está de pé ou sentado; ou se está calçado ou armado; ou se faz ou padece alguma coisa — e todas as inumeráveis coisas que se podem dispor sob estas nove Categorias, de que dei alguns exemplos, ou sob aquela Categoria principal, que é a Substância. De que me aproveitou tudo isto, se até me prejudicou? Pois, imaginando que tudo quanto existe está compreendido naquelas dez Categorias, tentei entender assim, ó meu Deus, também a Vossa admirável e imutável Unidade, como se também Vós estivésseis sujeito à Vossa própria grandeza ou beleza, de modo que elas existissem em Vós como no seu sujeito, à maneira dos corpos — quando Vós mesmo sois a Vossa grandeza e a Vossa beleza; ao passo que um corpo não é grande nem belo pelo fato de ser corpo, visto que, ainda que fosse menos grande ou menos belo, nem por isso deixaria de ser corpo. Mas era falsidade o que de Vós concebia, e não verdade: ficções da minha miséria, e não realidades da Vossa bem-aventurança. Pois Vós havíeis ordenado, e assim se cumpriu em mim, que a terra me produzisse espinhos e abrolhos, e que com o suor do meu rosto comesse o meu pão. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.

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