sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Pois, ainda que eu não me esforçasse por aprender o que ele dizia, mas apenas por ouvir como o dizia — era este o único e vão cuidado que me restava, desesperando eu de um caminho aberto ao homem para chegar a Vós —, juntamente com as palavras que eu queria acolher entravam também no meu espírito as coisas que eu queria rejeitar; pois não podia separá-las. E, enquanto abria o coração para admitir “quão eloquentemente ele falava”, entrava também “quão verdadeiramente ele falava” — mas isto pouco a pouco. Pois, primeiro, aquelas coisas começaram a parecer-me capazes de defesa; e a fé católica, em favor da qual eu julgava que nada se podia dizer contra as objeções dos maniqueus, parecia-me agora poder sustentar-se sem desonra, sobretudo depois de ouvir explicados um ou dois lugares do Antigo Testamento, e muitas vezes “em sentido figurado” — os quais, quando eu os entendia à letra, me matavam espiritualmente. Explicados, pois, muitíssimos lugares daqueles livros, censurava agora o meu desespero, por haver crido que nenhuma resposta se podia dar aos que odiavam e escarneciam a Lei e os Profetas. E, contudo, nem por isso via ainda que se devesse abraçar o caminho católico, só porque também ele podia encontrar defensores doutos, capazes de responder às objeções com largueza e com alguma aparência de razão; nem que o que eu sustentava devesse por isso ser condenado, já que ambos os lados podiam ser defendidos. Pois a causa católica parecia-me, deste modo, não vencida, mas ainda não vitoriosa. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.

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