quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Convertei-nos, ó Deus dos exércitos, mostrai-nos o Vosso rosto, e seremos salvos. Pois, para onde quer que se volte a alma do homem, se não for para Vós, fica cravada em dores, ainda que se crave em coisas belas. E, contudo, estas coisas, fora de Vós e fora da alma, não existiriam, se não fossem de Vós. Nascem e morrem; e, nascendo, começam por assim dizer a ser; crescem, para se aperfeiçoarem; e, aperfeiçoadas, envelhecem e perecem — e nem todas envelhecem, mas todas perecem. Assim, quando nascem e tendem a ser, quanto mais depressa crescem para ser, tanto mais se apressam para não ser. Esta é a lei delas. Isto lhes concedestes, porque são partes de coisas que não existem todas ao mesmo tempo, mas que, passando e sucedendo-se, completam em conjunto aquele universo de que são partes. Assim também se completa a nossa fala por sinais que produzem som; mas ela tampouco se aperfeiçoa se uma palavra não passar, depois de ter soado a sua parte, para que outra lhe suceda. Por todas estas coisas Vos louve a minha alma, ó Deus, criador de tudo; mas que a minha alma se não deixe cravar nelas pela cola do amor, através dos sentidos do corpo. Pois elas vão para onde deviam ir, para deixarem de ser; e dilaceram a alma com desejos pestilentos, porque ela quer ser, e todavia ama repousar naquilo que ama. Mas nestas coisas não há lugar de repouso: não permanecem, fogem. E quem as pode seguir com os sentidos da carne? Ou quem as pode segurar, mesmo quando estão perto? Pois o sentido da carne é lento, porque é sentido da carne, e nisso está o seu limite. Basta para aquilo para que foi feito; mas não basta para deter as coisas que correm o seu curso, do ponto de partida que lhes foi marcado até o fim que lhes foi determinado. Pois no Vosso Verbo, pelo qual foram criadas, ouvem elas o seu decreto: “daqui até ali”. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.

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