quinta-feira, 17 de setembro de 2026
E agora, Senhor, que estas coisas já passaram e o tempo curou a minha ferida, possa eu aprender de Vós, que sois a Verdade, e aproximar o ouvido do meu coração da Vossa boca, para que me digais por que o choro é doce aos miseráveis. Acaso Vós, ainda que presente em toda parte, lançastes para longe de Vós a nossa miséria? Vós permaneceis em Vós mesmo, e nós somos sacudidos por diversas provações. E, contudo, se não gemêssemos aos Vossos ouvidos, não nos restaria esperança alguma. Donde vem, então, que se colha fruto doce da amargura da vida, dos gemidos, das lágrimas, dos suspiros e das queixas? Adoça-a acaso o esperarmos que nos ouçais? Isto é verdade quanto à oração, pois nela há o anseio de nos aproximarmos de Vós. Mas será também assim na dor por uma coisa perdida, e na tristeza que então me esmagava? Pois eu nem esperava que ele voltasse à vida, nem isso pedia com as minhas lágrimas: apenas chorava e sofria. Porque era miserável e perdera a minha alegria. Ou será o choro, na verdade, coisa amarga, e pelo próprio enfado das coisas de que antes gozávamos é que nos agrada, quando delas nos afastamos? CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.
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