quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Com esta dor, o meu coração ficou inteiramente às escuras, e tudo quanto eu via era morte. A minha terra natal era-me um tormento, e a casa paterna uma estranha infelicidade; e tudo quanto com ele partilhara, faltando ele, tornara-se um suplício dilacerante. Os meus olhos procuravam-no por toda parte, e não lho concediam; e eu odiava todos os lugares, porque não o tinham; nem podiam já dizer-me “ele vem aí”, como quando estava vivo e ausente. Tornei-me para mim mesmo um grande enigma, e perguntava à minha alma por que estava triste e por que tanto me perturbava; e ela não sabia que responder-me. E, se eu lhe dizia espera em Deus, com toda a razão me não obedecia, porque aquele amicíssimo que perdera era, sendo homem, mais verdadeiro e melhor do que o fantasma em que lhe mandavam esperar. Só as lágrimas me eram doces, pois tomaram o lugar do meu amigo nas delícias do meu coração. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.
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