quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Tendo-lhe esta mulher pedido que se dignasse conversar comigo, refutar os meus erros, desensinar-me o mal e ensinar-me o bem — pois isto ele costumava fazer, quando encontrava pessoas capazes de o receber —, recusou; sabiamente, como depois compreendi. Pois respondeu que eu era ainda indócil, inchado pela novidade daquela heresia, e que já perturbara com questões capciosas várias pessoas inexperientes, conforme ela mesma lhe contara. “Mas deixa-o por algum tempo”, disse ele; “reza somente a Deus por ele: por si mesmo, lendo, descobrirá qual é aquele erro e quão grande a sua impiedade.” Ao mesmo tempo contou-lhe como ele próprio, ainda pequeno, fora entregue aos maniqueus pela mãe seduzida, e não só lera, mas copiara com frequência quase todos os seus livros; e como vira — sem argumento nem prova de quem quer que fosse — quanto se devia fugir daquela seita; e dela fugira. Dito isto, e não se dando ela por satisfeita, mas insistindo mais com súplicas e muitas lágrimas para que ele me visse e comigo conversasse, ele, um tanto contrariado com a importunação, disse: “Vai-te embora, e Deus te abençoe; pois não é possível que pereça o filho de tantas lágrimas.” Ela recebeu esta resposta — como muitas vezes recordava nas conversas comigo — como se tivesse ressoado do céu. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.
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