sábado, 19 de setembro de 2026
Assim amava eu então os homens, segundo o juízo dos homens, e não o Vosso, ó meu Deus, em quem ninguém se engana. Mas por que não os amava eu por qualidades como as de um famoso auriga ou de um lutador de feras no anfiteatro, conhecidos por toda parte de uma popularidade vulgar, e sim de modo bem diverso, e com seriedade, e tal como eu mesmo desejaria ser louvado? Pois eu não queria ser louvado nem amado como o são os atores — ainda que eu próprio os louvasse e amasse —; antes preferia ser desconhecido a ser conhecido assim, e até odiado a ser assim amado. Onde estão guardados, numa só alma, os impulsos de amores tão vários e diversos? Por que, sendo ambos igualmente homens, amo eu em outro aquilo que, se não odiasse, não repeliria e lançaria para longe de mim? Pois não vale dizer que, assim como um bom cavalo é amado por quem não quereria, ainda que pudesse, ser aquele cavalo, o mesmo se possa dizer de um ator, que partilha da nossa natureza. Amo, então, num homem, aquilo que odiaria ser, eu que sou homem? O próprio homem é um grande abismo, cujos cabelos Vós contais, Senhor, e nem um deles cai sem Vós. E, contudo, mais fácil é contar os cabelos da sua cabeça do que os seus sentimentos e os movimentos do seu coração. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.
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