quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Durante este espaço de nove anos — dos dezenove aos vinte e oito da minha idade — vivemos seduzidos e seduzindo, enganados e enganando, em variadas paixões: publicamente, pelas ciências a que chamam liberais; ocultamente, sob o nome falso de religião; aqui soberbos, ali supersticiosos, e em toda parte vãos. De um lado, correndo atrás da vacuidade da fama popular, até aos aplausos do teatro, aos prêmios poéticos, às disputas por coroas de erva, às futilidades dos espetáculos e à intemperança dos desejos. De outro, desejando purificar-nos destas imundícies, levando alimentos aos que se chamavam “eleitos” e “santos”, para que na oficina dos seus estômagos forjassem para nós anjos e deuses pelos quais fôssemos purificados. Estas coisas eu seguia e praticava com os meus amigos, por mim e comigo enganados. Zombem de mim os arrogantes, e todos aqueles que ainda não foram, para a saúde da sua alma, feridos e derrubados por Vós, ó meu Deus; eu, contudo, hei de confessar-Vos a minha própria vergonha para Vosso louvor. Permiti-mo, Vo-lo peço, e dai-me graça de percorrer, na memória de hoje, os desvios do meu tempo passado, e de Vos oferecer o sacrifício de louvor. Pois que sou eu para mim mesmo sem Vós, senão guia da minha própria ruína? Ou que sou eu, mesmo no melhor estado, senão uma criança que mama o leite que dais e se alimenta de Vós, alimento que não perece? E que espécie de homem é um homem qualquer, sendo apenas homem? Riam-se de nós, pois, os fortes e os poderosos; mas nós, pobres e necessitados, confessemo-Vos. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.
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