quarta-feira, 16 de setembro de 2026

E donde veio também isto: que, tendo-me ela contado a visão, e querendo eu torcê-la no sentido de que “ela é que não devia desesperar de vir a ser um dia o que eu era”, respondeu ela imediatamente, sem hesitação alguma: “Não; pois não me foi dito ‘onde ele está, ali estarás tu’, mas ‘onde tu estás, ali estará ele’”? Confesso-Vos, Senhor, que, tanto quanto me lembro — e disto falei muitas vezes —, aquela Vossa resposta, pela boca de minha mãe desperta, comoveu-me então mais do que o próprio sonho: que ela não se tenha deixado perturbar pela plausibilidade da minha falsa interpretação, e tenha visto tão depressa o que havia a ver, coisa que eu certamente não percebera antes de ela falar. E naquele sonho fora anunciada, tanto tempo antes, para consolo da sua angústia presente, uma alegria daquela santa mulher que só muito depois havia de cumprir-se. Pois passaram-se quase nove anos, em que me revolvi no lodo daquele fosso profundo e nas trevas da falsidade, tentando muitas vezes erguer-me e sendo cada vez mais gravemente derrubado. E, durante todo esse tempo, aquela viúva casta, piedosa e sóbria, das que Vós amais, ainda que já mais animada pela esperança, em nada afrouxando no seu pranto e no seu luto, não cessou de deplorar diante de Vós, em todas as horas das suas orações, a minha situação. E as suas preces chegaram à Vossa presença; e, todavia, permitistes que eu continuasse envolvido e reenvolvido naquelas trevas. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.

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