segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Assim vim a cair entre homens que deliravam de orgulho, demasiado carnais e tagarelas, em cujas bocas estavam os laços do demônio, untados com a mistura das sílabas do Vosso nome, e do de nosso Senhor Jesus Cristo, e do Espírito Santo Paráclito, nosso Consolador. Estes nomes não lhes saíam da boca — mas apenas quanto ao som e ao ruído da língua, pois o coração estava vazio de verdade. E clamavam: “Verdade, verdade!”, e muito ma falavam; e ela não estava neles. Antes, diziam falsidades, não só de Vós, que sois verdadeiramente a Verdade, mas até dos elementos deste mundo, criaturas Vossas. E eu, na verdade, deveria ter passado adiante até dos filósofos que a respeito deles diziam a verdade, por amor de Vós, meu Pai sumamente bom, formosura de tudo o que é formoso. Ó Verdade, Verdade, como já então suspirava por Vós, na intimidade, a medula da minha alma, quando eles Vos faziam ressoar aos meus ouvidos, tantas e tão variadas vezes, em muitos e enormes livros — e era só um eco! E estes eram os pratos em que, a mim que tinha fome de Vós, serviam, em Vosso lugar, o Sol e a Lua: obras belas Vossas, sim, mas obras Vossas, e não Vós mesmo; e nem sequer as Vossas primeiras obras. Pois as Vossas obras espirituais precedem estas obras corpóreas, ainda que celestes e luminosas. Eu, porém, não tinha fome nem sede sequer daquelas Vossas primeiras obras, mas de Vós mesmo, ó Verdade, em quem não há mudança nem sombra de variação. E eles continuavam a pôr-me diante, naqueles pratos, fantasias reluzentes — e melhor fora amar este mesmo sol, que ao menos é real para os nossos olhos, do que aquelas fantasias que, pelos olhos, enganam a mente. E, contudo, porque as julgava serem Vós, delas me alimentava; não com avidez, porque nelas não me sabíeis Vós como Vós sois — pois Vós não éreis aquelas vacuidades, nem por elas era eu nutrido, mas antes exaurido. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.
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