terça-feira, 15 de setembro de 2026

Ai, ai, por que degraus fui arrastado às profundezas do inferno! — labutando e afligindo-me por falta de Verdade, pois Vos buscava, meu Deus (a Vós o confesso, que de mim tivestes misericórdia quando eu ainda não confessava), não segundo a inteligência da mente, pela qual quisestes que eu superasse os animais, mas segundo o sentido da carne. Vós, porém, éreis mais íntimo do que o mais íntimo de mim, e mais alto do que o mais alto de mim. Fui dar com aquela mulher audaciosa, simples e que nada sabe, figurada por Salomão, sentada à porta e dizendo: Comei de bom grado pães escondidos, e bebei águas furtadas, que são doces. Ela me seduziu, porque me encontrou a alma habitando fora, nos olhos da carne, e ruminando o alimento que por eles havia devorado. Não conhecia eu outra realidade — aquela que verdadeiramente é —; e era como que impelido pela agudeza do engenho a dar assentimento a néscios enganadores quando me perguntavam: “Donde vem o mal?”; “está Deus circunscrito por uma forma corpórea, e tem cabelos e unhas?”; “devem ter-se por justos aqueles que tiveram várias mulheres ao mesmo tempo, e mataram homens, e imolaram animais?” Com isso eu, na minha ignorância, muito me perturbava; e, afastando-me da verdade, parecia-me caminhar para ela, porque ainda não sabia que o mal não é senão privação do bem, até ao ponto em que a coisa deixa inteiramente de ser. E como o veria eu, se a vista dos meus olhos alcançava apenas corpos, e a da minha mente apenas fantasmas? Nem sabia que Deus é Espírito, e não alguém que tenha partes estendidas em comprimento e largura, ou cujo ser seja massa; pois toda massa é menor numa parte do que no todo, e, se for infinita, será menor numa parte definida por certo espaço do que na sua infinitude, e assim não está toda em toda parte, como o Espírito, como Deus. E o que seria em nós aquilo pelo qual somos semelhantes a Deus, e pelo qual se pode dizer com razão que fomos feitos à imagem de Deus, eu o ignorava por completo. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.

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