sábado, 12 de setembro de 2026

Buscava o que amar, enamorado do amar; e odiava a segurança e o caminho sem ciladas. Pois havia dentro de mim fome daquele alimento interior, que sois Vós mesmo, meu Deus; e, contudo, não sentia fome dessa fome, e estava sem desejo algum do sustento incorruptível — não por estar dele saciado, mas porque, quanto mais vazio, mais o enjeitava. Por isso a minha alma andava doente e cheia de chagas, e miseravelmente se lançava para fora, desejando ser esfregada pelo contato das coisas sensíveis. E, contudo, se estas não tivessem alma, não seriam objeto de amor. Amar e ser amado era-me doce; mais ainda quando conseguia gozar do corpo da pessoa amada. Manchava, pois, a fonte da amizade com a imundície da concupiscência, e obscurecia-lhe o brilho com o inferno da libidinagem; e, torpe e indecoroso como era, queria, por excesso de vaidade, passar por elegante e cortês. Precipitei-me, então, naquele amor em que ansiava ser preso. Ó meu Deus, minha misericórdia, com quanto fel, pela Vossa grande bondade, aspergistes para mim aquela doçura! Pois fui amado, e cheguei em segredo ao vínculo do gozo; e alegremente me deixei prender por laços geradores de tristeza, para ser açoitado com as varas ardentes de ferro do ciúme, das suspeitas, dos temores, das iras e das contendas. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.

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