sábado, 12 de setembro de 2026

E a Vossa fiel misericórdia pairava sobre mim, de longe. Em que graves iniquidades me consumia eu, seguindo uma curiosidade sacrílega, para que, tendo-Vos abandonado, me arrastasse ao abismo traiçoeiro e ao serviço enganoso dos demônios, aos quais sacrificava as minhas más ações — e em todas elas Vós me açoitáveis! Ousei até, enquanto se celebravam as Vossas solenidades dentro dos muros da Vossa Igreja, desejar e tramar um negócio digno de morte pelos seus frutos; e por isso me castigastes com graves penas, ainda que nada fossem comparadas à minha culpa, ó Vós, minha imensa misericórdia, meu Deus, meu refúgio contra aqueles terríveis destruidores entre os quais eu vagava de cerviz ereta, afastando-me cada vez mais de Vós, amando os meus caminhos e não os Vossos, amando uma liberdade errante. Também aqueles estudos que eram tidos por louváveis visavam à distinção nos tribunais: quanto mais astuto, tanto mais louvado. Tal é a cegueira dos homens, que se gloriam até da própria cegueira. E eu era já o primeiro na escola de retórica, do que me alegrava com soberba e me inchava de arrogância — ainda que, Senhor, Vós o sabeis, muito mais tranquilo e de todo alheio às demolições daqueles “Demolidores” (pois este nome sinistro e diabólico era o próprio distintivo da elegância), entre os quais eu vivia, com uma vergonha desavergonhada de não ser igual a eles. Com eles vivia, e às vezes me comprazia na sua amizade, embora sempre abominasse os seus atos — isto é, as suas “demolições”, com que perseguiam por capricho o pudor dos recém-chegados, perturbando-o com zombarias gratuitas, e com isso alimentando a sua maligna condição. Nada há mais semelhante às próprias ações dos demônios do que isto. Que nome, pois, lhes caberia mais verdadeiramente do que “Demolidores”? CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.

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