Quem
serão os membros dignos do mundo? Serão aqueles que a tudo possuem, que vertem
de suas mãos as riquezas que os fazem poderosos, ou mesmo os que fazem parte de
famílias ilibadas, consortes da sensatez e espiritualmente “corretos?” Ou mesmo
os que tecem de suas artimanhas as sortes várias, fazendo com que outros
participem de seus jogos secretos, vez por outra, imiscuindo-se na vida de
outrem, ou perdurando tempos e mais tempos gastando suas salivas tentando
convencer eleitores de que suas propostas são melhores por atender as elites
que tanto defendem? São aqueles que cobram os pães e, comezinhos, não os
repartem, mesmo tendo de sobra em seus mercados onde a usura tece fios
inomináveis? Ou serão os caminhantes do mundo, que nada pedem, nada reclamam, apenas
sofrem o preconceito e a injustiça de governos de párias, que não os protegem:
antes, os segregam e os alienam em prisões e manicômios...
Haveríamos
de ter sorte na vida, assim como muitos querem ter a sorte no amor, fazendo o
sexo conforme se lhes dita a gana e a vontade. Muitos suporiam, dois pesos e
duas medidas, posto a vida se nos encontra mais díspar diante de infortúnios, e
o que se nos pareça uma fuga, por vezes é o desejo de ser feliz, e antes o que
pareça esse desejo, se torna simples fuga... Parece que desejamos, e fugimos,
nos embriagamos da sorte, literalmente, nos encorajamos com as drogas, e nos
altercamos com a sensatez. A maior vocação que a sociedade como um todo nos
oferece são os direitos da pessoa humana. Por que é lei dos homens, não é vocação
meramente espiritual, é concreta quanto uma parte da citada sociedade e há de
ser cumprida à risca, já que todos os órgãos de competência legal existem para
que sê-la cumpra. Parece que não mais sentimos a dor do próximo, e é verdadeira
essa assertiva, não a sentimos mais, pois estaremos diante do próximo vendo-o
passar nas ruas, miserável, enquanto estamos confortavelmente instalados em
nossas cavernas meio a meio, digitais e analogicamente dispostas, meio turvo o
olhar, meio traduzido em camadas, meio que carregando um sobrepesado aparelho
de telefone inteligente, que nos guarda mensagens e nos coloca sobremodo
adiante do mundo, como um anteparo que nos separa para sempre da realidade da
indigência. Quem diria, viventes do mundo... Quantas panteras negras seremos em
nossas juventudes, ou leões pardos, ou índios sucumbindo em meio ao veneno
imposto pelos brancos? Quantos ainda matarão o amor que sequer ousou se pronunciar frente a uma violeta mal gestada no perfil, entre as pernas do ocaso feminino?
Qual o destino do sagrado, se o profano se torna a única arma que o miserável
pode possuir frente aos demônios que encontra em seus caminhos? Os anjos caem,
meus amigos, caem em pencas, e toda a juventude perdida se encaixa
perfeitamente na era em que vivemos...
Uma ida
ao beco, um risco de pó, e estaremos mais despertos, como quando na comunidade
um cidadão se encontra com sua pedra queimando no cachimbo, só para entrar
triunfantemente entre aqueles que dizem ser seus iguais. Qual não fosse, o
vinho para a elite, a coca de motéis cinco estrelas, as orgias nos barcos alvos
em mares paradisíacos, a festa em que muitos apenas querem curtir o lazer
corrompido pela vocação do álcool e das drogas. A bolsa repleta de batons, a
garota de programa descolada, o perfil de um mafioso, um banco Master Chef,
algo que remontaria um Juízo Final... O jogo de amarelinha de Cortázar, e que ninguém
escreva tão cedo ao coronel... Ninguém dá um vintém furado para uma consciência
mais aflorada, ninguém pensaria que no alto de um vício estará um viciado em
algo, e que mais além de uma jornada quem sabe o que encontra pelo caminho,
senão mais um maço de cigarros, e a questão toda de tossir os pulmões por sobre
a fumaça que inalara de um pouco mais de nicotina que turva a ideia na simples
questão de parar com esse vício, tão avassaladora é a indústria tabagista.
E o Cristo Rei torna-se um amigo dileto, alguém com quem podemos contar, uma imagem, uma cruz, a ressurreição, a presença que sentimos, a palavra, o afeto e o amor... Desentrançar um emaranhado de coisas tétricas que nos afligem, parlar sobre o efeito de termos mais dias pela frente de desafios, quem sabe essa trama que se nos coloca na nossa frente, não será a provação em que testaremos nossa fé em algo ou alguém superior a nós mesmos na dimensão d’Ele? Quem sabe a simplificação da citada fé, que nos tornemos um amigo dileto de um ser como Jesus, nosso Salvador, nos coloque na verdadeira dimensão de que realmente um milagre possa acontecer em nossas vidas, dia a dia, semana após semana, hora a hora? E a hora é a dos guerreiros se unirem, e todos aqueles que estão nas ruas que se unam a quem seja de boa vontade, posto será na carestia que se revelarão os santos de todos os dias, e não aqueles que se dizem dos últimos, pois não estamos na Terra para brincar de julgamentos pífios, mas de epifanias reveladoras de fato, e de circunstâncias onde ocorram para que os olhos mortiços da indiferença naveguem pelos mares cravejados do chumbo, e aqueles do amor divinal se tornem a semântica mais concreta da citada revelação, onde o mesmo chumbo possa virar ouro em alguns casos, pois quem pisa sobre pedras pode saber seus caminhos silenciosamente, enquanto outros que pisam apenas sobre a maciez da ilusão não poderão sequer saber onde reside a virtude que transforma o pão e o vinho em carne e sangue...
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