sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A INTEGRALIDADE EXPRESSIVA


              Liberar possibilidades expressivas, e talhar relações de memórias visuais, vinculadas com a retomada da habilidade no desenho e na pintura, ao mesmo tempo em que o paciente perfaz coisas como a poesia, como no exemplo clássico da multidisciplinaridade, é um meio pungente a que alcance efetivamente o self, principalmente se, concomitante a isso, larga os vícios que o escravizaram durante muito tempo, como o álcool e a nicotina. Por vezes, a psicose faz o ser humano pensar que algumas dessas adições tem a ver com o processo criativo, mas na realidade isso é uma falácia, pois a vida mística tem os seus percalços, mas será estudando cabalmente uma só religião que poderá se manter incólume dos fantasmas do passado... Espiritualmente, esse estudante das artes, por vezes com formação de psicologia, pode dar a volta por cima e enfrentar antigos demônios internos que combatiam per se a própria recuperação, mesmo porque, se larga o pior dos vícios, a nicotina, aos sessenta anos, ainda terá muita lenha a queimar na latitude de sua vitalidade física e intelectual. O desenho tíbio demonstra que a racionalidade ainda encontrará desafiantes momentos, mas os níveis de dopamina que aparentemente perdera provisoriamente na falta da nicotina em seus primeiros dias de abstenção, com o fomento da pintura e suas cores expressas livremente, fazem desabrochar a expressão de outras faculdades, pois a simples consciência de que a performance seja satisfatória, e de que sua medicação esteja bem regulada, de que o sono esteja igualmente regular, fará com que os níveis de consciência igualmente aflorem, e a expressão, não apenas na pintura, bem como no desenho, nos blogs, nas redes sociais, na fotografia, nas HQs, nos apontamentos, na poesia, traduz a multidisciplinaridade de um agente multimídia, com todas as linhas de expressão abertas, bem como no ensaio e na filosofia. Um agente dessa Natureza pode vir a ser útil, quando justamente descobre em si mesmo o caminho das pedras, como fizera o grande Jung em seu “Liber Novus”. Tudo o que remeta à saúde mental estará vinculado à expressão, aos ensaios das boas novas, aos pensamentos, à mensagem a grupos de recuperação a à atividade corriqueira, diuturna e rotineira que o estudante perpétuo volta a empreender para consolidar seus projetos e continuar a dar um andamento saudável em sua vida. Na realidade, a pintura é o verdadeiro canal de abertura da percepção formal e artística, e encontra em sua veia expressiva a organização afetiva de um paciente que antes se encontrava em profunda angústia por não conseguir vencer o vício da nicotina. Essa veia afetiva se encontra profundamente vinculada pelas cores, e diante do fato de encontrar na cor a vida afetiva e sua organização, quando elas se manifestam vibrantemente provavelmente se encontram com o estado anímico de uma força vital grande nesse campo. Necessariamente, em uma aula de pintura a portadores de psicose, pode se dar estruturas formais do desenho, para que a base da pintura não se desorganize demais e se desassocie psiquicamente na hora em que estiverem envolvidos no trabalho da pintura, por isso as mandalas são extremamente úteis para se “organizar” a mente no processo de se elaborar um trabalho desse gênero. Pois a composição de um desenho, por mais que seja abstrato ou não, fala mais à razão, e as cores dizem mais respeito ao lado afetivo, à organização emocional dos pacientes-artistas.

              Não é uma questão de normatização da arte, mas na realidade formalmente podemos afirmar que a arte é uma forma de terapia muito ampla no sentido de dar asas àqueles que sofrem por questões de isolamento ou mesmo de solidão ou sofrimento psíquico, de se expressar, e quando isso é feito em grupo a tendência de recuperação e entendimento com os terapeutas e com o tratamento se faz mais duradouro e efetivo. Quando paramos com um vício como a nicotina, enfermos ou não, de outras comorbidades, pois todos somos doentes compulsivos quando viciados, doentes das emoções, na verdade estaremos nos libertando paulatinamente dos grilhões que significam esse vício e, para um paciente psicótico, a vitória é dupla... Significa uma ampla vitória, e no que antes a nicotina servia como “automedicação” para compensar os níveis artificiais de dopamina a menos no cérebro, para aumentar a dopamina citada, com o desenho e a multidisciplinaridade, os trabalhos em equipe e os grupos de recuperação as coisas tendem a se equilibrar, e antes o que era sofrimento vira o prazer da compensação e da premiação em ser vitorioso no processo do desligamento do vício e da estabilização mental na base de uma integralidade expressiva.

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