terça-feira, 22 de setembro de 2026

Não sejas vã, ó minha alma, nem ensurdeças o ouvido do coração com o tumulto da tua vaidade. Escuta tu também. O próprio Verbo te chama a voltar; e ali está o lugar de repouso imperturbável, onde o amor não é abandonado, se ele mesmo não abandona. Eis que estas coisas passam, para que outras lhes sucedam, e assim se complete, por todas as suas partes, este universo inferior. “Mas acaso vou eu para algum lugar?”, diz o Verbo de Deus. Fixa ali a tua morada; confia ali tudo quanto de lá recebeste, ó minha alma — ao menos agora, que estás cansada das vaidades. Confia à Verdade tudo o que da Verdade recebeste, e nada perderás; e o que em ti apodreceu florescerá de novo, e todas as tuas doenças serão curadas, e as tuas partes mortais serão reformadas, renovadas e cingidas a ti; nem te arrastarão para onde elas mesmas descem, mas permanecerão firmes contigo e ficarão para sempre diante de Deus, que permanece e está firme para sempre. Por que, então, andas perversa, seguindo a tua carne? Que seja ela, antes, convertida e te siga. Tudo aquilo de que por ela tens sentido é parcial; e o todo, de que estas coisas são partes, tu não o conheces — e, contudo, elas te deleitam. Mas, se o sentido da tua carne fosse capaz de compreender o todo, e se ele mesmo não tivesse sido, para teu castigo, justamente restringido a uma parte do todo, tu quererias que tudo o que existe no presente passasse, para que o todo mais te agradasse. Pois também aquilo que falamos, tu o ouves pelo mesmo sentido da carne; e, todavia, não quererias que as sílabas ficassem paradas, mas que voassem, para que outras viessem e tu ouvisses o todo. E assim sempre: quando de muitas coisas se compõe uma só, e todas elas não existem ao mesmo tempo, todas juntas agradariam mais do que separadamente, se todas pudessem ser percebidas em conjunto. Mas muito melhor do que estas coisas é Aquele que tudo fez; e Ele é o nosso Deus, e não passa, porque nada Lhe sucede. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.

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