terça-feira, 29 de setembro de 2026

E assim aconteceu que, observando um pela mulher e outro pela serva, com o mais cuidadoso registro, contando dias, horas e até as menores frações das horas, ambas deram à luz no mesmo instante; de sorte que ambos foram forçados a admitir as mesmas constelações, até aos pontos mais mínimos, um para o filho, outro para o escravo recém-nascido. Pois, assim que as mulheres começaram a ter as dores, cada um deles avisava o outro do que se passava em sua casa, e tinham mensageiros prontos para se enviarem mutuamente assim que soubessem do nascimento efetivo — coisa que facilmente haviam providenciado, cada qual no seu domínio, para dar aviso imediato. Assim, os mensageiros de uma e de outra parte encontraram-se, afirmava ele, a igual distância de ambas as casas, de modo que nenhum deles pôde apontar diferença alguma na posição dos astros, nem em qualquer outro ponto mínimo. E, todavia, Firmino, nascido em alta condição na casa dos pais, percorreu os caminhos dourados da vida, cresceu em riquezas e foi elevado às honras; ao passo que aquele escravo continuou a servir os seus senhores, sem alívio algum do seu jugo — como me contava o próprio Firmino, que o conhecia. Ouvindo e crendo nestas coisas, contadas por pessoa de tal crédito, cedeu toda a minha resistência. E primeiro procurei afastar da sua curiosidade o próprio Firmino, dizendo-lhe que, ao examinar as suas constelações, eu deveria, para predizer com verdade, ter visto nelas pais eminentes entre os seus vizinhos, família nobre na própria cidade, nascimento elevado, boa educação, formação liberal. Mas, se aquele escravo me tivesse consultado sobre as mesmas constelações — pois eram também as suas —, deveria eu de novo, para lhe falar igualmente com verdade, ver nelas uma linhagem abjetíssima, uma condição servil e tudo o mais inteiramente contrário ao anterior. Donde se seguia que, se eu falasse a verdade, teria de falar coisas diversas a partir das mesmas constelações; e, se falasse as mesmas, falaria falsamente. Daí resultava com toda a certeza que tudo quanto, à vista das constelações, se dizia com verdade, não se dizia por arte, mas por acaso; e tudo quanto se dizia falsamente não vinha de ignorância da arte, mas do fracasso do acaso. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.

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