terça-feira, 29 de setembro de 2026
E eu buscava “donde vem o mal”, e buscava-o de má maneira; e não via o mal que havia na minha própria busca. Punha então diante da vista do meu espírito toda a criação: tudo quanto nela podemos ver, como o mar, a terra, o ar, os astros, as árvores, os seres mortais; e ainda tudo o que nela não vemos, como o firmamento do céu, e além disso todos os anjos e todos os habitantes espirituais dele. Mas a estes mesmos seres a minha imaginação os dispunha em lugares, como se fossem corpos; e fazia uma grande massa da Vossa criação, distinguida segundo as espécies de corpos: uns, corpos reais; outros, o que eu mesmo forjara como espíritos. E fazia esta massa imensa — não como era, o que eu não podia saber, mas como me parecia conveniente —, e todavia finita por toda parte. Mas a Vós, Senhor, imaginava-Vos cercando-a e penetrando-a por todos os lados, ainda que infinito por toda parte: como se houvesse um mar em toda parte e por todos os lados, através de espaços imensuráveis, um só mar sem limites, e ele contivesse dentro de si uma esponja enorme, mas finita — e essa esponja fosse necessariamente cheia, em todas as suas partes, por aquele mar imensurável. Assim concebia eu a Vossa criação, ela mesma finita, cheia de Vós, o Infinito. E dizia: “Eis Deus, e eis o que Deus criou; e Deus é bom, sim, muitíssimo e incomparavelmente melhor do que todas estas coisas; e, contudo, Ele, o Bem, criou-as boas; e vede como as cerca e as enche.” Onde está, então, o mal, e donde, e por onde se insinuou aqui? Qual é a sua raiz, e qual a sua semente? Ou não tem existência alguma? Por que, então, tememos e evitamos o que não existe? E, se em vão o tememos, então é mal esse próprio temor, pelo qual a alma é assim inutilmente aguilhoada e torturada — e tanto maior mal quanto nada temos a temer e todavia tememos. Portanto, ou é mal aquilo que tememos, ou é mal o fato de o temermos. Donde vem, então, visto que Deus, o Bem, criou todas estas coisas boas? Ele, na verdade, o maior e sumo Bem, criou estes bens menores; mas tanto o Criador quanto as criaturas, tudo é bom. Donde vem o mal? Ou haveria alguma matéria má, da qual Ele fez, formou e ordenou tudo, deixando nela, contudo, algo que não converteu em bem? Mas por quê? Não teria poder para transformar e mudar o todo, de modo que nele não permanecesse mal algum, sendo Ele onipotente? Enfim, por que quereria fazer alguma coisa dela, e não antes, pela mesma onipotência, fazer que ela absolutamente não existisse? Ou poderia acaso existir contra a Sua vontade? E, se era desde a eternidade, por que a suportou assim por infinitos espaços de tempos passados, e só tanto tempo depois lhe aprouve fazer dela alguma coisa? Ou, se de repente Lhe aprouve agora realizar algo, antes isto deveria ter realizado o Onipotente: que aquela matéria má não existisse, e Ele só existisse, o todo, verdadeiro, soberano e infinito Bem. Ou, se não era bom que Aquele que era bom não formasse e criasse também algo que fosse bom, então, tirada e reduzida a nada aquela matéria má, poderia Ele formar uma matéria boa, da qual criasse todas as coisas. Pois não seria onipotente, se não pudesse criar algo bom sem o auxílio daquela matéria que Ele mesmo não criara. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.
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