domingo, 27 de setembro de 2026

VÍCIO, RECAÍDA E ADMISSÃO


              Uma tarefa de Hércules por vezes é a admissão de que somos dependentes do álcool e das drogas, considerando que a nicotina é uma das piores. Que perdemos o controle, que estamos insanos, causando danos à nossa saúde física, emocional e espiritual. Esse é um passo importante, quando já racionalizamos, já mentimos, já nos defendemos para usar a substância, depois que tudo fizemos para que acontecesse uma doença que nos afetara, quando perdemos a família, quando estamos no fundo do poço, ou mesmo quando algum risco tremendo à saúde vira coisa concreta. Conseguimos, por vezes, vitórias rumo à recuperação, e em outras pode vir a recaída, que faz parte da doença do adicto, mas não de sua recuperação. O nível de dependência, quando muito alto, tem a ver com a tolerância que desenvolvemos pela droga, onde a quantidade e a frequência aumentam consideravelmente, para que o efeito seja o mesmo do que em escalas menores de consumo. No caso de drogas psicoativas, quando o efeito psicoativo se dá no consumo, e não na abstinência, será na realidade o fator onde a droga age no cérebro mais evidentemente, mudando nosso comportamento, ou mesmo quando – abstinentes – sentimos um descontrole que muitas vezes demanda a intervenção da medicina psiquiátrica. Ou de um terapeuta competente. Quando a droga é a nicotina, o que se dá é um grande impacto nas síndromes de abstinência, similar ao álcool e aos opióides, ou mesmo em variantes da cocaína, como o crack ou mesmo a inalação abusiva do pó. Essa abstinência pode vir a afetar sobremodo os enfermos de outras comorbidades mentais, como psicoses, neuroses graves, ou depressão e ansiedade generalizada. Quando isso ocorre, o acompanhamento do psiquiatra e seu apoio se torna quase compulsório, e não basta um pneumologista, para acompanhar o desenvolvimento e recuperação de um paciente tomado por enfisema, se ainda não estiver muito afetado, pois o vício da nicotina é grande, e suas recaídas podem ocorrer amiúde, tão frequentemente quanto uma oscilação abrupta do humor, por isso a medicação se torna tão necessária...

               O passo inicial para tomar-se consciência da gravidade da dependência é simplesmente jogar a toalha, pedir – se necessário – apoio de algum profissional, e por vezes se internar ou em uma instituição, ou em grupos de recuperação, como o AA, NA ou NiCa. Exames físicos e mentais se tornam necessários, apoios como o CAPSad igualmente dão um suporte razoável, e outras retaguardas de apoio, como a vida em uma religião, igualmente ajudam muito, quando ainda não se possui a fé suficiente para largar o vício. A questão da espiritualidade revela que, depois do primeiro passo, o da aceitação de que somos impotentes diante de alguma droga, vem o segundo, que fala que apenas rogando a um poder superior, que possa nos devolver a sanidade, e que virá na entrega a ele, finalmente, com o terceiro passo. O segundo passo é o “vir a acreditar” em um Poder maior do que nós mesmos, e o terceiro, o passo da entrega a Ele, como uma via onde esse citado Poder Superior, Deus, conforme cada um O conceba, venha nos tirar dos grilhões do vício. Mas admitir, sobretudo, que as drogas são algo que nos passa a rasteira de modo a fazer-nos muitas vezes sucumbir às suas tentações, o primeiro passo, deve ser prática diária para todo aquele que apesar de seu passado por vezes sinistro, não deve se esquecer do mesmo passado, mas passar a sua experiência de vida para outros, já que é escutando as partilhas em grupos de recuperação e praticando seus programas, que se torna possível contornar as armadilhas do vício e recuperarmo-nos plenamente, a exemplo de muitos que trilharam essa senda.

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