sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Mas eu pensava de outro modo, concebendo o meu Senhor Cristo apenas como homem de excelente sabedoria, a quem ninguém se poderia igualar; sobretudo porque, nascido admiravelmente de uma Virgem, parecia-me haver alcançado, em conformidade com isso e pelo divino cuidado para conosco, aquela grande eminência de autoridade, como exemplo de desprezo das coisas temporais em vista da imortalidade. Mas que mistério houvesse naquilo de que o Verbo se fez carne, eu nem sequer o podia imaginar. Apenas aprendera, do que a respeito d’Ele se nos transmitiu por escrito, que Ele comia, bebia, dormia, andava, se alegrava em espírito, se entristecia, conversava; e que a carne não aderia por si mesma ao Vosso Verbo, mas com a alma e a mente humanas. Isto sabem todos os que conhecem a imutabilidade do Vosso Verbo, a qual eu então conhecia quanto podia, nem dela de modo algum duvidava. Pois ora mover os membros do corpo pela vontade, ora não; ora ser movido por algum afeto, ora não; ora proferir sentenças sábias por sinais humanos, ora guardar silêncio — tudo isso pertence à alma e à mente sujeitas à mudança. E, se estas coisas fossem falsamente escritas d’Ele, todo o resto correria também o risco da mesma acusação, nem restaria naqueles livros fé alguma salvadora para o gênero humano. Uma vez, pois, que foram escritas com verdade, eu reconhecia em Cristo um homem perfeito: não apenas o corpo de um homem, nem, com o corpo, uma alma sensitiva sem alma racional, mas verdadeiro homem — o qual, não só por ser uma forma da Verdade, mas por certa grande excelência da natureza humana e por uma mais perfeita participação da sabedoria, eu julgava dever ser preferido aos outros. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.

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