sexta-feira, 25 de setembro de 2026
E esforçava-me por compreender o que agora ouvia: que a livre vontade é a causa de fazermos o mal, e o Vosso justo juízo a causa de o padecermos. Mas não conseguia discerni-lo com clareza. Assim, esforçando-me por tirar daquele fosso profundo o olhar da minha alma, era de novo nele mergulhado; e, esforçando-me muitas vezes, tantas vezes era de novo mergulhado. Mas isto me elevava um pouco para a Vossa luz: que eu sabia tão bem que tinha vontade quanto que vivia. Quando, pois, eu queria ou não queria alguma coisa, estava certíssimo de que não era outro senão eu que queria e não queria; e quase via que ali estava a causa do meu pecado. Mas o que fazia contra a minha vontade, via que antes o padecia do que o fazia, e julgava-o não culpa minha, mas castigo meu; pelo qual, contudo, tendo-Vos por justo, prontamente confessava que não era punido injustamente. Mas de novo dizia: “Quem me fez? Não foi o meu Deus, que não só é bom, mas a própria bondade? Donde me veio, pois, querer o mal e não querer o bem, de modo a ser assim justamente punido? Quem pôs isto em mim e enxertou-me esta planta de amargura, sendo eu inteiramente formado pelo meu dulcíssimo Deus? Se o demônio foi o autor, donde vem esse mesmo demônio? E, se também ele, pela sua própria vontade perversa, de anjo bom se fez demônio, donde veio nele aquela má vontade pela qual se fez demônio, sendo toda a natureza dos anjos feita por aquele bondosíssimo Criador?” Por estes pensamentos era eu de novo afundado e sufocado; e, todavia, não fui arrastado àquele inferno do erro em que ninguém Vos confessa, de pensar antes que Vós padeceis o mal do que o homem o comete. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.
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