terça-feira, 22 de setembro de 2026

Bom Deus! Que se passa no homem, para que se alegre mais com a salvação de uma alma de que se desesperava e que foi livrada de maior perigo, do que se sempre houvesse esperança dela, ou se o perigo houvesse sido menor? Pois assim também Vós, Pai misericordioso, Vos alegrais mais por um só penitente do que por noventa e nove justos que não precisam de penitência. E com muita alegria ouvimos, sempre que o ouvimos, com que júbilo a ovelha que se extraviara é trazida de volta aos ombros do pastor, e a dracma é devolvida ao Vosso tesouro, alegrando-se com a mulher que a encontrou as suas vizinhas; e a alegria da solene liturgia da Vossa casa arranca lágrimas quando na Vossa casa se lê do Vosso filho mais moço que estava morto e reviveu, que estava perdido e foi encontrado. Pois Vós Vos alegrais em nós e nos Vossos santos anjos, santos pela santa caridade. Porque Vós sois sempre o mesmo; pois todas as coisas que não permanecem as mesmas nem para sempre, Vós as conheceis para sempre do mesmo modo. Que se passa, então, na alma, quando se deleita mais em encontrar ou recuperar as coisas que ama do que se sempre as tivesse tido? Sim, e outras coisas o atestam, e tudo está cheio de testemunhos que clamam: “É assim.” O general vitorioso triunfa; e todavia não teria vencido se não houvesse combatido — e quanto maior perigo houve na batalha, tanto maior alegria há no triunfo. A tempestade sacode os marinheiros e ameaça naufrágio; todos empalidecem diante da morte próxima; acalmam-se o céu e o mar, e eles se alegram sobremaneira, porque sobremaneira haviam temido. Um amigo está doente, e o seu pulso anuncia perigo; todos os que desejam a sua cura adoecem no espírito com ele. Ele restabelece-se, ainda que não caminhe com a força de antes; e há uma alegria como não havia quando antes caminhava são e forte. Sim, até os próprios prazeres da vida humana os homens os adquirem por meio de dificuldades — não só as que nos sobrevêm inesperadas e contra a nossa vontade, mas até as buscadas de propósito, por incômodo escolhido em busca do prazer. O comer e o beber não dão prazer se não precederem a mordida da fome e da sede. Os que se dão à bebida comem certas comidas salgadas para provocar um ardor incômodo, que a bebida, ao aplacar, produz prazer. Também está estabelecido que a noiva prometida não seja entregue de imediato, para que o marido não tenha em pouco aquela por quem, enquanto noivo, não suspirou. CONFISSÕES, SANTO AGOSTINHO.

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