terça-feira, 22 de setembro de 2026

A DICOTOMIA DO VÍCIO

 

              Quando se fala a palavra vício, contrapõe-se à palavra virtude, e há que salientar que usualmente, no jargão da medicina ele é considerado uma doença, como o alcoolismo, catalogada na OMS (Organização Mundial da Saúde) com o código F10, considerado um transtorno mental que faz com que algumas pessoas adquiram a dependência alcoólica podendo gerar diversos males no corpo e na mente. Assim como o álcool possui essa classificação, o tabagismo possui o código F17, considerado um “transtorno mental e comportamental gerado pelo uso do tabaco e derivados”. E por aí vai: a cocaína, F14, entre outras drogas... Talvez por isso a psiquiatria, muitas vezes criticada, tem demandado tanta atenção ao mundo contemporâneo, sulcado pelo problema das drogas, as compulsões, e seus problemas decorrentes, e igualmente por essa razão a existência de muitas irmandades de doze passos para a recuperação de muitas dependências e compulsões correlatas.

              A dicotomia do vício está em como ele se instala, como flertamos com a substância, no princípio nos aliviando de algum stress, relaxando, ou mesmo quando começamos a fumar, meio a contragosto, até nos tornarmos dependentes – de fato – de todas as drogas onde passamos a ingerir ou inalar quantidades cada vez maiores, quando o simples fato de sofrermos uma abstinência pode nos tirar do humor, e demandar cuidados como a atenção ao sono, medicamentos contra a ansiedade, antidepressivos, adesivos de reposição de nicotina, no caso do tabagismo, cessações imediatas do alcoolismo em programas de recuperação em AA, internações, compulsórias ou não, ou mesmo a atenção psicossocial no caso de enfermidades psíquicas graves causadas pelo consumo de drogas. Há fases de tolerância onde muitos se mostram mais resistentes ao consumo e demoram a se embriagarem, na questão etílica, enquanto outros tem pouca tolerância e mudam seu humor depois de duas ou três doses da bebida. A questão é que nas sociedades da atualidade o vazio existencial tem impelido verdadeiras massas à drogadição, seja porque a efemeridade nas relações humanas tem sido evidenciadas pela falta de alteridade e empatia pelo próximo, seja porque a sociedade tenha se tornado maniqueísta e mercenária a tal ponto onde é muito mais fácil apontar o erro no outro enquanto mal limpamos a calçada em frente às nossas casas, quando essa metáfora implique o fato de não arrumarmos a nossa vida frente ao que encontramos diante de nós mesmos quando nos olhamos diante do espelho.

              Até mesmo drogas que muitos consideram inofensivas como a maconha possuem o seu CID na OMS. No caso do código F12.5, salienta-se o fato de que a maconha causa psicoses com seu uso, e causa dependência igualmente, mesmo que saibamos que na redução de danos essa droga por vezes é permitida aos usuários de crack para substituir um dano avassalador, por outro, digamos: “menos pior...” Tal é a dicotomia, tais são os dissabores de uma sociedade onde o mercado virou algo desumano, e onde a propriedade não encontra reflexos maiores do que tudo aquilo que supomos seria mais justo socialmente, se o capital desenfreado não impusesse certas relações de força inequívocas em sua expressão máxima. O simples fato de fumarmos o tabaco, uma droga que mata mais do que todas as outras juntas, é algo que nos remete a querer julgar as ilícitas, crendo piamente que estaríamos saindo ilesos de um mal que pode nos acometer a qualquer instante, seja ele cardio vascular, seja um carcinoma, um enfisema, um AVC, entre outros.

              No que tange à problemática das drogas como um todo, a questão não é apena tarefa de políticas públicas como o CAPS ad, mas todo um esforço de base centrado na missão praticamente espiritual como um todo, resgatando a fé em um Poder Maior do que nós mesmos para que saiamos da esfera da fé fraca e cristalizemos um leito de rocha firme para nos livrarmos das adicções como um todo, encarando esse fator como uma problemática que não apenas é inerente a uma sociedade de consumo desenfreada, bem como de hedonismo sem precedentes na história. Assim sendo, escaparemos sim, mas a contar nos dedos, pois o tráfico de entorpecentes internacional só tem colocado gasolina na fogueira, e os mecanismos de repressão já se tem revelado insuficientes para conter essa modalidade de comércio criminosos que a muitos tem solapado suas vidas e encaminhado suas existências a esferas dantescas de enfermidades e descasos, além da miséria a que são submetidas muitas almas no planeta. A partir de processos paulatinos de recuperação, com o apoio da sociedade civil organizada, os órgãos de saúde pública, os hospitais de desintoxicação e trato mental, e a repressão aos entorpecentes, poderemos, senão ao menos poder controlar boa parte das incidências do vício como um todo nas famílias brasileiras e internacionais, visto sermos hoje uma pequena aldeia global, lançarmos nas mãos de Deus a esperança de que, ao menos para alguns, a dicotomia entre o consumo e a sobriedade não seja apenas uma questão retórica, mas que a vivenciemos em uma prática diária.

Nenhum comentário:

Postar um comentário