Quando se
fala a palavra vício, contrapõe-se à palavra virtude, e há que salientar que usualmente,
no jargão da medicina ele é considerado uma doença, como o alcoolismo,
catalogada na OMS (Organização Mundial da Saúde) com o código F10, considerado
um transtorno mental que faz com que algumas pessoas adquiram a dependência
alcoólica podendo gerar diversos males no corpo e na mente. Assim como o álcool
possui essa classificação, o tabagismo possui o código F17, considerado um “transtorno
mental e comportamental gerado pelo uso do tabaco e derivados”. E por aí vai: a
cocaína, F14, entre outras drogas... Talvez por isso a psiquiatria, muitas
vezes criticada, tem demandado tanta atenção ao mundo contemporâneo, sulcado pelo
problema das drogas, as compulsões, e seus problemas decorrentes, e igualmente
por essa razão a existência de muitas irmandades de doze passos para a recuperação
de muitas dependências e compulsões correlatas.
A
dicotomia do vício está em como ele se instala, como flertamos com a
substância, no princípio nos aliviando de algum stress, relaxando, ou mesmo quando
começamos a fumar, meio a contragosto, até nos tornarmos dependentes – de fato –
de todas as drogas onde passamos a ingerir ou inalar quantidades cada vez
maiores, quando o simples fato de sofrermos uma abstinência pode nos tirar do
humor, e demandar cuidados como a atenção ao sono, medicamentos contra a
ansiedade, antidepressivos, adesivos de reposição de nicotina, no caso do tabagismo,
cessações imediatas do alcoolismo em programas de recuperação em AA,
internações, compulsórias ou não, ou mesmo a atenção psicossocial no caso de
enfermidades psíquicas graves causadas pelo consumo de drogas. Há fases de
tolerância onde muitos se mostram mais resistentes ao consumo e demoram a se
embriagarem, na questão etílica, enquanto outros tem pouca tolerância e mudam
seu humor depois de duas ou três doses da bebida. A questão é que nas
sociedades da atualidade o vazio existencial tem impelido verdadeiras massas à
drogadição, seja porque a efemeridade nas relações humanas tem sido
evidenciadas pela falta de alteridade e empatia pelo próximo, seja porque a
sociedade tenha se tornado maniqueísta e mercenária a tal ponto onde é muito
mais fácil apontar o erro no outro enquanto mal limpamos a calçada em frente às
nossas casas, quando essa metáfora implique o fato de não arrumarmos a nossa
vida frente ao que encontramos diante de nós mesmos quando nos olhamos diante
do espelho.
Até mesmo
drogas que muitos consideram inofensivas como a maconha possuem o seu CID na
OMS. No caso do código F12.5, salienta-se o fato de que a maconha causa
psicoses com seu uso, e causa dependência igualmente, mesmo que saibamos que na
redução de danos essa droga por vezes é permitida aos usuários de crack para
substituir um dano avassalador, por outro, digamos: “menos pior...” Tal é a
dicotomia, tais são os dissabores de uma sociedade onde o mercado virou algo desumano,
e onde a propriedade não encontra reflexos maiores do que tudo aquilo que supomos
seria mais justo socialmente, se o capital desenfreado não impusesse certas
relações de força inequívocas em sua expressão máxima. O simples fato de
fumarmos o tabaco, uma droga que mata mais do que todas as outras juntas, é
algo que nos remete a querer julgar as ilícitas, crendo piamente que estaríamos
saindo ilesos de um mal que pode nos acometer a qualquer instante, seja ele
cardio vascular, seja um carcinoma, um enfisema, um AVC, entre outros.
No que
tange à problemática das drogas como um todo, a questão não é apena tarefa de
políticas públicas como o CAPS ad, mas todo um esforço de base centrado na
missão praticamente espiritual como um todo, resgatando a fé em um Poder Maior
do que nós mesmos para que saiamos da esfera da fé fraca e cristalizemos um
leito de rocha firme para nos livrarmos das adicções como um todo, encarando
esse fator como uma problemática que não apenas é inerente a uma sociedade de
consumo desenfreada, bem como de hedonismo sem precedentes na história. Assim
sendo, escaparemos sim, mas a contar nos dedos, pois o tráfico de entorpecentes
internacional só tem colocado gasolina na fogueira, e os mecanismos de
repressão já se tem revelado insuficientes para conter essa modalidade de
comércio criminosos que a muitos tem solapado suas vidas e encaminhado suas
existências a esferas dantescas de enfermidades e descasos, além da miséria a
que são submetidas muitas almas no planeta. A partir de processos paulatinos de
recuperação, com o apoio da sociedade civil organizada, os órgãos de saúde
pública, os hospitais de desintoxicação e trato mental, e a repressão aos
entorpecentes, poderemos, senão ao menos poder controlar boa parte das
incidências do vício como um todo nas famílias brasileiras e internacionais,
visto sermos hoje uma pequena aldeia global, lançarmos nas mãos de Deus a esperança
de que, ao menos para alguns, a dicotomia entre o consumo e a sobriedade não seja
apenas uma questão retórica, mas que a vivenciemos em uma prática diária.
Nenhum comentário:
Postar um comentário