Quebrar
o vício do tabagismo pode ser abordado por diversas frentes, sem nos atermos em
uma apenas, como um método qualquer sem reposição de nicotinas, com parada
abrupta, na desconstrução dos paradigmas que nos levam a crer que sofremos uma
lavagem cerebral e que toda a “afeição” pelo cigarro já estaria no nosso
inconsciente. Isso de fato funcionou para uma grande população tomada pela adição
dessa tremenda dependência, mas há também a interpretação da medicina que
afirma que a abstinência dessa droga é similar ao crack e à heroína, pois a
falta da nicotina nos tornaria aflitos, nervosos, ansiosos e etc. O impacto de
métodos como o easyway, de Allen Carr, traz maiores luzes sobre a possibilidade
de enfrentarmos dois monstros: um pequenino, que seria a abstinência, que ele
considera de fácil superação, e outro, grande, que diz respeito a todas as
crenças que possuímos com relação ao vício do tabaco, seus gatilhos, etc. Esse
grande monstro, ou o monstrão, ou simplesmente o condicionamento que sofremos
ao longo da nossa existência, diz respeito ao lado afetivo da droga, como que
aquilo que consideramos nossa muleta, que o cigarro é nosso companheiro, que
não podemos viver sem ele, que não podemos nos concentrar sem ele, sequer
trabalhar direito, ou que para enfrentar o stress ele nos acalmaria, assim como
para enfrentar o tédio ele nos supra o “vazio” que sentimos quando não estamos
fumando.
No
entanto, em casos de portadores de transtornos mais graves da psique, quem sabe
a ausência da liberdade, uma situação qualquer e particular de um indivíduo,
privado, em virtude de cuidados com relação a parentes, ou mesmo sem o ir e vir
normal de um cidadão e, porventura, uma quebra nas suas relações afetivas, quem
sabe o cigarro acabe virando um objeto de afeição desmesurada, um tipo de
deslocamento afetivo sobre uma fase infantil, ainda oral, como se o desejo de
um beijo viesse na forma daquela fumaça quente e com a dose do prazer da
nicotina, quase um pequeno gozo em meio à falta permanente, fechando o ciclo da
desventurada falta de afeto que a psique tanto encerra em seus mistérios...
A
presença do médico é fundamental para ver a situação do paciente, e seu método
não pode ser muito questionado, mas sim, através do diálogo com o mesmo,
equacionar a melhor forma de se obter um resultado satisfatório, como se
houvesse um acordo tácito e uma confiança do paciente com relação à medicina
como um todo, personificada na pessoa do especialista em pulmões e vias
respiratórias. O desligamento do paciente com relação ao médico e sua presença
primordial, através de livros ou métodos “revolucionários” para parar de fumar,
com exposições lógicas em grandes negócios envolvendo profissionais menores
para administrar recuperações por vias eletrônicas, jamais se compararão com uma
medicina onde o profissional já conheça o paciente, suas comorbidades, que
remédio toma e qual a Natureza de sua compulsão.
Na
questão do paciente já ter adquirido um enfisema, e estar com DPOC, é mister
que comece a parar, quando o enfisema está ainda leve ou com mais gravidade, ou mesmo quando não
tem perdas respiratórias relevantes, com um tipo de redução de danos, no caso
de um paciente que porte problemas psiquiátricos, pois geralmente esse perfil
fuma mais do que o normal dos fumantes médios ou pesados. O uso dos adesivos e
das gomas de nicotina, sob a orientação médica, mediante um tratamento
prescrito, é vital para que a relação da quebra da dependência e a evolução do
paciente rumo ao abandono do vício se torne uma premissa possível. Mesmo porque
o tabagismo mexe com a dopamina e outros neurotransmissores, e seus desequilíbrios
quando se para abruptamente podem interferir diretamente no sono do paciente, na estabilidade do humor e alterações do sistema nervoso.
A
propósito da crença que Allen Carr fala em seu livro, que na verdade seria
ilusória, como o grande monstro citado acima, conforme todo o condicionamento que
recebemos desde a influência de nosso meio, os hábeis propagandistas, as
celebridades, o mito do durão como em alguns filmes, e a mulher sofisticada,
como em outros, e a necessidade de uma reprogramação mental para se desfazer vários
paradigmas e comportamentos relacionados com essa ilusão, que sempre
trabalhariam com o “monstrinho”, que seria a abstinência física propriamente
dita e alimentadora da substância, fechando o ciclo, tem uma profundidade
lógica ímpar... O medo de que fiquemos sem acesso aos cigarros, quando já
viciados neles, ou mesmo acharmos que quando paramos de fumar tudo aquilo que
ele representava através desse condicionamento mental, que seria o “grande
monstro” ou, como queiram, a lavagem cerebral, pela lógica de Carr, tem que ser
– esse medo, ou tabu – suprimido. A medicina britânica teve boa aceitação desse
método, e tem feito sucesso mundo afora com diversas clínicas e cursos para se
abandonar o vício, e, embora a OMS não tenha endossado oficialmente como
terapia antitabagista oficial, reconhece que milhões de pessoas têm se beneficiado
dessa abordagem em clínicas ao redor do mundo.
Há correntes
da psicologia, talvez pela prática em se lidar com pacientes extremamente
neuróticos, ou mesmo com transtornos mais graves, que creem ser melhor parar
com o cigarro aos poucos, sem, no entanto, desprezar esse método descrito
acima. O modo de se fazer isso seria conforme a orientação igualmente de um psiquiatra
que dê um suporte, quando se fizer necessário. No caso de um bom pneumologista,
a terapia de reposição de nicotina pode ser uma boa abordagem, pois em termos
de saúde mental todo o cuidado é pouco, e mexer em time que está ganhando pode
não ser uma boa ideia...
A
afirmação cabal de que haveria uma indústria de nicotina no mercado dos
fármacos no mínimo é equivocada, pois a questão do uso dos adesivos e das gomas
de nicotina igualmente tem salvo muitos pacientes do vício, e é mister saber
que a leitura do método descrito, o easyway, para se aprofundar melhor nas
causas, quiçá seja uma ótima combinação para se erradicar de vez o vício do
cigarro, sem sofrimentos maiores, como tão bem Allen Carr descreve em seu
livro: “O Método Fácil de Parar de Fumar.” Todas as ferramentas são válidas
para empreender essa grande jornada, e para um paciente que possua transtornos
psiquiátricos, talvez deva ainda contar mais com a medicina que lhe dê a
sustentação primeira e necessária, pedir auxílio ao psiquiatra se for
necessário, fazer uma terapia com um psicólogo que lhe dê suporte nesse
processo e ainda contar com um bom especialista em pneumologia. Só assim será
capaz de por termo a esse vício tão tremendo e evitar possíveis recaídas, lendo
literatura de suporte, como o livro de Allen Carr, ou assistindo alguma
palestra que lhe dê insumos, extraindo o que for de positivo na teoria e
partindo para a prática, dentro das modalidades que a ciência nos oferece, mas sem esquecer que, acima de tudo, há uma espiritualidade nascente sempre naqueles
que começam a abandonar um vício, pois a existência de uma crença, orar e meditar
no processo de largar o tabagismo pode ajudar muito a nos recuperarmos desses condicionamentos que a vida nos impôs desde tenra idade...
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