domingo, 9 de novembro de 2025

O MEDO DO TABAGISTA E A QUEBRA DOS PARADIGMAS

 

                Quebrar o vício do tabagismo pode ser abordado por diversas frentes, sem nos atermos em uma apenas, como um método qualquer sem reposição de nicotinas, com parada abrupta, na desconstrução dos paradigmas que nos levam a crer que sofremos uma lavagem cerebral e que toda a “afeição” pelo cigarro já estaria no nosso inconsciente. Isso de fato funcionou para uma grande população tomada pela adição dessa tremenda dependência, mas há também a interpretação da medicina que afirma que a abstinência dessa droga é similar ao crack e à heroína, pois a falta da nicotina nos tornaria aflitos, nervosos, ansiosos e etc. O impacto de métodos como o easyway, de Allen Carr, traz maiores luzes sobre a possibilidade de enfrentarmos dois monstros: um pequenino, que seria a abstinência, que ele considera de fácil superação, e outro, grande, que diz respeito a todas as crenças que possuímos com relação ao vício do tabaco, seus gatilhos, etc. Esse grande monstro, ou o monstrão, ou simplesmente o condicionamento que sofremos ao longo da nossa existência, diz respeito ao lado afetivo da droga, como que aquilo que consideramos nossa muleta, que o cigarro é nosso companheiro, que não podemos viver sem ele, que não podemos nos concentrar sem ele, sequer trabalhar direito, ou que para enfrentar o stress ele nos acalmaria, assim como para enfrentar o tédio ele nos supra o “vazio” que sentimos quando não estamos fumando.

                No entanto, em casos de portadores de transtornos mais graves da psique, quem sabe a ausência da liberdade, uma situação qualquer e particular de um indivíduo, privado, em virtude de cuidados com relação a parentes, ou mesmo sem o ir e vir normal de um cidadão e, porventura, uma quebra nas suas relações afetivas, quem sabe o cigarro acabe virando um objeto de afeição desmesurada, um tipo de deslocamento afetivo sobre uma fase infantil, ainda oral, como se o desejo de um beijo viesse na forma daquela fumaça quente e com a dose do prazer da nicotina, quase um pequeno gozo em meio à falta permanente, fechando o ciclo da desventurada falta de afeto que a psique tanto encerra em seus mistérios...

                A presença do médico é fundamental para ver a situação do paciente, e seu método não pode ser muito questionado, mas sim, através do diálogo com o mesmo, equacionar a melhor forma de se obter um resultado satisfatório, como se houvesse um acordo tácito e uma confiança do paciente com relação à medicina como um todo, personificada na pessoa do especialista em pulmões e vias respiratórias. O desligamento do paciente com relação ao médico e sua presença primordial, através de livros ou métodos “revolucionários” para parar de fumar, com exposições lógicas em grandes negócios envolvendo profissionais menores para administrar recuperações por vias eletrônicas, jamais se compararão com uma medicina onde o profissional já conheça o paciente, suas comorbidades, que remédio toma e qual a Natureza de sua compulsão.

                Na questão do paciente já ter adquirido um enfisema, e estar com DPOC, é mister que comece a parar, quando o enfisema está ainda leve ou com mais gravidade, ou mesmo quando não tem perdas respiratórias relevantes, com um tipo de redução de danos, no caso de um paciente que porte problemas psiquiátricos, pois geralmente esse perfil fuma mais do que o normal dos fumantes médios ou pesados. O uso dos adesivos e das gomas de nicotina, sob a orientação médica, mediante um tratamento prescrito, é vital para que a relação da quebra da dependência e a evolução do paciente rumo ao abandono do vício se torne uma premissa possível. Mesmo porque o tabagismo mexe com a dopamina e outros neurotransmissores, e seus desequilíbrios quando se para abruptamente podem interferir diretamente no sono do paciente, na estabilidade do humor e alterações do sistema nervoso.

                A propósito da crença que Allen Carr fala em seu livro, que na verdade seria ilusória, como o grande monstro citado acima, conforme todo o condicionamento que recebemos desde a influência de nosso meio, os hábeis propagandistas, as celebridades, o mito do durão como em alguns filmes, e a mulher sofisticada, como em outros, e a necessidade de uma reprogramação mental para se desfazer vários paradigmas e comportamentos relacionados com essa ilusão, que sempre trabalhariam com o “monstrinho”, que seria a abstinência física propriamente dita e alimentadora da substância, fechando o ciclo, tem uma profundidade lógica ímpar... O medo de que fiquemos sem acesso aos cigarros, quando já viciados neles, ou mesmo acharmos que quando paramos de fumar tudo aquilo que ele representava através desse condicionamento mental, que seria o “grande monstro” ou, como queiram, a lavagem cerebral, pela lógica de Carr, tem que ser – esse medo, ou tabu – suprimido. A medicina britânica teve boa aceitação desse método, e tem feito sucesso mundo afora com diversas clínicas e cursos para se abandonar o vício, e, embora a OMS não tenha endossado oficialmente como terapia antitabagista oficial, reconhece que milhões de pessoas têm se beneficiado dessa abordagem em clínicas ao redor do mundo.

                Há correntes da psicologia, talvez pela prática em se lidar com pacientes extremamente neuróticos, ou mesmo com transtornos mais graves, que creem ser melhor parar com o cigarro aos poucos, sem, no entanto, desprezar esse método descrito acima. O modo de se fazer isso seria conforme a orientação igualmente de um psiquiatra que dê um suporte, quando se fizer necessário. No caso de um bom pneumologista, a terapia de reposição de nicotina pode ser uma boa abordagem, pois em termos de saúde mental todo o cuidado é pouco, e mexer em time que está ganhando pode não ser uma boa ideia...

                A afirmação cabal de que haveria uma indústria de nicotina no mercado dos fármacos no mínimo é equivocada, pois a questão do uso dos adesivos e das gomas de nicotina igualmente tem salvo muitos pacientes do vício, e é mister saber que a leitura do método descrito, o easyway, para se aprofundar melhor nas causas, quiçá seja uma ótima combinação para se erradicar de vez o vício do cigarro, sem sofrimentos maiores, como tão bem Allen Carr descreve em seu livro: “O Método Fácil de Parar de Fumar.” Todas as ferramentas são válidas para empreender essa grande jornada, e para um paciente que possua transtornos psiquiátricos, talvez deva ainda contar mais com a medicina que lhe dê a sustentação primeira e necessária, pedir auxílio ao psiquiatra se for necessário, fazer uma terapia com um psicólogo que lhe dê suporte nesse processo e ainda contar com um bom especialista em pneumologia. Só assim será capaz de por termo a esse vício tão tremendo e evitar possíveis recaídas, lendo literatura de suporte, como o livro de Allen Carr, ou assistindo alguma palestra que lhe dê insumos, extraindo o que for de positivo na teoria e partindo para a prática, dentro das modalidades que a ciência nos oferece, mas sem esquecer que, acima de tudo, há uma espiritualidade nascente sempre naqueles que começam a abandonar um vício, pois a existência de uma crença, orar e meditar no processo de largar o tabagismo pode ajudar muito a nos recuperarmos desses condicionamentos que a vida nos impôs desde tenra idade...

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