sábado, 6 de julho de 2024

FRONTEIRAS


                Conhecer a Natureza é como conhecer a si mesmo, só que vai mais além, pois parte do pressuposto do elemento-outro, da pedra que não vimos e jamais veremos, sob a terra, da gramínea que está no coração – adormecida – de um ser, não importando se é humano ou não, o coração da mulher, suas inquietações, a alma de um viandante alcoolizado, a ajuda que não há, a miséria em se compartir o que não tem, ou a cristalização do veneno da discórdia, como a simples peçonha naturalmente presente em tudo, no seu viés diamantino e libertador, posto existência do fato, posto o que é, ou o que faz sentido não sendo meramente o que desejamos no íntimo de nosso ser...

                Pousamos as nossas pernas na fronteira territorial de algo, que pode ser até mesmo um pensamento, mas existimos, estamos tendo o pensamento sobre a Terra, mesmo se dentro de uma nave, quiçá espacial que fosse, pois tudo é espaço, seja água, ar igualmente, teríamos por base inequívoca o pressuposto de que o pensamento que estamos tendo, e que por vezes, na forma de desejo se esvai rapidamente, perdemos de comunicar, e em um simples gesto sabemos que o outro ou a outra, da mesma forma que somos um ou dois, seremos mais, posto estaremos dentro de um contexto de mais seres, e aquela mosca que está voando faz parte do universo da mesma arquitetura onde nos situamos, e ocupa, a seu modo o espaço em contiguidade, mesmo sabendo que temos por um objeto que coisificamos por vezes o que projetamos ser um amor, que nos minutos seguintes vira uma afeição mais distante, quiçá pelo fato de que cremos que o objeto amado não nos tenha dado da rega, posto não importa tanto, talvez esteja em outra rega, talvez em outro momento tenha encontrado mais dados e um número em uma face some o cinco, em outro movimento, o dado assinala o ponto único, mas tem todas as seis faces, sempre.

                De toda essa transformação nada não seja a liquidez das coisas estarem terminando como se uma frase terminasse em um ponto, posto mais um dia apenas dá continuidade em que aprendemos a aprender mais uma lição, e se o ímpeto de um ou de uma estudante for de ao menos estar afeito a ler umas linhas a mais, se é de construir e pousar na sua face a tranquilidade amorosa de uma mensagem que seja de luz, isso para quem tece ou constrói a mensagem o sabe ser de fato, posto não possuir muitas vezes sequer o ensaio de se dizer, a não ser dizer simplesmente, mas repetir-se o movimento da Natureza supra citada é apenas o modo de se dizer que a vida não se ressinta de se sentir a vida tal como ela é na verdade, uma razão mais forte que não vergue mais do que a capacidade da regeneração de um bambu ao sabor dos ventos.

                A antessala do sol, no sorriso de uma mulher, sempre vai ser o fato de o homem que gosta da luz do dia sentir a presença da vida nesse viés, e na verdade o que ocorre hoje não é a relação que temos por contrato, algo que por posse tenha que acontecer, mas a coisa acontece no mínimo por um conhecimento, por uma fronteira inexplicável, que não precisa ser mudada, pois se a vida de uma mulher, por exemplo, for mais feliz quando está na presença de amigos, ou mesmo na escola, não deve, por insistência, achar que algo é sua propriedade afetivamente falando, pois isso cria uma relação de dependência que só afeta a vida do per si, antagonizando outros que já o sabem que o segredo de uma relação aberta existe sem segredos, e nada de falta fará se a expressão soar livre, não importando para alguém em quem confia saber os limites, por mais paradoxais que sejam, da mesma confiança. Assim é na Natureza, estamos por nos limitar a cercas, as árvores ou são muito altas, ou seus troncos por vezes estão enfileirados para o corte, as pessoas se acumulam nos serviços vários, os carros zumbem como carochas correndo pelo asfalto, o ser humano corre direto sobre os tapetes de suas metas, e o indivíduo por vezes quer que o amor se consubstancie e mal sabe que já faz parte dele, mas tem que saber que não é algo do impulso, que apenas apreende as coisas como são, e que a falta de um homem a uma mulher ou de uma mulher a um homem, ou de um peixe na mesa, apenas não signifique a matemática, ou a lógica do ser homem, do ser mulher, do ser peixe na mesa, de estarmos aqui para usufruir, da questão do consumo, pois isso não constrói nada na Natureza de quem efetivamente somos quando a respeitamos como um Todo. Estaremos mais dignos se a experiência de um indivíduo for acrescentar na experiência de outro e refrearmos nossa conduta afim de sermos mais quem somos, nos construirmos é relação de respeito com todos os nossos atributos mais sagrados, aí contando o nosso corpo e o que fazemos com ele, como levamos uma vida saudável, e como criamos laços onde não se busque a auto repressão como um tipo de disciplina férrea, a não ser que dela precisemos para estarmos mais seguros perante o escopo das dificuldades, a não ser que a disciplina signifique um movimento em direção a uma vida de cautela, de sabedoria, de sabermos ser simpáticos, e de podermos desenvolver as habilidades necessárias para sermos bons na diplomacia.

                Temos que ter por conta de que a Natureza possui sua dialética, seu diálogo interno e transformador, temos que saber que somos feitos de matéria com químicas e hormônios vários, e que uma dor de dente nos deixa sobremodo acuados, por vezes. Isso é fato. Igualmente, o tempo pode estar frio e turvo um dia, no outro estar ensolarado, passam as estações e os seres existem, e nem sempre os vemos e, se sairmos de nossos escritórios, ou restaurantes, veremos, à luz do dia, muitas vezes voando em várias direções pássaros como urubus ou gaivotas, pedras marinhas ou asfalto em obras humanas, o concreto, as casas, as vilas, sucedendo, assim como muitos casais se amando, ou outros já mais fechados, à procura, em um tipo de luta, onde não só tudo isso entra em movimento, como a alma de um átomo pode nos por à prova na fissão nuclear, quando conjecturamos na energia atômica dentro de uma crise internacional de ordem beligerante.

                Se um pensa que não escreve por querer ter um status de que seja uma tese, se possui a liberdade de escrever e se se sente apto dizer algo a alguém, isso já é uma atitude de amorosidade com quem lê, e se sua vida tem a participação de uma pessoa querida, esta mesma pessoa tem que saber que o signo proprietário é saber que as fronteiras que nos separam por horas, na realidade nos dão o tempo necessário para que ao menos algumas palavras sejam ditas, na melhor veia de que, sob a temperança da linguagem, não nos sigam as diferenças apenas, mas apenas o caudal de que será sempre através do amor que um ser humano possua em relação à sempre citada Natureza que se poderá ver Deus em uma simples manifestação do vento em uma haste mínima de uma grama.

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