sexta-feira, 13 de maio de 2016

O VENENO DA CRÍTICA

I

            Houve um dia, apenas um daqueles em que estivéramos abraçados em pensamentos e sonhos, mesclados com o amor do carnaval quente da zona sul. O sol era da intensidade de nossos corpos, o mar insuflava as veias, as cervejas suavam pelas nossas sedes, ainda havia o mesmo amor que nos consumia de prazer e alegria. Mas havia a luta... As canetas que hoje gasto sobre a superfície branca do papel dizem-me toscamente que a mesma luta brotada e renovada se acomoda e se apresenta como um grande painel onde deixamos brotarem as nossas seivas de sempre. Uma década conturbada. Rio de Janeiro: semântica de todas as maravilhas, cidade selva de pedra, litoral e chumbo.
            O apartamento de Angélica havia estado alugado por um tempo e eu retornara de São Paulo para conceder um mês ao meu descanso. Ela deixara as chaves na zeladoria, o condomínio era simples, carregava eu pouca bagagem. Precisava encontrar meu irmão que viera para descansar um pouco do duro ano que passara no sul. Sua existência oscilava na plataforma que buscava nunca enunciar a ninguém. Temia sempre que alguém descobrisse suas idiossincrasias de homem bruto por necessidade e postura. Deixara um número com minha amiga. Os celulares ainda não eram tão populares, no entanto cada um de nós três possuíamos um. Sebastião, um camarada negro e encanecido abriu o portão. Não era a década das câmeras...
            - Ricardo, que bons santos guerreiros o trazem? – Exclamou feliz. Sabia da minha chegada. – Angélica saiu de manhã, disse que vem almoçar com você mais tarde, pelas duas.
            - Tião, como vai? Falaram-me que você esteve doente... Espero que esteja tudo bem contigo.
            - Vai-se caminhando. Talvez tenha sido a cachaça. Meus nervos não cabem dentro do álcool. Bem que gosto, mas agora a Zenaide me botou quase para fora de casa. Era a “marvada” ou a minha esposa. Você sabe, a gente bebe e dá nisso... Já estou com setenta primaveras, perder a Zenaide seria a minha laje.
            Tião me parecia triste e eu o soubera agora desse grande sacrifício que é largar o vício. “No entanto”, disse, “estou pitando como nunca.”
            - É por isso mesmo que lhe trouxe um presente: três cachimbos que não uso mais e um pouco de fumo lá de São Paulo, tabaco do bom. São cachimbos antigos de ótimos fornilhos. Onde trabalho não dá para se demorar fumando, eu fico no cigarro, pitando mais rápido! Ha! As nossas manias nos acompanham! – Disse eu, tentando levar nossas preocupações na esportiva...
            Tião olhou-me com os olhos já baços da catarata:
            - Olha, esse negócio de mania eu tenho mesmo. Se não dou no fim de semana uma flor para o mar, Iemanjá me esquece, companheiro... Que é tanto mar, Ricardo, que nós ainda veremos esse mar se levantar no timão da própria força que surge sei lá de onde!
            Baixei os olhos e o velho se quedara turvo e triste. Como era a tristeza de muitos em se trilhar das vilas miseráveis aos trabalhos nos bairros mais ricos. O cansaço renitente, a vida quase desfeita por vísceras etílicas naufragadas quando da ausência, o samba de raiz que morria a cada dia, os jovens perdidos na solidão pungente das drogas. E o pensar-se ainda que eu não ficasse muito tempo, em minha presença que a ele sempre fora preciosa. Fui breve:
            - Enquanto estivermos neste mundo, Sebastião, deixaremos as malas dos ressentimentos nos armários. Guardamo-las para que não saibam das nossas questões íntimas, a não ser que se floresça a compreensão humana entre os homens que somos e que em raro compartimos a quem mereça e de sincero desejo for.
            - Não te preocupes, meu caro, é só uma ponta de pesar. Meu filho foi preso dias atrás... Já está livre, mas recebo como uma arraia na têmpora, que por vezes não me sustento. Disse a ele: tomasse tento na vida. Tem trinta e oito anos e enveredou por esses morros afora, que nem sei. Separou-se da mulher e anda por aí na sinuca e na malandragem. Um homem feito, com quatro filhos ainda por educar.
            Tião me olhava com uma sinceridade de poucos. Eu estava bem cansado com tudo o que acontecia de se ver tão de perto essa estranha engrenagem que ainda acontece, essa desigualdade sem trilhos, sem lugar, sem tempo. Por mais que seja gigante o nosso ideal, sempre haverá uma questão em eterna discussão, um embate interno de toda uma sociedade.
            - Escute, meu amigo. Vou subir para ver se está tudo acertado no apartamento. Depois, quando Angélica vier, almoçamos nós três por aí, se queiras.
            - Pois é, depois vemos. Eu vou sempre no Olívio... Falar nisso, o dono do Luna falou de ti com saudades.
            - Depois podemos ir lá almoçar.
            - Ah, mas às duas estou por aqui. Deixa, pois de qualquer modo marcamos outra hora.
            - Tudo bem, acertado. Nos vemos. – E subi com as duas malas.


II

            O apartamento em Ipanema ficava perto do mar. Estava bem arranjado com a disposição de seus pequenos e úteis objetos em cada lugar. O mais simpático de todos: uma garrafa de gim esperava, em minha sede. Mas mesmo assim não me aventurei, pois a cama me chamou mais ainda e a garrafa deitada no estômago não valeria meu urgente e reparador sono. Dormi, depois de fechar as persianas do quarto.
            Acordei meia hora depois com a porta batendo à entrada de Angélica. Aí sim, corri para ela como quem quer degustar um bom conhaque. Abracei-a e ela freou-me:
            - Espere um pouco, também estou com saudades. No entanto vou preparar antes algo para comermos, uma salada, pois trouxe um frango assado e temperado. Parece que botaram um pouco de cominho, mas passei a gostar disso.
            - Irra!
            - Pois sim, Ricardo... Trouxe umas latas de cerveja para tomarmos apenas duas cada. Lembre-se: aqui as coisas são diferentes... Quer dormir com qualquer uma? Não aqui dentro.
            - Ah, sim? E quanto a nós, morocha?
            - A nós não sei, meu amigo. Sempre assim me canso de esperar. Você olha para todas e segue sozinho.
            - Assim espero estar, minha criança!
            - Comamos, é uma ordem!
            Fartamo-nos com o frango e a salada preparada no improviso, visto ser o toque do azeite de oliva com o limão e sal os incrementos substanciais... Ela havia arrumado minha cama no quarto de solteiro e eu pressentia, mesmo ainda antes de chegar, que dormiríamos ambos na cama de casal, pois soubera que Angélica estava sem ninguém. Achava eu que era – porventura, em minha pretensão ridícula – um homem ideal. Quimeras, bobagens, apenas mais um no mundo, como continuo sabendo disso perfeitamente hoje em dia nos meus apontamentos, nos meus trocos, nas minhas letras. Apesar de saber sempre de nos agigantarmos como talha verdadeira e necessária, cada qual. Se um está menor, o outro acresce no companheirismo próprio da existência. Como um termo de compromisso, uma espécie de vida em sagrar-se digno, de saber-se atuante dentro de uma consciência cabal na ordem de uma sociedade, como tantas as que havemos! Mas que somos iguais, mesmo em luzes mais tíbias, no crescimento de uma espiga ou no caminhar de um indigente. Este, por vezes, conhece mais do mundo do que um medalhão da ciência, posto não possuir apenas a cadeira emblemática e sistêmica das academias. Estas necessárias, no entanto, em ao menos compreender a vulnerabilidade do próprio modo de existir na superfície já bem massacrada em nossas tênues passagens pelo mundo.
            Pois sim, comemos e nos fartamos, e Angélica ao erguer – como mulher – as esperanças que eu guardara em meu peito começou em um discurso em que eu dera-lhe o meu semblante de audiência. Falou como quem falasse a si mesma, como a mesma consonância do verbo em que tantas vezes eu – admirado – a escutara. Não marquei tempo, não marquei hora. Apenas tentei redargüir e ela atalhou-me a meu próprio pensamento. Tecia-me em sua declaração que eu era como um homem irresponsável nisso do companheirismo que – segundo ela – era condição inequívoca para a comunhão entre o casal. Sabia eu, desde que nos conhecemos, de uma Angélica libertária, feminista, autêntica: revolucionária. Também o sabia que ela tinha por posse algumas prerrogativas que por vezes derrubava as suas posturas no mesmo chauvinismo talvez inconsciente que em certas questões tornava obsoletas as condições e pressupostos teóricos de sua existência. Justo quando se apercebia que eu não era como qualquer outro, posto não ser o engodo de mulher alguma, não ser propriedade de ninguém. A esse ponto não compreendera, e seu discurso me pareceu previsível à vista de apreendermos que um homem como eu só aceitaria o mesmo companheirismo antigo que a ela parecia anacrônico, mas que acompanha na verdade o fato de que se a um mostra a fidelidade, a outra mostra a importância pelo menos do esforço mútuo: da ausência de dúvidas, da construção de uma relação a um par. O número dois, as forças, a dinâmica... A certa altura, Angélica perguntou-me:
            - Entendeu, Ricardo? Parece que estás na Lua. – Seus olhos perdidos nas órbitas de um crânio inquieto e lindo conformavam com a sua pele de veludo algo a se pronunciar os lábios tenros como o mel em sua tessitura silvestre... Os mesmos olhos de sempre, negros, falavam a mim outras palavras e isso o disse a ela:
            - Apenas, infelizmente para você, escuto o seu olhar. Nossos diálogos sempre foram pontificados – nas boas horas – pelo silêncio, cara acadêmica, posto que em nosso pensar não havia teses nem universidades, apenas o conhecimento tácito de nossas lutas refletindo na serenidade de nossa mirada quando, absolutamente, se encontravam, dando a urgir o sem tempo do nosso amor, a forma intrínseca de sermos enquanto seres, de sabermos compartir como naqueles tempos em que acordávamos com as pernas entrelaçadas, com os teus seios em meus lábios. E agora? Agora sei, apenas não há. Nada existe. Não há da tua comunhão, nem da minha. Não te importunarei mais, convivamos por este espaço. Já sabes, não sou homem de muitas palavras e as que as tenho ainda assim considero preciosas, mesmo no desgaste que nos silencia pelas relações fracassadas, linda.
            - Sei, apenas pressinto as tuas idéias de mentira... – Disse ela, os olhos faiscando por jamais possuir-me, que a posse eu não a consentia... Meu social partia das primeiras relações, e ela o soubera sempre, crendo que a separação a que me submetera me faria voltar com a cauda abanando. Trocadilho infeliz da minha parte, mas esse retrocesso espiritual vinha da sede que - na maior parcela - um homem e uma mulher tecem por uma intimidade bem sucedida.
            - Você - disse-me ela – achava que me tinha por aqueles dias, e agora aqui na cidade maravilhosa vem por pousar nas camas de uma mulher que já fora tua, no sentido literal do verbo.
            - Estou aberto em feridas do Sul, linda. Estou cansado de uma espera em esperar tanto que já não sei. Não houve mais nenhuma e eu não concedi espaço para tanto, cara mulher. Abraça-me mais o ímpeto das mudanças, o clamor dos povos, a semântica da Natureza, esta por quem eu dou o meu sêmen em pensamentos, e não numa camisa de borracha!
            Angélica quedou-se em um silêncio profundo, sabia no íntimo não poder me conhecer inteiramente e aligeirou-se em sorrir em um velho costume de companheiros que se encontram. Sabia, no entanto, que temia por mim no seu secreto parecer de mulher educada e culta de boa monta que era. Passou a sua mão sobre meus olhos, estes que viram no olhar – antes duro – dela, a superfície sagrada da ternura.

III

            Angélica se separara quando era jovem, precocemente. Nos seus cadernos, em meio a eternos estudos, anotara as suas memórias, os seus presságios, em desenhos também realizados com incansáveis canetas negras. Mostrara-me alguns rabiscos, uns tantos, que eu não os pudera crer no espelhamento de seus textos, também tal a precocidade perspicaz e dura de sua existência. Filha de um viciado em jogatinas e álcool refugiava-se desde criança em seus rabiscos e letras, estas que seus irmãos mais velhos – Pedro e Lúcia – lhe ensinavam. A cada palavra, a cada sílaba pronunciada nos secretos nichos do papel, por vezes um desenho de libertação. Um ouro representado por um pequeno projeto, uma esfera cônica de invencionice, uma palavra maior, um período, uma pequena frase dizendo o muito do se contar. Em síntese, possuía a válvula do escape, a veia, a criação. Literatura e arte sempre houve em sua casa: bons livros, enciclopédias de artes visuais, argila, tintas e papéis. Tanto nos sem pauta aos desenhos como nos cadernos que povoava com os seus sonhos, suas miríades de estrelas e seus caracóis marinhos que copiava da fauna cristalina e crua da Natureza.
            Sua mãe praticamente chefiava a casa, dando a sustentação financeira e arrimo moral que seu pai não consubstanciava. Chamava-se Helena e era morena como a filha, de tons acobreados, os olhos igualmente negros, seios fartos, ríspida como um rastilho intermitente de pólvora. Seus filhos a respeitavam muito, além do necessário, pois o pai lhes faltava na sua condição desestabilizada em que apenas arvorava seus ímpetos chauvinistas de ter sido bravo politicamente em um remanescente e duvidoso período. De nome Antônio. Vivia de lembranças, jogava os dados para se refletir nos números e bebia para esconder de si mesmo seus próprios temores.
            Vivera Angélica em um lar de grossas paredes e não menos fortes aberturas, com madeiras centenárias, em um solar que fora de antepassados de Helena, sua mãe. Antônio se casara com Helena já aos trinta anos. Criara-se em uma casa de adoção. Era de origem ucraniana, do Paraná, onde aprendera o ofício de tecelagem industrial em um curso e ganhou a independência em fábricas mais ao sul do país. Em viagens a São Francisco do Sul, em Santa Catarina. Conhecera Helena que tornou-se sua companheira e mãe de seus filhos. Angélica, a mais nova, aos vinte e dois anos foi para o Rio de Janeiro contratada por uma editora no ofício de revisora e lá aprendera, com a efervescência cultural da metrópole, a escrever profissionalmente e vivenciar o ramo gráfico. Casara-se aos vinte e cinco e aos trinta anos separou-se, sem filhos. Aos trinta e cinco, independente, já era talhada como mulher engajada e guerreira nas atitudes e no caráter. Jamais jogara as moedas no acaso que propriamente da existência simplesmente ignorava. Não bebia pela embriaguês, mas por esta de seus companheiros no sabor urgente de um bom vinho. Tecia frases, e a poética de meus trabalhos encantavam-na. Ria à socapa sincera quando me compreendia em equações que as sabia complexas. Sorria com o olhar brilhante que a mim atenuava – por inércia festiva – as tensões dos dias...
            Parecia-me, por questão de similaridade, que ambos fôramos cunhados na mesma moeda, cada qual apenas por valor formal, do ouro espiritual que predispúnhamos a ser: uma moeda sem valor de troca, sem as mãos dos outros, que apenas em sua rotação infinita faria encontrar – em seus reversos – a existência pura no mesmo espaço. Um quadrante sem selos dos impérios, um valor apenas de mineral sólido, indestrutível, resistente como os rochedos inerentes dos abismos marinhos, ou mesmo em uma erva que não percebemos por uma vereda na luz noturna das estrelas. Assim éramos, talvez inconscientemente, talvez desabrochássemos nessa vertente. No entanto, apesar das diferenças que possuíamos, nosso amor era intenso e límpido como o romper de uma chuva na montanha.
            Da janela do apartamento dava de se ver o morro Dois Irmãos que, rocha sólida, só me fazia pensar de um modo sui generis, resultado de dois anos de relacionamento que tivera com Angélica.
            Haviam passado dois dias. As camas, ainda separadas, davam um indício de que haveria um resguardo maior por parte dela. Eu não me ressentia, pois a cidade ainda era possuída pelo mar, ao menos, na minha visão de exemplar barbudo da espécie. Outra manhã... Outro assunto... Eu buscava especular, apenas, ensimesmado nas minhas promessas que fizera a mim mesmo. Era uma solidão compartilhada a dois, cada qual com a sua chave mestra de ambos os cofres, dos tesouros e ressentimentos improváveis. Uma melancolia nos abatia naquelas horas e eu atinava a trabalhar minha literatura, apenas, e concordava quando ela – curiosa – vinha matar a sua sede intelectual no meu trabalho. Certa tarde, enquanto lia uma espécie de conto meu, veio dizer-me da gramatura, ou peso do papel. Creio que sob algum pretexto:
            - Ricardo, você já imprimiu capa de livro com couchê fosco, em 120 gramas? – Olhava-me atenta, talvez sabendo que por baixo da gramatura de meus olhos ela percebesse que havia um homem se distanciando... Não que eu quisesse esse padrão desconforme, mas a mim já não se passava nada. Estava alheio a coisas fora o meu modo de trabalhar e viver. No que respondi a ela:
            - Olha... Geralmente quem decidia ou decide é o editor...
            - Pois é, querem me colocar nessa função, eu creio... Saiba, Ricardo, que não estou suportando essa indiferença tua! Mata-me de melancolia...!
            - Aí sou eu quem passa a não entender o suficiente. Fale-me da Natureza, do mar, e não da celulose em uma árvore derrubada no palco de suas mentiras! Que quer de mim? Um asno? Um patife? Mande-me embora, se queiras, mas não tome da fé que eu sou um imbecil! Chega das mentes cabulosamente industriais. Queres me tomar como mais um em tua charneca, pois finca a bandeira em outro território, pois por ti também desfaleço, querida companheira!
            Angélica começou a chorar convulsivamente, eu apenas lhe trouxe água... Deu-me um abraço... Disse que estava tudo muito complicado, que ela já não suportava, nem confiava em ninguém.
            - Meu querido, por que me abandonaste daquele modo? Só porque eu andei com Carlos por uns dias?
            - Não te abandonei, linda, apenas me resguardei e à tua retaguarda te desvencilhei das bobagens que passavas a cometer. Tais eram as tuas ações pelas quais não te freaste. Fui para Florianópolis, pois lá – apesar do pouco que se dá às artes e à literatura – pude seguir lecionando como sempre o fizera, sozinho. Apenas a minha vida... Não mistures a falta com a substância, pois uma pode ser plena e a outra, oca. Esse mundo também é dual, querida, se não compreenderes essa lógica não poderás ver com olhos semicerrados, pois é nessa luz que nos agigantaremos...
            - Entendo. – disse-me, enxugando as lágrimas.

IV

            Angélica passou a ir comigo à praia, naquelas idílicas férias. Estávamos sempre em Ipanema e nessas circunstâncias de camaradagem nos aproximávamos mais e mais. Os dias passaram como que repletos, as grandes ondas que pegávamos com o peito, os mergulhos, a profusão das pessoas que ornavam a orla, as famílias, os casais, os vendedores, as ruas, o comércio, todos pungentes como o sol que abrasava.
            Como toda boa jornalista, Angélica se mantinha fiel aos fatos, mesmo com essas férias de verão. Quanto a mim, chamavam-me de escritor e eu mantinha-me sereno, com o ego compungido e restrito ao pretenso ofício. “Quem dera,” pensava eu, “apenas cumpro com uma necessidade de permanecer pensando,” redargüia em meu diálogo interno, em modéstia que cria saudável, para que os companheiros não percebessem que é tênue a linha que divide a ficção da realidade. Optara eu – por ora – à ficção e nela talvez tivesse permanecido por receio. Mas de um sentimento de escrever com todo o meu corpo, e a mente pétrea de um espartano, o ideário concreto da inteligência, este me perpassando a comandar meus próprios sentidos, numa ida e volta, nas potenciais contradições da existência em resguardar no fogo das mensagens: aí sim, no espírito, que eu preservava com o furor até de útero que não possuo, nas ondas de um rebento que brota no parto, na missão que me impunha a nunca faltar com a Verdade, mesmo no arcabouço do que se chama a ficção em nossa era tão vulnerável ao ilusionismo e às mesclas que se fazem no tempero das diversas realidades criadas em sua própria confusão.
            Urgia, na quarta-feira, encontrar Cláudio, meu irmão, para conversarmos a respeito de um jornal que já me dava o de pensar e o de se trabalhar os tutanos. Falei com Angélica que ele iria pernoitar no dia seguinte e ela se quedou feliz, pois guardava um grande apreço por ele, no que me consentia total liberdade, engendrando o companheirismo que ainda vivenciamos em plenos quilates.

V

            Via-se, num dia cor de chumbo, uma face da cidade maravilhosa. Levantei-me com o meu irmão, cedo como eram os dias naquele carnaval. Cláudio me parecia resignado a ver que o jornal talvez fosse uma ilusão, pois a quem seriam necessárias outras palavras, outras letras? Não estaria tudo nos conformes? Um cálice de veneno nos perpassava até a medula, e por vezes já não sabíamos de onde vinham tantos os descaminhos do regresso... Críamos que fosse ilusão também. Críamos por necessidade atávica de ainda ver ao menos uma sincera humanização em vilas miseráveis, em imensas favelas, mas certos ruídos de helicópteros de multinacionais nos atordoavam a razão. Talvez a grande queda de braço entre a intenção e o patrulhamento, um genérico sentir-se no tentacular braço do poder. Fazia dois dias que Angélica não aparecia. Dois eternos dias. Às dez da manhã deu de seus ares, devidamente documentada. Uma Cannon recheada de imagens, material de imprensa alternativa, e gravações nem tão legais assim. Disse-nos:
            - Ricardo! Cláudio! Temos agora um jornal. As redes estão esperando descarregarmos conteúdo diretamente do olho do furacão. Uniremos ainda mais toda a América Latina. Na verdade, foi um ataque às máfias das drogas. Um fogo cruzado; parece que os jornalistas externos estão por aqui. Como sempre, certas mídias se aproveitam para os momentos críticos como esses lá nos morros. O pior já passou. Não foi um tipo de golpe pontual, mas uma pacificação forçada, mas temos que mostrar certos agrupamentos de forças e abusos autoritários, mostrarmos que agora a cidadania ter que se impor. Tenho uma prensa que rodará nosso tablóide amanhã, se bem trabalharmos hoje e virarmos a madrugada! Quentes e novas do forno são as notícias.
            - Sempre é bom que nossa opinião seja aceita nas vilas operárias, é para lá que vou agora, então! – Cláudio estava praticamente com a sua fecunda mania...
            - Nada disso! – Disse eu. – Nada de prelos também. Não quero ver nenhum folheto, nenhum caderno nas ruas. Antes, quero ver o que você conseguiu trazer, Angélica. Você é jornalista, mas não se deixe emprenhar pelo obsoleto de certas atitudes. Saiba de algumas peçonhas...
            - Já mostro o que trouxe. Você, como um bom redator me dirá e eu seguirei, mas é farto e bom material.
            - Escutaremos hoje o noticiário, são fatos pontuais, a presidenta segue forte e o governador está dizendo para todos ficarmos calmos e reservados. Mas sei que não há como. Houve graves enfrentamentos e se passa que: onde, precisamente, e quando, e como, são perguntas às quais não temos respostas.
            Era condição sine qua non que nós nos aproximássemos da bagatela de um dia a mais. Se não fosse pelo ímpeto, na verdade seria apenas um jornal para que sobrevivessem as nossas idéias. Disse eu a Angélica algumas palavras – duras – no sentido de saber um pouco sobre a crítica gratuita e o seu veneno que se nos impõe.
            - Angélica! Tenho algo a lhe dizer, companheira. Talvez possamos botar um jornal na internet, talvez o façamos na prensa, mas você e Cláudio têm que saber que esses fatos apontam para uma medida de forças em conflito... Não teçamos quaisquer preços no recrudescer da violência, pois esses mesmos valores transcendem o “espetacular informativo”. Justo, sermos obra e ciência, paradigma e padrão, crédito e farsa, somos tudo isso também, não nos esqueçamos, querida. As fotos da ocupação das favelas são previsíveis, pois vi na TV a imagem crua dos tanques de guerra. Espero que por aqui não haja uma transfiguração de certos conceitos.
            - Não se preocupe companheiro! São fases e assentamentos de desditas, brinquedos de jovens e velhos poderes.
            - De qualquer modo, minha querida, quero dizer-te que nem tudo o que apreendemos vêm pelos canais que encontraste em tua ainda pouca experiência. Nada é um brinquedo quando ou por onde estão as armas, desde um indefectível não até uma ogiva silenciosa em sua potência ao horror. Não queiras brincar com o poder pois é quase sempre ele que nos dilui: em suas buscas, suas prerrogativas e suas certezas. Saiba uma coisa, mulher dos olhos de cristal, o vento é o que finaliza uma hecatombe e a espalha, dentro de suas próprias alavancas. Cláudio e você ficam aqui, eu compro o café e os pães e a manteiga e o queijo, por suposição... Ha, He, He. Sei o que acontece, amanhã é dia de paz crescente e na minguante ficaremos acordados dormindo, pois é isto que se nos toca, em presente luz!
            - Eu não entendo. – Disse Angélica, com (agora) o rosto mais sereno de estar segura.
            - Não é bem para entender que existimos... Intrinsecamente é para o saber, conhecer, fruir e viver.
            - Meu irmão, - disse Cláudio – você está cagando pelos olhos, me desculpe a expressão!
            - É melhor assim – disse eu -. Desse modo espalho com maior facilidade e os vermes se locupletam de bosta!
            Todos nós rimos... Saí do apartamento, comprei bebida destilada, dois CDs de Martinho da Vila, um de Beth Carvalho e comemoramos o humor em um petit comitê, festejando apenas mais um presságio!

VI

            Ilusão que eu empunhara qual bandeira a se derramar em hora necessária. Os dias naquele pós-carnaval espumavam como cavalos exaustos, a quem se dava, àqueles que se doavam em sobre existir na consciência que por algumas etapas fazia sobre escrever o revés na ausência, compensado apenas na presença das lutas fosse em qualquer lugar do mundo. Pois, na Verdade, o espelhamento nosso e cotidiano valia a crer em um mundo melhor, mais humano, coerente. Para isso, resolvemos: eu, meu irmão e Angélica a dispensar registros e desenhar imagens e letras de rompante, no caudal rumoroso de descobertas no mesmo cotidiano, nas frases que nos acompanham e nas imagens feitas verbos que nos soletram.
            Por minhas caminhadas ao Leblon, havia encontrado na orla uma antiga companheira de nome Sônia: acrescida uma aos três... Já estávamos em quatro. Não era o jornal mais a preocupação, nem as ocupações; sedimentado o Estado democrático reinventávamos, com textos e imagens, antigas rodas, pontuando entre a arte e a filosofia, se entendermos que é este o nome dado à faculdade de se pensar e exprimir. Enfim: seres atuantes que somos, repartíamos o pão de nossos conhecimentos... Crônicas, cartolas, frases brotavam de questões com alvores de próprias luzes e o apartamento tinha também Tião que, com melhoras familiares, consubstanciava tentativas em atitudes, sonhos em ideários e costumes consagrados na efervescência daquele nicho cultural que se chama Ipanema, Leblon e Copacabana. Sônia morava no Leblon e Angélica passara a conhecê-la como minha nova companheira de praia, conversas e aquarelas que ela desenvolvia com maestria. Eu a descobria na efêmera eternidade de seus gestos quando pintava veladuras sobre superfícies ainda úmidas...
            Compramos dois laptops e passamos a nos comunicar, mas Cláudio ainda – em seu espírito irrequieto – continuava nos manuscritos originais, o que dava ais ares de certeza em sua arte. Zona Zé passou a ser o seu jornal e a Xerox das letras entintadas à mão o seu processo de atingir alguns que comercializavam seu trabalho, na distribuição do novo, da forma à vanguarda cultural. Cláudio era eternamente enamorado de Angélica. Vivenciaram intimidades, mas agora ela preferira o trabalho jornalístico como uma plataforma existencial, base de sustentação na estranha sociedade onde o affair move certas maneiras por vezes contrárias ao esteio das mudanças, o mesmo de se falar das posses existentes, inversamente proporcionais às desigualdades que invalidam a progressão do erotismo revolucionário. Há casos em que a boa luxúria se transforma em ira, quando alguma interveniência, qual veneno, prejudica muito a vida do par. Ou a própria luxúria nefanda, no ingênuo pensar do indivíduo, enquanto outras cabeças, na cobiça de seus pretensos e literais paraísos do planeta, manietam os povos em suas tentativas de conquistar seus objetos de prazer: um carro, uma mulher, uma grande festa privê regada ao privilégio daqueles que entopem suas veias de soberba e ganância, banhando os corpos com os leites de seus fracassos...
            Seguia a barca e o dito geopolítico interesse virava sempre uma pequena ampulheta de tempo ignorado, esquecida no canto de um painel inexistente. O nosso fazer, o nosso expressar, o nosso construir era sim, este, um vitral compondo luzes com o amálgama duro nos seus interstícios. Discutíamos, reservávamos horas, desenhávamos e a crítica despertada não era mais aquela em que se nos prescrevem para cairmos envenenados sobre um sofá de pedra!

VII

            Estávamos atentos sempre em nosso afã. Prosseguíamos quais máquinas de criar. Um adendo apenas: o sabermo-nos humanos fazia-nos seguir a senda espiritual. “Qual?”, dir-se-ia. Posto o corpo ser a veste, posto o corpo ser a máquina, e o único proprietário do planeta chama-se espírito! Anima, alma, atma. Como em uma árvore derrubada, outras vêem em seu silêncio nos espíritos da floresta. Como na água de um rio os seres que habitam e nunca – jamais! – requerem propriedade, pois apenas e submissamente são mortos pelas devastações. Um parágrafo para que aqueles que lutam por melhores dias saibam que os movimentos populares urgem e clamam por Natureza, por parques, por mares despoluídos e não as cloacas que lhes sobram quando descem de suas moradas, em seus riachos feitos esgotos a céu aberto. Na verdade, é nas favelas que reside o estudo necessário para se melhorar. A “pacificação” passa a significar em alguns sentidos uma mordaça às condições insalubres das grandes massas na periferia das metrópoles. Massa obreira, massa que vive ainda em um país extremamente desigual. Não nos iludamos. O que as televisões apresentam para essas massas apenas confunde, infunde preconceitos, segregam e marginalizam o pobre que segue por sua vereda como um verdadeiro herói, condição heróica de toda a massa brasileira. Meu Deus,  - pensava, reunidos aos amigos – tanto, mas tanto a se debater, a questionar, posições a serem discutidas, que a proximidade da própria – porém rara – classe média que possua uma postura mais progressista seria de um ideal: melhores e mais humanos médicos, melhores engenheiros, melhores professores, aglutinação e força no grande passo libertário de uma nação.
            Ilusão? Utopia? Não: razão, conhecimento da realidade, consciência de que a doença se dissemina nessa turva e protética margem das camadas educadas, pois estudam para segregar-nos; em síntese: quem vos fala dá o seu sangue para a química que cala, mas não consente, que seda, que exclui, que leva um texto para uma ilógica semântica agora da primeira pessoa, que a torna lenta e desagrega, que torna bom o melhor e torna adaptada a face brilhante da justa rebeldia, que faz o são ser alcunhado louco e aos dementes os nomes da pretensão dos normais... E raramente faz alguns escaparem da bastilha de sua própria realidade mental.

VIII

            Fatos relembrados... Apenas gastara eu alguma saliva com meus amigos. Estupefatos, não rebateram, aceitando. Mas eu não escrevia, apenas uma grande Ágora na Farme de Amoedo, em Ipanema. Estávamos presentes, e a arte também – fortemente – dava os seus ares. O sol era por se dizer algo que o tinha em minha lucidez como o meu maestro, iluminador padrão dos meus ofícios, e resguardava com ele minha função de homem. O Zona Zé já obtivera uma primeira edição em uma gráfica do Flamengo e, por meu lado, me era reservado o humor, talhado que era para tal. Passei a gostar disso. Angélica era a chefe de redação e Cláudio o administrador. Três pessoas para oito páginas tablóides mensais. Um excelente resultado, comemorado todo o sábado no Sindicato do Chope. O que antes fora um investimento em trabalho verteu um retorno mais do que o esperado. Passara o carnaval e o jornal já estava em Ipanema e Copacabana; tiragem limitada, no entanto, distribuída nas bancas na extensão dessa orla. Não tinha sequer a pretensão de ser algo além de sua informalidade, apenas sabia das horas e honestidade de seus desenhos e letras, tal qual o Pasquim, que fizera real história no arcabouço cultural de todo o país.


FIM

A Ficção da Realidade - Conto


I

           
            Não importava a mim aonde eu acordara, saberia apenas que o fizera cedo. Vivera até então nas ruas durante alguns anos desde uma noite no ingresso à marquise de um edifício onde, mais recentemente, passávamos cativos da sopa presencial nas manhãs servis após noites regadas à embriaguês. Pelas ruas e na marquise, bebíamos sabendo que estávamos errados, mas o frio era maior que nossos fígados e, resistir a ele seria pior, no curto prazo a nós alongado pelo desconforto daqueles meses de inverno, estação cruenta que a alguns de nós era a derradeira. Pensava não dever estar nesse modo tão cáustico de vida. Estela e Cláudio me ajudavam a vencer os desatinos da noite, quais tantos que eram algo como morcegos, com suas luzes que não se apagavam em seus fachos amarelos. Meu violão de quatro cordas nos embalava, mas dois bordões de cima faltavam demasiado para se encorpar melhor os acordes e iniciar boas escalas... A bebida e o pão da manhã eram uma prioridade e as cordas eram mais caras do que conseguir compartir esse exíguo orçamento. Cedo, pedia a Vladimir uns goles destilados e saía a comprar pão e margarina com o que tínhamos ao dispor. Os amigos ficavam no compasso de espera, com a fome evidenciada nos olhares chumbados e brilhantes. Como quando eu tocava um arremedo de flamenco que aprendera com a sorte em meus bons e prolíficos tempos.
            Gastei quase quatro reais no pão de trigo que ainda estava em nosso alcance, pois também um pouquinho quente, e o comemos já decidindo que não tomaríamos a sopa que nos reservavam praticamente em todas as manhãs, naquele grande asilo aberto e involuntário de almas e sofrimento.
            Sentia-me sempre meio roto, de pedir algo, de pedir um emprego. Triste por não ter colocação, por sentir-me inapto em não ter me treinado em nada... Quase um pensador – menos que os meus amigos, no entanto – admitia ser importante um trabalho com carteira assinada. Via-me à noite cobrindo-me com papéis, forrando-me entre a pele e as vestes com jornais, como um casaco irônico de notícias apenas aparentes, ocultas em nossas noites pelos trajes que envergonhariam os astros e as estrelas desse periodismo que nos excluía e ignorava em seus parágrafos e fotos. Não existíamos aos olhos brilhantes das notícias, apenas como estatísticas frias e cartesianas.
            Seguia-se o rumo das marquises naquele inverno e nos abrigos os banheiros quase sempre estavam lotados, banhar-se era raro... Não havia água pública, banhos públicos e quentes na cidade, a não ser quase sempre por intervenções religiosas, por vezes tão pungentes que chegavam a ser ameaçadoras. Comecei naquele dia, como sempre, com um olhar perscrutador à paisagem urbana. Encontrei Natasha escorada por um pilar de cimento de um falso monumento em uma quase praça. Disse que havia trabalhado muito há duas noites e que ganhara o suficiente para darmos um “retoque nas nossas fachadas”. Olhou para mim, suas peças de roupa mais discretas, um batom igualmente discreto e a sombra delineada dos olhos levemente borrada certamente por uma noite com poucos sonhos...
            - Heitor, você não acreditaria em nada do que eu lhe dissesse. – Acentuou as palavras, como quem se dirige a um combalido pelos climas patéticos. – Já comprou os pães hoje para todos, querido?
            - Sim, agora a zero, a zero...
            - Falindo muito?
            - Sempre. – Respondi, olhando bem em seus olhos claros.
            Chamou-me ela a um canto, convidou-me a um café, segredou-me montes de palavras ao meu ouvido... Ao meu silêncio. Disse para segui-la. Entramos em um hotel barato e tomei um banho, fiz a barba e retorqui, quando ela me deu umas calças de homem, meia, cueca, sapato e uma jaqueta de nylon, além de uma camisa de flanela com arabescos no colarinho. Todas as peças discretas e surpreendentemente boas:
            - De onde você tirou isso tudo, Natasha?
            - Calado! Dessa vez consegui um troco sem precisar me vender. É o que querias saber? Comprei-as em um bom brechó. Ainda possuem um cheiro de mofo, se notas bem. Chega um pouco, meu bem, por hoje não ficas na rua. Nem eu.
            - Acontece que tenho um compromisso meio árduo por esta tarde...
            - Posso saber?
            - Nada de muito novo, Nati.
            - Então tudo bem. Estarei aqui pelas nove da noite. Ia dar uma volta com você, mas se não podes, paciência.
            - Sabes que meu compromisso é caminhar um pouco também, sozinho. Encontro conhecidos, mas tenho que consertar algumas coisas, uma delas é a viola, e sem ela eu efetivamente estaria morto de dar dó.
            - Você ri agora?
            - Encontro os risos em todas as horas, vai ver que por isso me tomam como um pouco louco, Nati. É assim, não posso abandonar meus amigos de rua, não seria tão fácil. Não nos salvemos muito, não dependeria eu desse critério, assim acho, minha amiga.
            - Bem, de qualquer modo, não vou resistir a esse seu portar-se meio louco. Laissez-passer? Não penses demais. Contemple um pouco, que a estrada está afunilando cada vez mais, querido, a cada passo.
            - Seu erro, Natasha, é caminhar apenas sobre as pedras. Lembre-se que o mandacaru brota das pedras do sertão, e o país é imenso como um continente em que por vezes não há pontes que vençam a deixar a nossa razão mais sábia. Nunca deixarei os meus amigos sem o pão que é por direito e circunstância, apesar de saber que esse tal de laissez não me dizer respeito, pois é na luta diária que conseguimos caminhar, a luta de estarmos ainda com saúde. A conivência com uma sociedade autoritária deixa passar qualquer tipo de podres, econômicos ou não. Agora é que estão vendo que os bilionários possuem os metais? As armas? O poder? Quer me retirar das ruas? Retire antes essa parafernália montada que remonta a fascismo, seja de que lado for, facilitando os neonazis de fomentarem seus pressupostos esdrúxulos.
            - Você conhece algo, mas me parece que subestima esta amiga que lhe sou... Deva saber algo você que trabalho com homens. Por vezes porcos, monstros. Estou na rua? Não? Nas alcovas dos piores subúrbios... Eu tomo meus banhos para retirar do meu corpo o resto do que sobra em minhas noites. Quantos foram aqueles que quiseram me manter como escrava sexual? Você acha que é fácil trabalhar sozinha? Talvez eu esteja sendo muito dramática, porém creia que estou feliz em sua companhia hoje e gosto muito disso e queria passar o dia contigo e dormirmos na mesma cama e acordarmos unidos. É densa a nossa dor.
            - Creia-me, mulher, você tem a razão em sua cabeça. Passaremos o dia juntos, apenas me sinto em uma situação desconfortável de não possuir dinheiro. Na verdade, eu tinha que me encontrar com um homem que me garantiu um trabalho no comércio. Pecinhas de plástico; brinquedos; penso ser esse o negócio. O cara é um importador chinês, ou os produtos são da China, eu não o conheço bem. Aliás, nunca o vi, tenho apenas o telefone e sei que trabalha em uma rua perto daqui. Dá-me em consignação um pequeno lote e - se eu comercializar - recebo mais para ganhar o sustento. Está aqui o cartão, para você ver que eu não minto. Michel L. P., e o número: 35469906.
            - É cedo ainda, são nove e trinta passados, vamos descer e tomar um café mais reforçado na padaria da esquina.
            Descemos as escadas e não havia espelho no quarto, apenas no armarinho do banheiro vi que sem a barba eu parecia efetivamente mais nos conformes; mas, não fora isso, a roupa realmente fez uma diferença estupenda, pois até os sapatos de camurça me serviram e sentia-me mais confortável com essa aparência e a sua relatividade de adaptação formal tão concreta no convívio das cidades. Na saída do hotel havia um espelho e vi minha roupa por inteiro, qual que me vi outro em outra estampa: um novo jeans, um novo casaco, o cabelo penteado, minhas faces ainda arranhadas pela lâmina de barbear. Um bom banho, como me fizera falta...
            A padaria sob o hotel fazia parte de um edifício de cinco andares, um balcão grande de fórmica úmida fazia às vezes do atendimento. Servimo-nos de pastéis de banana, uma vitamina de maçã e mamão com melaço de cana e levedura, conforme a moda da casa. Uma boa refeição. Tomamos um bom café e saímos; eu com um maço de cigarros, a fumar em companhia dos pombos que por ali vinham a comer do milho jogado pelo dono do lugar. Isso tudo do dinheiro... A mola mestra... E pensar que alguns poucos no mundo concentravam quantias faraônicas. Achei um pouco estranho Natasha não fumar comigo, como costumávamos. De onde viera o dinheiro, este pouco, de Natasha, o soube: estava grávida de um empresário de pouco mais de quarenta que, como um canalha cavalheiro, não lhe recusara a ela, já de dois meses, o alimento necessário ao feto. Canalha porque prometera a ela o ganho enquanto estivesse com o filho no ventre. Cavalheiro porque fazia ares de gentleman postiço. Meses de certo fausto, disse-me ela, largaria a vida de programas por enquanto, mas não seria esse o cidadão nefasto e hipócrita que sustentaria o próprio filho. Seus olhos claros como o cristal me nublaram, me entonteceram em minhas novas roupas ao costado de um ser que vinha de rompante... Teríamos um tempo, se ela me aceitasse.
            Natasha não tinha por onde começar a nova empreitada, não a quem expressar-se, que eu seria sempre o primeiro amigo, apesar de nunca termos dormido juntos. Praticamente uma retirada a fórceps da rua, uma madrinha de meses e um compromisso estóico de principiarmos em sermos três, ao invés da cachaça que me mataria nas ruas. Tínhamos que tomar fôlego, mas fatalmente eu teria que abandonar o convívio com pessoas de quem recebia mais solidariedade do que na maior parte dos lotes da minha experiência de vida. Tornei a falar abertamente com Natasha sobre o mundo que habitamos; suas idiossincrasias nefandas. Mas também de uma célula familiar que poderia vir a ser a construção de uma prerrogativa mais sóbria para ambas as existências. Na verdade, tanto eu como ela não compartíamos de uma união absolutamente carnal, pois era de seu absoluto excesso em sua vida e de minha retórica pungente de morador de rua, experiências tão pesadas e duras que seria mais do que isso o processo de união. Teríamos que reaprender a amar, já que os pretensos semelhantes moram do lado do preconceito e da amargura moral a não aceitar o excluído, com suas armas de opressão por vezes guarnecidas por algum poder oficial ou escuso.
            Na verdade, voltamos ao quarto do hotel, o choro dela veio convulsivo e eu mantive-me forte, acalorado, no entanto. Eram outras equações a serem resolvidas, dizia confiar apenas em mim e, como sempre, eu permanecia crédulo nos meus pareceres de homem. Mas era difícil crer que tudo acontecia ao meu redor, também não confiava em quase ninguém... Uma sombra de um nada percorria meus olhos nos vultos da cidade, já me vinha uma vontade lancinante de beber algo e possuía a certeza: se Nati me acompanhasse na dura tarefa de largar o vício já seria de larga estima, larga e extrema estima! Não haveria como cair mais baixo do que fazer cobertas dos papéis imerecidos do baixio das notícias, estas sim, em sua maioria de uma parcialidade até dissonante... Fatalmente, teríamos que mudar para um bairro mais afastado do centro da cidade e manter sigilo quanto à minha companhia, para que não desse na vista que ela estivesse com alguém. Algo de fortaleza se sobrepunha em minha visão, creio até que foi isso que me impôs uma virada na minha vida, ter uma vida a quem lutar... Debaixo, creio, sempre de baixo, assim, viver na base sem almejar um vôo que não fosse maior do que deve ser o justo para cada ser humano. Um fundamento, um esteio, um platô do conhecimento. Meu violão não seria meu mote de vida, mas este uma refeição, um banho, uma morada, um trabalho. A sobriedade da vazante de minhas angústias, a felicidade das cheias de meus companheiros e especialmente de Natasha em ambos que viveríamos por ser alguém na mesma luta em que as engrenagens de metal latem por fora, invectivas, em suas passagens claudicantes de lobos esfaimados.


II


Bem, reservamos aquele dia para passearmos na cidade, fomos a uma praia não muito distante, como a encontrarmos com nós mesmos... Voltamos ao hotel à tardinha. Dormimos cansados...
Acordamos no dia seguinte depois de um sono algo conturbado, mas logo posto em sossego depois de bastantes diálogos e pausas informais. Quaisquer espécies de rancores que viessem, a ternura de nosso laço vencia a cada minuto... Um olhar mais atento, contemplar um resto de bebida carmim no copo, o desalinho da cama, tudo vinha a calhar a um perfeito entendimento, justo que eu dormi em um colchão que me pareceu o próprio paraíso. Preferimos não nos tocar, apenas roçávamos naturalmente os corpos aquecidos no cobertor pesado no consentimento febril do carinho e da mesma ternura que nos envolvia naquele nicho resguardado pelo neon que invadia parte do quarto, da placa que irradiava a luz, marcando as letras brancas do letreiro... Nos era concedida uma forma de amar de dois que haviam de retirar-se de seu modo de vida tão amargo e cruento, de uma profundeza abissal do mesmo modo solitário de não querer as gentes, de esquecer na verdade quiçá o próprio ganho, de tão pouco: moedas miseráveis. Um homem ao lado dessa mulher seria uma espécie de consagração real de uma união consubstanciada na verdade, posto estarmos partindo de plataformas em que o lodo inóspito já era parte de nós mesmos. Aliás, estava eu para resolver o trabalho com Michel. Já passavam das oito. Olhei para Natasha e ela surpreendia-me com o talhe de suas roupas, que haveria de trocar, conforme disse a si, quieta no seu próprio entendimento...
De manhã, aliás, naquela manhã, de onde vinham dar as presenças os pombos que olhávamos da janela do hotel, por sobre, Nati já me vinha com o olhar que eu não mentiria que por vezes era claro como o dia, e à noite relampejavam focos de cristais mais duros, assim me parecia o olhar. Breton em suas poesias talvez remetesse a algo parecido... Estava ela circunspecta.
- Heitor, já é hora de descermos. Você tinha que arranjar algo, não?
- Sim, tenho que ligar para esse Michael. Você me empresta o celular?
- Óbvio.
- Obrigado.
Enquanto conversava com Michael, com certa dificuldade, pois a ligação não estava muito boa, Natasha descia comigo às escadas para quebrarmos o jejum. Michael possuía um sotaque de estrangeiro, mas sabia lidar com as palavras, me parecendo um competente homem do comércio. Marcamos um encontro no meio da manhã em sua sala. Era perto de onde eu estava. Não sabia de nada, ele me colocaria a par. Nisto, Natasha já pedira dois baurus com bastante queijo e presunto aquecidos na chapa. E dois copos grandes de vitamina de banana e mamão, com melaço e levedura, a pedido. Desceram pela nossa boca nas nossas próprias redondilhas de fome atrasada. Postos os detalhes da mesa farta qual família bem sita em se formar, conversamos a respeito da vida, de como é apenas sentir-se em um mundo em que o feedback vem apenas a granel na tecnologia. Mas, em minha convivência com a rua sabia que não era bem assim... Dava pra se comunicar sem a parafernália. Nas ruas, bem entendido! Quantos países tinham no seu desemprego a própria indústria das finanças olhando-os com descaso. Era justo? Não. Não era justo com ninguém, pois mesmo nas sociedades emergentes se sentia essa escravização monetária. Um prenúncio de algo gigantesco, posto sem fronteiras, posto sem muitas guias: cães frenéticos guardando os seus licores em jatos bem confortados e helicópteros pousando solenemente em seus tapetes de riqueza em edifícios que mais pareciam palácios em suas blindagens pungentes do descaso em relação à maioria da população mundial.
Tomamos dois expressos e eu fumei dois cigarros. Estava ansioso. Passaria na rua onde habitara pela noite, mas eu não sabia que já estavam cientes meus companheiros de dificuldades que nada havia se passado de mal comigo. Despedi-me de Nati que ficou no hotel assistindo os noticiários da TV. Deu-me dez reais para que eu comprasse na volta algum jornal.
O edifício onde trabalhava Michael tinha uma galeria no térreo, ali se comprava ouro, estavam algumas joalherias de prata, pequenas lojas de jeans e couro, salas de dentistas, etc. Como percebi aos primeiros olhares. A sala era no primeiro andar, as câmeras talvez, com o meu novo vestuário, não viam nada de novo naquele front de comércio, na miríade inenarrável do que é segurar uma plêiade de gente com intenções e propostas saudáveis do consumo... Eu me sentia um estranho de não entrar nesses meandros desde algo que não se reportasse há pouco tempo, pois estava jejuno do que não fosse comprar sempre o estritamente necessário, o que me deixara sem os desejos de obter.
            Parei diante de uma porta com entalhes belos e uma pequena lanterna chinesa na régua superior do batente. Toquei a campainha. Não demorou muito, me atendeu uma mulher oriental, os olhos amendoados, jovem e magra, com as calças apertadas, um tênis vermelho e um casaco estampado em couro, me pareceu. Na verdade, o mesmo casaco me causou um pouco de estupefato, não o esperava em uma mulher tão delicada. De tanto ver pessoas, se passava não saber muito me portar, ainda eu com um ranço da rua, de saber-me perdido até então. Ela olhou-me fixamente e me atendeu:
            - Senhor...? – Seus olhos revelavam uma serenidade que me abalou, visto eu me sentir totalmente fora do padrão, pelo menos como eu me vira nos últimos anos.
            - Eu sou Heitor. – Disse a ela. – Falei com o Michael e ele marcou um encontro. É sobre um trabalho com pecinhas de plástico, objetos...
            - Ah, sim... Queira entrar, por favor, meu esposo logo lhe atende. – Disse isso e chamou por Michael...
            A sala possuía um computador em uma mesa colocada na lateral da porta e uma grande mesa em seu centro. Era grande e com bastante espaço. Havia outro computador perto dessa mesa com um tipo de projetor digital, ligado a uma tela do outro lado, com desenhos que eu nunca vira parecidos com algo que conhecesse. Uma dinâmica que – a um olhar mais atento – deslumbrava e enriquecia. Tal o movimento das personagens que, na verdade, conferia ulterior importância ao enriquecimento de outra realidade, distinta dos rádios, distinta de uma TV convencional. Michael entrou na sala: um homem franzino, de barba farta, os olhos por trás de óculos de alto grau, vincos pronunciados na testa, calvo e já correndo pelos cinqüenta. Não era chinês, era mulato, de Moçambique. Havia que se encontrar seus olhos por entre as lentes. Cumprimentou-me e fez-me sentar em uma das duas poltronas que haviam por detrás de um biombo que a mim me pareceu de seda, com ilustrações de paisagens traçadas com pincel, como vim a descobrir mais tarde... Seus gestos eram graves e já me parecia ser algo como uma autoridade no intelecto. Mostrou-me mais do que isso... Era um homem genial. Gestava o seu fremir criativo na alçada distinta no que se apresenta ao vulgo, no que permitem divulgar. Depois de falar com ele por um bom tempo soube que se tratava de algo grande; assenti, ao conhecer os brinquedos de plástico que mudavam de cor conforme o humor das crianças ou adultos que os segurassem. Alguns brinquedos havia que se precipitavam em comportamentos irônicos, como um complemento da robótica elevado à potência de serem extremamente acessíveis em valores. Os bonecos eram a representação em matéria plástica dos personagens que eu vira projetados na tela. Michael me explicou uma história a respeito dessa usinagem de emoções sintéticas que eu não fazia idéia da tecnologia necessária ao processo de fabrico das peças, sua engenhosidade mecânica, algo compatível a destituir o império dos computadores em pequenos formatos, com a própria fusão de chips atrativos ao inverso, algo comparado ao que eram os carrinhos de brinquedo que encantaram tantas crianças, ou os bonequinhos de faroeste, estes injetados em moldes baseados em desenhos no universo estático.
            Eu seria representante, com amostras para o varejo, que para o montante de atacadistas outros eram contratados. Ofereceu-me um café bem forte e eu tremia um pouco de ansiedade em me saber colocado no mercado de forma tão gigantesca, tão forte. Pensava apenas em Natasha e na boa notícia... Como em um sonho, saí fortalecido de um sono de anos em que esperava por alguma oportunidade. Deu-me uma maleta reforçada, um lote pequeno de brinquedos e um catálogo a ser apresentado ao comércio, tudo com razão social, e etc. Suny, sua mulher, disse que Michael nunca fizera faculdade, mas freqüentava as fontes da tecnologia desde muito cedo, quando partiu para a Europa ainda criança com sua avó materna, depois de perder o pai em um acidente. Sua mãe morrera no parto, ainda muito jovem, no continente africano. Eu disse a ambos que havia morado na rua, no que Michael falou algo em chinês à sua mulher e riram bastante. Disse que meu boneco ficaria bem colorido com tudo... Eu não entendi muito, tal fora o impacto dessa ordem, que ficara desnorteado um tempo. Já eram duas horas da tarde e encontrei Nati dormindo e lembrei-me que o jornal que era para comprar não seria mais tão importante agora...


III

           
            Tivemos uma conversa, eu e Natasha, quando ela acordou. Depois de um silêncio de longos minutos em que nos olhávamos por através daquele pequeno espaço de hotel. Uma pequena sacada nos esperava. Estava repleta das pessoas que vagavam por baixo, por entre as ruas. Sob outros olhares, estes de automóveis sedados na modernidade, em seus faróis desenhados quais os olhares de gatos ou besouros esfaimados. As construções se esmeravam em retaliar as árvores estas que espaçavam raras na ausência do urbanismo. Seres de matéria, plasmados quais retortas de quinhão decantado de ganhos, ausência de uma proposição solidária entre as gentes. No entanto, a ordem se sublevava dentro de seus limites e muitos – como eu – ainda pensavam na vida das ruas... Era a vida na rua que tantos sabiam do que acontecia nas noites em que as casas por vezes não respiravam como se fosse um castigo continuar existindo em nossas vilas miseráveis. De outro modo não seria, qual medalha no peito que não se calca, ou uma tatuagem misteriosa que, como nós, muitos carregavam dentro de suas próprias vísceras. Algo que não passasse despercebido, não era a um estalar de dedos que esqueceríamos o gole de anos em cada manhã e os papelões compartidos em cada inverno. Se coubesse algo de interpretação não bastaria a se refletir, nem na empunhadura da caneta de um bom escritor. Jamais este o saberia, a não ser se houvera de uma vida muito próxima a questões como esta. Não seria de se dar preferência, pois o universo da miséria é tão vasto como o da burguesia. E as letras, por opção de estilo fecundo, traduzem a uma totalidade para se chegar a algum ponto. Nem que este seja pela via do ideal, consubstanciado aí sim, inevitavelmente, para a esfera individual, pois o coletivo só possuirá força se houver máxima de consciência a partir do indivíduo, agregado por um pressuposto social, pela prerrogativa em se fazer presente dentro do próprio nada que se apresenta nas esferas do ser, em maior parte das vezes, na recorrência catastrófica da humanidade em sua injustiça e desigualdades refletidas no viés das palavras, na infâmia e na soberba que cria em cada um a mesma vontade de poder, originada por meandros soturnos do inconsciente das sociedades.
            Olhamo-nos, eu e Natasha, estávamos ali como viventes de experiência em nossas lutas diárias, acostumados com o duro boicote que alguns seres sofrem no caudal intempestivo do progresso cego e inconseqüente, quando ignora o humanismo necessário versado a qualquer sociedade, seja civilizada ou dita primitiva. Nada explica sua ausência na perseguição religiosa, étnica, cultural ou ideológica. Em hipótese alguma se justifica isso, nem mesmo na covardia em se impor economias mais fortalecidas como empreitadas de dominação em relação a nações menos desenvolvidas. Ou, em questões vistas como algo sem importância, os preconceitos inóspitos com relação a grupos mais vulneráveis. Ou seja, obviamente, um parágrafo previsível, mas o oposto desse ideal humanitário é justamente o que se está aplicando, seja ele de que lado for. Na verdade, eu não encontrava a riqueza de amores no olhar de Nati, pois me pareciam seus olhos duas contas inexpressivas, languidas pelo trabalho incessante, meu Deus, pela dureza de sua realidade; isso me era mais importante, pois que eu via em seu coração o mesmo Deus que habita o meu, apenas um sinônimo de igualdade em que começamos a trilhar a partir de um ventre com uma vida e a sorte de ainda termos boa saúde...
            - Mira, Heitor, por sobre lá, aquele edifício, por sobre esse imenso palácio de concreto... Viu? Os pássaros? Voam como uma vida que pouco se vê, mas os vi e você não, enquanto está com essa maleta nova... Que maleta é essa? – Nati se dava conta de que havia acordado...
            - Pois é, Natasha... Um trabalhinho bem estranho... – Ri com bastante ânimo e ela aprumou a coluna, seus olhos aparentando uma tênue placidez. – Vou ter que apresentar umas criaturinhas de borracha que lhe mostro já...
            - O que? Que? Quero ver... De qualquer modo não precisa se preocupar com muita performance profissional, querido, pois vamos conseguir...
            - Deixe de caraminholas Natasha, é sério!    
            Abri a maleta que possuía vários compartimentos, quatro ao todo. No entanto, no primeiro já havia um tipo de manual extenso sobre como proceder ao comércio dos brinquedos e dizia já na capa para não testá-los enquanto não se houvesse estudado todos os quesitos necessários para se ter a prática conveniente e não quebrar as pequenas peças. Mostrei a ela os desenhos das personagens e ela se convenceu de que eu estava em um bom caminho. Era questão de eu poder estudar um tempo como para se conhecer a técnica de encontrar esses nichos de mercado. Natasha achou os bonecos parecidos com duendes, com figuras mágicas e eu lhe contei que Michael e Suny eram muito simpáticos e me pareceram muito sérios nesse bom projeto. Na verdade, descemos ambos para almoçar algo, mas já era um pouco tarde, preferimos um lanche na avenida trinta e quatro. Fomos a um sujinho, que distava pouco do hotel e ainda estavam servindo um prato feito. Falei-lhe que deveria agora se alimentar muito e transar com cautela, de preferência apenas comigo, se porventura acontecesse, o mínimo ou o mais discretamente possível. Ela alugaria um lugar e eu continuaria no hotel, visitando-a, até dar certo o meu trabalho, se eu tivesse uma sorte. Não quis concordar muito, mas procurei convencê-la de que também estaria disposto a começar uma vida deixando toda uma realidade concreta em virtude de nossa união. No que me disse ela:
            - Heitor... O que me falta é seu romantismo!
            - O que te falta é um pouco de realismo.
            - Desse teu realismo de constituir o que?
            - Pois sim, uma família... Quer o que? Saudosas malocas feministas?
            - À la puta teus ismos de merda... Nem sei o que é ser fêmea, meu caro. Sei o que é ser mulher... Não pense que vai me ganhando assim, não. A pensão eu a deixaria. Enfio uma agulha e deu para nós todos. Volto a fazer o que faço.
            - Perdoe-me. Às vezes eu tenho uma vocação em ser egotista que me destrói. Compreenda, para mim é forçoso, por vezes. Como se uma corda me amarrasse sempre a algum lugar, um espaço relativo. Talvez nas relações humanas eu me tenha portado assim, como indo ao permitido, ocultando-me onde não devo e encontro em você algo em que compartir já não fazia bem parte do repertório...
            - Esqueça um pouco. - Disse-me ela, atenta em meus olhos... De uma cor que mudava ao reflexo, aos movimentos dos que vinham por entre as luminosidades da porta de vidro do bar, os olhos meio amarelados, acobreados, tons que me embriagavam, pois adivinhava serem também um pouco azuis. Mas nada, era o reflexo talvez de mim mesmo em seus olhos, ou eram os olhos dela no humanismo que procurava, qual homem amarrado sobre si todo o tempo, e que não me permiti jamais encontrar a brutalidade em quaisquer olhares que encontrasse, pois aprendera mais, nestes anos, a ver do joelho para baixo, os pés descalços, as botas, as fivelas, e as peças rotas das esquinas.
            Olhei-a mais uma vez e ela sentiu que eu precisava apenas olhar longamente, ver os seus longos cílios, não ver-me, que não houvesse espelho, pois mais de uma vez já me estranhara em minha nova roupa, minha face: este que não era, mas parecia algum dia ter sido algo... Não queria aquela roupa cinza, talvez gostasse mais da roupa carmim de alguns protestos, logo trocadas, ou da roupa preta das modas do frio, ou mesmo dos atendentes de farmácia no seu branco algo asséptico que temia reencontrar em algum hospital. Cores. Assim nos sobrariam os dias? A cor significava uma história? O negro, o branco, o pardo, o amarelo... Seriam apenas as cores? Tal fosse como uma ruptura, não gostava do cinza que me lembrava estranhas calotas de plástico, engrenadas como máquinas de aço de imitação em uma autofagia tecnológica de propaganda barata, pois o custeio das máquinas não se apresentava nas periferias, quando se sentia no céu apenas o vôo estridente dos helicópteros em sua semântica exata, do que é máquina, do que ergue mais de tonelada pelos ares em suas operações de rotina. Mas pensei comigo: esta blusa, parecendo uma calota... Quem sou eu, já calvo, com o meu boné? Quem são os que se apresentam coloridos ou não? Talvez agora talvez fizesse parte de um time? Venderia ilusões? Ao olhar Natasha agora, vi-a sorrindo para mim e deu-me um espelho de maquilagem. Eu estava sujo de feijão nos beiços e limpei-me, obsoleto como o refrigerante que bebíamos. Falei a ela em tomar um trago... Acertamos a conta e ela me agarrou o braço, dizendo-me:
            - Nada, Heitor... Faremos algo melhor que rime com o seu nome...
            Deixei-me levar, largando a corda que me enforcava tanto tempo em toda aquela engrenagem de meus próprios pensamentos que senti no ato a altivez de meu ser ao ver que o calçado que possuía me fazia esquecer as feridas... A partir dali, nos tornamos companheiros.

IV


            Passamos os meses de modo recíproco. Tateando um pouco realidades reflexas, mas com o carinho presente, este imorredouro carinho que sempre deve haver.
            Outras nossas palavras passariam a ser quase o nada de sentir-se no cerne de suas liberdades, o engagèe de suas formas, ou o passadio enfermiço delas no descaso e non sense... Esse absurdo que por vezes torna-se lógico dentro de uma gramática maravilhosa da selva em que se tornam a comunicação e suas vertentes. Mas esse modo de ver o mundo era como não ter um final, apenas especulações verbais que não levavam a lugar nenhum, muito menos à fruição de um diálogo sincero. Assim, a miríade de tudo, o totalizante inerente à civilização contemporânea em que as palavras que a tentassem traduzir esbarrariam inevitavelmente no mesmo absurdo, como uma parede de gelatina sem sabor, translúcida como um cristal e efêmera como as tempestades de um clima aberrante. Pois bem, essa contemporaneidade do fugaz, de letras trocadas em um celular, de smiles postados no sítio de relacionamentos, uma facilidade tremenda de comunicação instantânea e ao mesmo tempo a inacessibilidade a propostas mais profundas de fruição que não fosse dentro de alguma cátedra acadêmica específica e quase abstrata, distanciava cada vez mais das ruas a possibilidade de uma intelectualidade mais aberta, mais sincera... Pois, se de crítica, a contundência chega a ser mais importante do que a própria clareza, esta que se torna previsível dentro dos cânones que não arraigam mais tanto, mas que por vezes são as bases históricas de sustentação do próprio léxico dos significados, pois sempre tudo existirá como processos históricos, antes lineares em seus pragmatismos, hoje transubstanciando a própria lógica, que o digam as programações computacionais orientadas aos objetos, com suas classes e raciocínios extremamente depurados... Em síntese, não há mudanças reais sem o aprofundamento e distribuição solidária e democrática do conhecimento, pois ninguém pode arrojar-se ao direito de deter em detrimento de muitos o direito ao monopólio deste mesmo conhecimento.
            Eu aprendera a manejar o comércio dos bonecos com maestria, o sucesso foi grande e a exclusividade da fabricação manteve-se em sua continuidade com a indústria sediando-se em Moçambique, para onde viajamos em um mês, com Michael e Suny. Essa mesma exclusividade que descreve com clareza a lógica do mercado que infelizmente possui um aspecto totalizante de segredos e misérias.
            O bebê nascera saudável, um menino a que chamamos de Pedro. Natasha deixou de receber a ajuda do pai da criança ainda no ventre, pois eu já começara a viver maritalmente com ela. Algum impasse, as idiossincrasias particulares, mas do nada é quase fácil de construir, como se versa na arquitetura. E o que se tem se preserva ao patrimônio, igualmente de mesma disciplina... Nada de dois, a alguns parecia, mas um filho era bem vindo em sua quase primeira primavera... Um padrinho moçambicano e uma madrinha chinesa. Estávamos bem situados em – acima de tudo – nosso amor, nosso carinho, nossos afetos e, obviamente, com uma retaguarda financeira que nos dava o lote de nossa manutenção. Sempre essa mesma hipótese conclusiva da premissa fatalmente inviolável. Mudamo-nos para um bairro próximo ao centro da cidade, chamado quadra sete, e o prédio era bom. Seguro e bom. Natasha fizera a gentileza extrema de me acompanhar na sobriedade e o álcool, em virtude de sua cálida companhia, já não me seduzia como antes. Essa talvez fosse a minha maior conquista: livrar-me, posto que alcoólatra contumaz, de um vício tão aterrador a que, na rua, construiria apenas a minha perda como homem. Quanto às questões do comércio, era latente a profusão de produtos, de embalagens, do marketing, da tecnologia de ponta ao acesso do povo. Desvendava-se em mim um mundo diverso, pujante em minha veia, antes, de pingo solitário em planícies desencontradas. Era uma questão altamente pertinente, de me saber digno a um mar de gente, a uma cidade caótica e, no entanto, extremamente sedutora, de não se ver tantos enfermos em quaisquer naturezas, sabermo-nos dentro de um santuário de cimento posto à praia e mar verdadeiro nos horizontes. E sempre o céu, este companheiro inseparável que nos une ao infinito!
            De tal monta estávamos com uma batuta de orquestra que já vínhamos acompanhando a criação de outras personagens do universo imaginário de Michael e Suny. Michael cuidava da robótica, da física, etc, e Suny era a artista que criava os desenhos, as animações de fundo – cenografias animadas – e a música dos filmes de apresentação dos bonecos, que já eram sucesso na África, no Oriente e na América Latina. Nos países do primeiro mundo já se haviam antecipado com um projeto similar no estilo de seu próprio imaginário, com o preço subsidiado pelos governos, com uma complementaridade com os seus próprios sistemas digitais de entretenimento, o que causava uma espécie de divisão na indústria, e o que vinha a ser algo de entreter-se às crianças e adultos já se tornava alvo de quantias vultosas e uma confusão no imaginário coletivo, fruto da ganância e falta de estratégias de marketing salutares para as sociedades como um todo. A quebra de patentes mundial já se era de praxe e a ingerência e espionagem industrial existiam como confetes espalhados em um salão vazio, quiçá com dois ou três felizes dignitários a catarem os mesmos confetes de ouro.
            No entanto, as redes de informação já sabiam que Michael e Suny haviam começado com os bonequinhos que reagiam aos humores, dançavam conforme qualquer música e conversavam entre si, em uma mostra que parecia a inteligência posta ao serviço de um brinquedo maravilhoso. Os personagens que surgiam eram de vários formatos e mostravam ao seu próprio contexto que o hemisfério sul do planeta era grandioso em seu arcabouço cultural, gigantescamente mais do que supunha o europeu, com os seus falsos status de supremacia nesse campo tão vasto, com o devido respeito que se deve ter a qualquer sociedade quando esta respeita às suas próximas, ou distantes. Pois, na questão do livre mercado, justamente voga quem joga honestamente, blefa honestamente, ou rouba descaradamente com suas covardias econômicas, o que vem a dar tudo no mesmo, pois se somos apenas quando temos. Posta e simplificada a questão, na grande ingerência do capital ainda em nossos dias, infelizmente.
            Eu e Natasha não compartíamos nada disso, pois não nos era dado o tempo para maiores reflexões. Éramos apenas uma pequena ventosa nos braços de um gigantesco polvo que freme em todas as direções, com e sem seus ossos, feitas as cartilagens de pedra nas fortalezas em que não podíamos entrar. Fazer o que, era nosso mundo. Os dilemas nossos eram outros e eram muito, mas muito mais importantes do que toda a dialética falsa dos impérios, todas as riquezas das nações em mundos mapeados, toda a champanhe bebida nas orgias pagãs, todo o controle, todo o poder, a ilusão criada, a ilusão que prostra o ilusionista, as notícias pagas, os verdadeiros e falsos heróis, de tão destituídos os mitos... Os ritos que se encerram em outras fronteiras, o não amar-se mais, o amor por compaixão, o rancor, a falsa solidariedade. Arms, outros braços... O estigma da loucura, este que talvez traduza algo quase alopático em uma verdade: c’est la vie... Não deixa de ser a vida, pois viver-se sano neste mundo é algo apático... Je t’aime à la folie!!!


fim

terça-feira, 10 de maio de 2016

A PAUSA DE UMA MOEDA

            Quinhentos e cinquenta e cinco trilhões de derivativos. Esse será o preço da crise, a saber que estes são produto da especulação financeira de seus ativos, seus derivados, como o câmbio e os títulos. Apenas isso, basta sabermos isso... Não tenhamos que compreender muito de economia, mas está se criando uma crise internacional sem precedentes, e nos querem coadjuvantes dessa imensa rede em que os países emergentes tenham que submissamente sentir o ônus, cedendo suas riquezas por bagatelas, na expropriação capitalista ao extremo, em que pequenos produtores estão falindo, ou se deixando produzir a mando dos imensos monopólios. A moeda tenta ter sua pausa, respirar dentro de nossas conquistas monetárias, mas o dólar pede passagens: a todos os países mapeados em suas riquezas, não apenas do ouro negro, mas do ferro e manganês e etc. Está se formando algo meio hilário, e não há necessidade de ser a esquerda ou a direita para se analisar a veracidade de alguns fatos, estes que recrudescem a ponto de uma corrida aos imensos paraísos relaxantes serem moeda de troca, apenas isto. Mas que porventura uma pausa de moeda se faz necessária, pois o real ainda consubstancia seu valor e sua independência. Quem sabe falar sobre seja especulação algo do pensamento, mas que se saiba, o Brasil não tem valores em dólares, pois nem todos querem nos vender pela bagatela da palavra entreguismo: mensagem à CIA ou qualquer outro, que obviamente está dentro do país a ver como conseguem meter a sua garra de águia sobre os costados dos trabalhadores brasileiros e das suas riquezas já conquistadas por Governo Popular Democrático. Resta saber aos olhos de quem nos quer arrastar praticamente cúmplices à ALCA se nossa relação em BRICS possa estar ameaçada: aos olhos dos imperialistas! A carta possa estar sendo enviada a um homem como Obama em seus predicados de libertação, mas infelizmente este homem é obrigado a atender interesses tão prodigiosamente poderosos que acaba por ter que fenecer em seu ideal de mais igualdade no mundo, se essa é a sua questão pessoal mais íntima... Os BRICS simplesmente significam mais do que sequer cogitamos, pois temos a Rússia como nação que livrou o mundo da ameaça Nazista, a Índia como um país espiritualmente avançado, a China como a segunda potência econômica do planeta, a África do Sul como símbolo da igualdade entre negros e brancos conquistada a duras penas, e o Brasil, bem, o Brasil como um país de muitos brasis e cultura complexa dentro de uma variedade ímpar.
            Dentro de nosso atual processo histórico temos que constatar igualmente que temos países irmanados em nosso continente, e pensarmos que somos quintais de outros, por mais que os holofotes de certos lacaios iluminem a si mesmos no Congresso, a Verdade dá conta de aparecer, até em um Nokia de 2010, ou em uma calculadora que mostra quantos somos e quantos éramos, quantos seriam e quantos seremos, a União e a soma, o quadrado da produção pelo cubo do ganho mais justo... Sabermos de certas geometrias, pois enquanto defendem o plano neoliberal carrasco e ilimitado, há outros, patriotas, que se preocupam com sua nação, a defesa das arestas, a conformação do progresso e a ampliação dos espaços, não apenas solidários como democráticos, e as cores que consagram e que não sejam motivos de contendas, pois atestam por esse fato uma imaturidade tosca do propósito a que viemos como humanos para consolidar sociedades fraternas. A respeito dessa questão, não adianta apenas uma extensa população ficar à margem do processo de uma melhor distribuição de renda ou programas sociais abrangentes se alguns poucos nababos querem um retrocesso, uma espoliação das fábricas brasileiras pela vinda de grandes grupos internacionais e a tentativa de fazerem ruir direitos trabalhistas conquistados em nossa história desde as origens mesmas de nossa República. A gostarem de jogar se abraça o pressuposto de quem usa os dados... Literalmente, por si, pois na verdade jogar com dados de outros organismos e frentes plutocráticas, ensaios de movimentos de peças, no mínimo é para quem gosta de jogos de estratégia na humílima tela de um micro computador, para quem a vida é mais confortável se for apenas a questão de um mero seis entregar um amigo para uma derrocada mental, ou os que cooptam para obter informações através da administração de um sorriso. Seria pouco dizer daqueles que se utilizam da vulnerabilidade afetiva de muitos para auferirem valor no que obtém de suas presas, num tornado de semântica de selva para que nos situemos que nos tornamos animais dentro de seus instintos na ordem da sobrevivência e não nos que nos trazem de belo ou afetivamente positivos em suas naturezas em que se permitem existir apenas, como bichos e não como feras. Usar de uma lógica natural no sentido predatório é pressentirmos que os reis apenas observem os peões se debatendo nos tabuleiros de suas circunscrições, sabendo-se que esses mesmo reis são inimputáveis, quando de outros e mais inimputáveis países, que demandam do esforço de nossas economias algo que não poderemos cumprir, a que se avizinhe reminiscências do FMI, saldado pelo Governo Luís Inácio Lula da Silva, e que se avizinha justamente um retorno a esse compromisso de dívidas, a esse vínculo abjeto que o próximo presidente dos EUA provavelmente vai querem impor aos países da América que já se libertaram desse grilhão, ou estão nessa senda de se tornar independentes cultural e economicamente. Não é apenas a questão do grilhão, mas o sincronismo paradoxal em que muitos profissionais liberais de natureza algo cultos desejam ver o país imerso sob o tacão de um império econômica e culturalmente fadado ao fracasso e decadência. Aceitam o fato de quem possui mais armamentos de guerra possa manter outros países sujeitos às suas propostas nada limpas, e que seus conterrâneos pátrios sejam mais e mais explorados por esses estamentos quase invisíveis de poder que segregam o mundo mais pobre ou os emergentes.
            Há que pausar a moeda, não há que se abrir mão por questão de um grupo de aventureiros... Se era de economia, pelo menos tentemos saber por onde anda a equação de uma veia que respira, onde anda a equação de um menino na favela, ou mesmo o que faz a brutalidade dos homens terem ódio da gravidez de uma mulher que esteja na miséria, se as qualidades de nossas vidas não dependem de como somos, mas única e exclusivamente do que temos na matéria, a saber de quem depõe contra o crescimento e melhoria de vida do povo ignora que podemos vir a ser um dia um país rico, mas sempre temos que para isso ter o sacrifício e a luta permanente em se pretender as garantias de um povo que trabalha e sua a camisa para subsistir, apenas. Se é do pão apenas o alimento que o faz trabalhar, repartam as condições para que seja dado ao Governo o alimento da consciência exemplar de alguém que falava que não é só do pão que vive o homem.

sábado, 7 de maio de 2016

VIVAM OS COMPANHEIROS QUE LUTAM PARA CONSTRUIR UM MUNDO MELHOR...

CLARA GUERREIRA, CLARA NUNES É A SAUDADE DE UM HOMEM QUE SEMPRE TE AMOU, ÍCONE DA CULTURA BRASILEIRA!

VIVA A NOSSA PRESIDENTA E VIVA O POVO BRASILEIRO: A RAZÃO DA EXISTÊNCIA DA TOLERÂNCIA NO MUNDO.

NAS PLATAFORMAS DAS RIQUEZAS NÃO ENCONTRAREIS REFLEXOS DE NENHUM DE VOSSOS ATOS.

SE TODO O ESFORÇO FOR VÃO, QUE SE DILUA O PLANETA!

A VERDADE É SEMPRE MELHOR QUANDO É DITA POR PALAVRAS, POIS ESTAS SUBSISTEM NO CORRER DOS SÉCULOS.

O QUE ESTÁ EM JOGO NÃO É A VINDA DO MESSIAS, NEM O APOCALIPSE DE JOÃO, O QUE ESTÁ EM JOGO É O PLANETA TERRA E SEU USUFRUTO E SUA GANÂNCIA DESMEDIDA QUE JOGA SEM PARAR.

QUE PEDRO IMANTOU COM A PEDRA E ERIGIU A IGREJA É FATO INCONTESTE, E QUE MIGUEL PINTOU O JUÍZO, ISSO IGNOREIS.

A VELOCIDADE DA INTELIGÊNCIA E DA SINCERIDADE É MAIOR DO QUE A DA LUZ, E SEUS ÁTOMOS NÃO SE REVESTEM DA BARBÁRIE FORA DO BOM SENSO EM SE PROSSEGUIR NO MODO DA BONDADE E MANSIDÃO DOS JUSTOS.

SE A SOCIEDADE É FEITA DE INFORMAÇÕES, GUARDEM PARA SI AS QUE SERVEM PARA TRAIR QUEM VOCÊS CONSIDERAM UM INIMIGO, POIS, COMO UM PÁSSARO MARINHO, PODE CONCEDER SUA POSIÇÃO EM QUALQUER MORADA.

NÃO CREIAM QUE UM HOMEM QUE PROFESSE A PAZ SEJA ALGUÉM SEM CAPACIDADE DE VER AS IDIOSSINCRASIAS DA NATUREZA HUMANA, POIS ESTE HOMEM NÃO NASCEU E NEM SE EDUCOU SOB QUALQUER CARTILHA DE BOM ACABAMENTO...

SE TENDES COMPROMISSO COM O LITÍGIO, CARREGA-O EM TEUS OMBROS, COMO FEZ O CRISTO QUE NÃO HAVIA NENHUM A NÃO SER O PECADO DOS HOMENS.

NÃO É HORA DE APLICAREM O VOSSO TESTAMENTO DISTANTE ETERNAMENTE DA REALIDADE DE VOSSOS TERRITÓRIOS, POIS NUNCA SERÁ A HORA DO APARTHEID, NEM NA ÁFRICA E NEM NA PALESTINA OCUPADA.

A MAIOR INCERTEZA DA HISTÓRIA É SABERMOS QUE NÃO SE FERE COM FERRO AQUELE QUE NÃO DESEJA SER FERIDO, E QUE SE POUPE O PERDÃO PARA AQUELES QUE POSSUEM A SUPREMA CORAGEM CRISTÃ DE PERDOAR...

NÃO SEJAMOS SOLDADOS, POIS QUE SE VIVAM OS QUE RENEGAM QUAISQUER ESPÉCIES DE LUTAS VÃS, POIS A VIOLÊNCIA, CONFORME DISSE A LARANJA MECÂNICA DE KUBRICK, GERA A MESMA VIOLÊNCIA NO REVÉS DA MEDALHA.

SERIA TALVEZ A SINCERIDADE DE UM HOMEM COMUNICAR-SE A TORTO MODO EM SUA CONFUSÃO DE OPERÁRIO DE SUAS PRÓPRIAS FALTAS?

O AMOR É UM SENTIMENTO - QUAL SERIA EU A FALAR - QUE NÃO SABEMOS POR VEZES ONDE RESIDE, MAS QUE SABEMOS QUE TALVEZ DEVA EXISTIR...

SE CRISTO FALA EM PERDÃO, POR QUE OS APOCALÍPTICOS FALAM EM GUERRA?

PERDOAR? BASTA DE PERDÃO?... QUE SEJA, ELE ESTAVA CERTO.

HÁ ALGUNS QUE QUEBRAM PARA VIVER, OUTROS VIVEM PARA CONSERTAR.

QUEM NOS DÊ A RESPOSTA PODE SER UM OLHAR, PODE SER UM OMBRO QUE SE ENCONTRA COM O BRAÇO, PODE SER UM GOLE DE ÁGUA NO INVERNO, PODE SER EM UMA BATIDA DE OUTRO CORAÇÃO QUE ENCONTRAMOS DE ENCONTRO AO NOSSO PEITO...

A NATUREZA NOS APROXIMA DE DEUS.

A IGNORÂNCIA DEVE TER A HUMILDADE EM APRENDER, E A ERUDIÇÃO DEVE TER A PACIÊNCIA EM ENSINAR.

O MAR ESPERA A POESIA, E DE SE VER O VENTO SABE-SE QUE ALGUM ROCHEDO MORA SOLITÁRIO POR ENTRE AS ROCHAS.

O ATO DE SE GESTAR UMA PALAVRA ERRADA É UM PRECEITO A QUE DEMOS UMA PAUSA PARA ENSINAR A NÓS MESMOS NOSSA PRÓPRIA IGNORÂNCIA.

A POÉTICA DA POESIA POETIZA UMA MULHER QUE SERIA MAIS MUSA SE NÃO FOSSE PROFÉTICA EM SUAS BONDADES.

UM BAMBU SEM O BAMBUZAL NÃO CANTA O CANTO DO VENTO QUE O DERRAMA EM CICLOS SOBRE O SOLO...

A TÍTULO DE ALGUM RANCOR, QUE NÃO O TENHAMOS TANTO, POSTO NÃO MEREÇAM ELES QUE ESSE RANCOR NOS DEVORE DENTRO DE NOSSOS CONFLITOS.

HÁ DIAS QUE NÃO SABEMOS O QUE SE PASSA, ABRIMOS O NOSSO NERUDA E APAGAMOS O SOL...

QUE TAL, CRISTO OU KRSNA, ALÁ OU JEOVÁ, QUEM SABE O COLO DE UMA MULHER ADORMEÇA UM POUCO ESSA INQUIETAÇÃO.

A TERNURA É O SEGREDO DA PAZ.

SABER-NOS GENTE PODE SER QUE BASTARIA, E BASTA, SE FORMOS EFETIVAMENTE MELHORES E MAIS HUMANOS.

A SE SABER QUE A SUPERFÍCIE DO BEIJO É MAIS INFINITA DO QUE A DO CORPO...

O ESPAÇO A SE AMAR PODE SER O MILIMÉTRICO CARINHO DE UM TOQUE DO BEIJO...

O ENTRETENIMENTO VINCULADO AO TRABALHO

            A se começar, a um – que se possa afirmar – mescla-se, quando escreve, o trabalho com o entretenimento. A se ir mais além, mostra-se que a expressão inequívoca, a partir de uma necessidade particular de estabilidade psíquica, é a ingerência e o motivo do ato da escrita. A um homem ao menos se sentir útil e é essa pequena fração de sua existência à frente de se poder comandar a si e pertencer quiçá a uma camada mais restaurada de uma população que é tornada, desde os alvores de nossa história, vulnerável por sua condição enferma. E que este não pode trabalhar per si, mas que nos alegremos por lermos sem o compromisso, a saber que nem se espremendo suas laudas mais íntimas nada recebe do vintém, posto o papel só sentir a fluência da caneta e dissociar-se do prelo.
            O sol já avança por um metro da grade do portão, e sua liberdade é tal que todos os dias – quando as nuvens não o ocultam – sai a desfilar esperanças por boa semeadura: nos quartos, nas casas, nos apartamentos e nas ruas. A angulação transversa no muro, a sombra projetada da casa permitindo-se sentar à cadeira da frente, as cores mais vivas e o som de um bairro e seus consortes de máquinas nos fazem remeter ao entreter, e a descrição é um entretenimento tão prazeroso como fazer amor com as linhas do caderno... Uma vida de um insight contínuo lembra um êxtase intelectual que  é fato naquele que o afirma sinceramente, o que denota que saibamos observar e que o façamos igualmente no ouvir. Ao nos vincularmos a algo como um papel e uma caneta possuímos um meio e expomos algo que pode vir a se tornar um significado onde a ausência de amigos humanos se reflete na comunhão que importa: com a Natureza. Não necessariamente com mares e pombos, mas a matéria como um todo, animada ou inanimada. Esse encontro com as matérias e seus objetos merece que nos atenhamos com as nossas tecnologias, e nos apercebamos do que é lúdico, do que é insalubre, do que muitos afirmam sobre esforço determinista e a valoração do trabalho em suas medidas de ensaio ou pipetas de vastos laboratórios. Fala-se em trabalho limpo como algo confortável, fala-se nas universidades e, diga-se de passagem, as contestações com relação às injustas distribuições de renda e o justo acesso às instituições de ensino são motivos de conflitos. A bem dizer, muitas são as gentes com pouco embasamento nas letras. Outros, com oportunidades favoráveis à compreensão daquelas já estão nutridos em suas posições e servem muitas vezes para divulgar tudo aquilo que representa o caudal quase hilariante dos que são contrários ao reparte mais humano e às outras posições – infelizmente às vezes voltadas a um anacronismo – que estejam no processo progressista e coerente.
            Uma casa pode ser feita com concreto ou barro. O modo como é construída na verdade pode ser ocultado ao olhar do proprietário, mas aquela que possui o olhar na obra não se ressente em ser mais habitável, pois a porta falará mais a quem acompanha como abertura de um espaço com nobreza: seja rico ou pobre. Essa nobreza de cunho abstrato é de valia, pois é o oposto de agenciar a propriedade. É feita para o que foi feita: resultado de trabalho salutar, posto comungado entre o da obra e o do habitar. A se botar fogão, geladeira, a cama, a mesa, o chuveiro, a água, a energia, enfim, trabalhar com essa mesma validade que transpõe a regra proprietária e fria da ingerência da posse, apenas. Essa semântica fala da dialética espiritual, uma questão que deve ser acentuada nos dias em que acompanhamos todo um processo em que não se tenta o reparte nem a anacrônica expropriação, mas o recrudescimento de conflitos de natureza global que buscam apenas no poder sem limites a sua tese ou justificativa.
            Há diversas frentes de trabalho “justificado”, e outros fora dos padrões que estão em vias, sempre dentro de um processo civilizatório, de quererem impor às pessoas que passam diuturnamente sem sequer procurar emprego. A luta dessa massa pode ser vista em qualquer nação, nos êxodos, nas perseguições, nas guerras, naquilo que passa a ser assombro ao vermos em íntima relação com o caos quem ganha atualmente as convenções do Partido Republicano nos EUA. Vemos que a intolerância se torna a palavra de ordem em certos sítios e o determinismo bíblico impõe o Apocalipse, justificando seus exércitos sitos desde os profetas do AT que irão – ou pretendem – limpar o mundo dos que chamam esses fanáticos de “infiéis, ateus, comunistas, etc.” A sorte é não sabermos da vinda do Salvador, e nunca saberemos de onde virá, pois em outras religiões que se professe (a todas!) a igualdade de credos e a sua liberdade, nem que para isso saibamos que a imposição de uma religião é um erro crasso que subleva territórios, e que usar das mesmas para fins políticos é um outro erro, pois cabe ao Estado ser laico e respeitar suas manifestações e vanguardas intelectuais, étnicas e religiosas, posto que tudo remeta à União frente a líderes consagrados pelo voto. O oposto disso não será nunca um Estado Nacional Soberano. A entrega de nossas riquezas reza única e exclusivamente a que os imperialistas possam “entreter-se” nos países empobrecidos e sob sua tutela, mantendo o trabalho atado às regras absurdas de teorias econômicas anacrônicas que ditam o caos das leis neoliberais da oferta e procura: aumento da demanda ou queda de produção, concentração absurda de capital, especulação financeira, monopólios da produção, cartelização, trustes, arrocho salarial, exércitos industriais de reserva e outros inúmeros artifícios bárbaros mal gestados por inteligências dos opressores. Essa opressão abraçada por certas regras maquiavélicas de um jogo perverso há que ser evitada pelo bom senso de nossas frentes e donos de meios sugestionáveis. No entanto, há frentes que por vezes se constituem em farsa, pois em certas retaguardas o combate por vezes é cru como o gosto do sal amargo: duro, porém necessário. Por isso, deixemos a luta por quem o sabe, quando a inteligência e o bom senso das humanidades passem a usar em seu tutano as verdadeiras sinapses eletrônicas: as do cérebro humano, sem mais!..

sexta-feira, 6 de maio de 2016

AO DIALOGARMOS COM A NATUREZA

            Sabemos que tudo o que existe concretamente pode possuir a fantasia, conforme certas indústrias em que a cosmética é mais importante, agregando valor e tornando um objeto por vezes mais importante do que uma ferramenta. Sabemos que viemos da Natureza, e como tais somos coadjuvantes do bruto processo de sua transformação. Por vezes não há como um homem sobreviver se não dissecar criticamente o processo dessas transformações. Se alguém não tem muito espaço, algo de visivelmente importante pode causar em si mesmo uma revolução espontânea pelo modo em que insere suas prerrogativas existenciais com relação à Natureza e buscar esteio na história para saber que esta conta apenas com o darwinismo e as funções orgânicas da medicina e do trato tecnológico assaz importante, mas excludente em nossas sociedades firmadas na sectarização das massas, cada qual em suas demandas e categorias, em uma luta inglória, pois um homem ou uma mulher por vezes vivem trabalhando, e não trabalham para viver. Não haverá sucesso em um empreendimento enquanto as empreiteiras não forem coletivizadas. Sucesso humano, sucesso sucinto. A relação anterior do objeto e da ferramenta faz-nos crer que usar ferramentas industriais em larga escala, se apropriar da excelência e concomitantemente deste excedente para construir firulas além de suas funções de cunho objetivo, no mínimo é dar aval ao hedonismo e fruição estéticas que já possuímos de monta na Natureza, na arquitetura, nas ruas, ao invés de nos fecharmos para contabilizarmos o dinheiro de per si e sua acumulação desandada. Há que se levantar uma crítica mordaz quanto a isso, pois certas novidades kitsch são tão velhas como o antigo e simbólico pinguim em cima da geladeira.
Ao olharmos um inseto com nojo é porque já somos de uma geração que não possuiu contato com a rua, com os seres, e isso assusta, pois denota os grandes condomínios blindados ao exterior que pensam de uma única forma: anódina, funcional e esteticamente igual, no que encontramos nas periferias uma riqueza estrutural muito mais bela em termos de criatividade, improvisação e coragem, em que se lhes fossem dada a justiça social teríamos um país vivificado pela bravura de seu povo. É certo que para muitos, acreditar ou possuir uma religião é muito importante, pois ajuda a suportar o peso de suas vidas sobre os ombros, mas há muito a se questionar sobre as religiões. Enquanto não se sabe do processo produtivo, um pouco que seja, se se ativerem no ódio apocalíptico por estar escrito na Bíblia, conforme algumas cartilhas externas, esperarão que desfaçam nossas riquezas naturais, entregando para as matrizes a sua própria consciência.
A Natureza possui sua dialética e a sua não compreensão torna o mundo refém de interesses sem fronteiras, já que inibe a compreensão máxima, que pode estar em um canto de pássaro, pode estar igualmente na logística sagrada de um formigueiro. É por certas questões que historicamente nos travamos em doutrinas anteriores que devemos alicerçar pensamentos em novos elementos e fatos sem, no entanto, descartar o mesmo pensamento gigantesco dos ancestrais da nossa cultura. A leitura que se faz não está apenas nos livros, mas no gesto da expressão inequívoco, nas ondas do mar, em um cão, no movimento de um gato, na sobrevivência de um rato,  na vida e na morte, no nascente e no ocaso, nas estrelas e na lua, e não – jamais! – pode ser resumida em um aparelho de tela duvidoso. Não haja restrição à liberdade de vivermos como queremos, mas deve haver restrição quanto a certas concessões pela libertina e criminosa atuação de certos meios. Teremos um tempo muito razoável para que os escritos sejam realizados com a proficiência necessária e veraz. Muitos fantoches não têm estatura moral para nos dizer algo de validade, apesar de serem lacaios representantes das agências internacionais, não apenas de inteligência, como da mass media e grupos outros que demandem estratégias em todos os campos da fraqueza ou vulnerabilidade humanas, prometendo paraísos ou um salvacionismo monetário. Sempre o tema complexo do que se pretende a que não leiamos nada, a que não sejamos críticos, a que nos calemos sobre tudo, pois tudo já estaria dito por alguém ou por um livro sagrado. Convenhamos que há muita beleza no sagrado, mas deixemos às filosofias o modo mais coerente de perscrutar o funcionamento de nossas sociedades contemporâneas, a que possamos encontrar uma veia lógica no fragmentário, a sabermos o que temos na mão: uma ferramenta, um veículo, ou um instrumento que nos aliene, que tanta é a palavra essa que deva estar no repertório dos que busquem ou divulguem plataformas de consciência. Essa é a plataforma laica, mas que saibamos que a liberdade de credo é absoluta, mas não se mistura política com religião, nem com nenhuma espécie de conflito, senão daremos razão às atrocidades cometidas ao redor do mundo, em que se saiba que o interesse econômico sempre é a razão principal de utilizarem as vulnerabilidades sociais para a ingerência de doutrinamentos espúrios, ou do fomento à alienação cultural, em suas amplas frentes de apoiar desconhecimentos filosóficos, políticos ou econômicos em nome de promessas ou quimeras outras. Por esse motivo historicamente relevante na nossa civilização, quando um país é satélite de outros mais desenvolvidos, a ignorância interessa ao poder do civilizador imperialista. Essas questões nada mais são do que o merecimento da verdade, mesmo sabendo que a ingenuidade de muitos possa estar situada em um dos lados, pois a neutralidade necessária por vezes não partilha da opinião de quem vive as ruas: quem luta arduamente para viver com o mínimo de sustentação ou benefício social.
            Houve eras em que a aproximação com a Natureza era clássica no sentido da arte, ou seja, sua percepção tinha a sensibilidade não apenas de um academismo formal de um barroco ou como na arte moderna, com Cèzanne, por exemplo, quando pintou várias vezes uma montanha como um olhar perceptivo que criou as bases para o surgimento do Cubismo. A arte é território livre, essa é a sua predestinação inequívoca e necessária, pois por vezes vem do externo, e sabê-la maior do que imposições verticais traça paralelos cabais da existência dos homens e mulheres, de suas prioridades existenciais, de suas prerrogativas no pensamento libertário, porquanto perceptivo em seus tempos, ou nos tempos de leituras, que possam ser do mesmo modo atemporais, justo que referenciarmo-nos com ou sem tecnologias atuais é sinônimo de boas pesquisas, no sentido lato em nos aproximarmos de letras, como são tantas as que por vezes apenas teclamos com a letra k repetida, repetidas vezes, apenas... Assim reza uma multidão multifária em que nos encontremos com as vias naturais, a saber sempre que uma sociedade planejada e com ingerência do Estado na economia é cada vez mais necessária, pois temos que ter orientações e protecionismos para evitar que braços ávidos de lucro tornem a destruição da Natureza algo inevitável, dentro de uma conformidade sinistra, e com acepções de ordem trágicas e apocalípticas, modelo do sistema herdado desde o século passado.
            Não podemos nulificar o que ocorre no mundo, o que se comete em nome de fraudes e farsas. O que acontece hoje com o país é algo declarado, tão declaradamente bruto que nem jogam mais com a hipocrisia, partiram a mostrar que não trabalham a não ser defendendo seus próprios interesses, em detrimento de terem sido eleitos ou não. Jamais o Brasil terá, até 2018, um outro Presidente que não seja a nossa Dilma. Moralmente é ela a nossa líder, é uma mulher. Os outros são fantoches que não aceitaremos nem como arremedo de políticos, pois esse projeto de desmanche não deve se constituir de algo a que tenha que se respeitar. 

quinta-feira, 5 de maio de 2016

A ARTE DA PAZ

            Em certos panoramas não vemos o detalhe de qualquer tomada, de paisagem, a ser, como se dizer, mesmo na cinematográfica. O que vemos em uma superfície marinha não é a mesma onda que sentimos na presença de outras que sejam cordatas, mesmo que isso represente algo de ilusório... A semântica dos seres passa pela compreensão afetiva do homem, em relação à mulher, à prole, aos amigos sinceros e aos outros seres que já conferem importância vasta e inquestionável como companheiros cotidianos de sentir as gentes. Por mais que saibamos dos processos históricos passíveis de dissecações factuais, por vezes lemos um tópico simples que remete a um diálogo complexo por vedarmos a compreensão de um alterno de totalidades algo fragmentárias do que supomos novidades tecnológicas, e seus perfis altruístas quando se sabe que só consome quem pode. A paz torna-se a compreensão quase aristocrática ao revés na nobreza de compor uma música, no quadrante inominável de um olhar, nas mãos negras que tocam as brancas, na multidão de estrelas e no bom senso em se escrever ou propor pequenos debates dentro da proprietária serenidade, esta palco de uma vida privada entre dois, três ou um milhão. Para se alcançar um palco de grande vestimenta libertária precisamos saber que o próprio grilhão se ressente em padecer na pena do bom senso.
            Aquilo a que chamamos luta igualmente pode irmanar-se na paz de espírito, quando sucinta em suas razões, suas margens, seus ritmos e ponteios... A paz sempre pede passagem, e o estamento cultural é uma vertente que denota a importância – em um país como o nosso – da ausência de querermos interpretar nações internas: indígenas, por si. Pois os costumes jurídicos dessas nações fogem às regras padrões do direito internacional, e isso deve ser respeitado.
            Por que a salada grega em que os escritos se tornam? Talvez pela questão da paz se pronunciar em significados que tornam os versos da Natureza com uma ordem de importância inequívoca, em seus movimentos pela superfície do mundo. O mundo técnico pede passagem por vezes, mas as disciplinas humanas igualmente pedem passagem nesse mosaico quase bizantino na recolocação dos fragmentos ainda maravilhosos em seu todo recomposto! Esse grande mosaico em que nos coloquemos à questão quase hereditária das heranças culturais que nos remetam à validade da consciência, apesar da frieza científica em nos repaginar aos apontamentos mapeados.
            A análise histórica vem a granel, como uma dúzia embalada de ovos em uma caixa plástica, da forma como querem prosseguir no impacto das mesmas caixas que vertem seus pressupostos na arguição do que acreditamos um “bom” consumo. Quando se consome meio que se dá a noção talvez imprópria de algum hormônio que certamente não existe para salvaguardar um ato simbólico em nossa cultura do ocidente... Talvez fosse algo correto: pensar em ocidente e oriente, talvez o modo de consumo oriental seja mais intenso, mas que no entanto as caligrafias de seus modais nos diferenciam, erguem-se as barreiras linguísticas, mesmo sabendo-se que na banda ocidental as línguas latinas já perdem há muito para o anglicismo. O mais fácil, uma língua quase tornada pátria para alguns, em sua lesão das matrizes em decadência.
            A paz deve ser fruto da consciência, seja em que ordem ou tema for, mas que haja entrelaços de conhecimento, e a noção necessária da importância de qualquer matéria em questão. As equações – mesmo simplificadas em bases extremadas – são importantes em serem resolvidas quiçá individual, ou cogitadas coletivamente. Quando um está sozinho, na leitura em seu dinamismo de um livro ou de uma reflexão, estará caminhando em outro conceito de coletividade... Vejam o voo dos pássaros, o coletivo do voo e a organização e afeto dos bichos. Contemplem profundamente o andar de um gato e talvez compreendam o que é ser um shao lin. Talvez seja uma noção algo abstrata, talvez seja um arremedo de escrito algo solitário para que se possa compreender que não pode haver a separação entre o homem e a Natureza.
            Para quem estiver no concreto das grandes cidades, igualmente a Natureza se apresenta. Por isso, termos mais espaços públicos deve ser uma luta severa de reivindicação popular, no sentido de se encontrar a paz de espirito, entre ateus ou crentes. Não há cegueira que deva separar essas duas frentes, e a união e o debate aos que os desejam – dentro do possível – devem ser colocados como aglutinante das massas, e os conceitos de luzes pespontam nesses diálogos. Tentar compreender a realidade do outro irmana uma mesma classe e alavanca outras para propósitos de igualdade ou, no mínimo, respeito e paz social entre as gentes, o que abre a lacuna necessária para se ligarem outros fachos de luz, iluminando novas frentes e reverberando sombras mais tênues nas retaguardas de nossas existências...