Tenho a
vida para viver, já uma vida mais breve, pois sei das certezas que ela encerra,
e do destino último na Terra... Sei da fé que possuo, da certeza do Salvador,
que terei que cumprir ainda duras caminhadas, com meu corpo que padecerá os
desígnios agora mais imediatos de uma gana, de uma compulsão que por vezes
penso que Ele colocara no meu caminho para que me detivesse em um estado de
sofrimento, mais que não fosse, para ao menos me lembrar que o sofrimento
citado não passa da possibilidade de uma ressurreição futura. Em uma música de
Mozart, lembro-me que os violinos e o piano me remetem ao início deste que é
mais um dia, e os mesmos dias que me aproximam da medicina quem sabe renderão
as graças de boas, ou os meandros das más notícias, e o cigarro continua miseravelmente
disposto no meio desta louca sociedade de vícios e de purgatórios e infernos
dantescos. Não, não é possível que a oriental que toca o piano o faça apenas
com sua habilidade, pois algo extremamente espiritual, e quando estou mais em
sintonia com o seu tocar se passa que algo de calma notável atravessa-me, e sei
onde estou e quem eu era antes mesmo de me lembrar que jamais estarei só, pois
Aquele filho do homem o sabe de nossas imperfeições, que somos mortais, e que
estou por aqui no planeta apenas para me libertar, depois da minha morte: mas,
nem por isso, quero abreviá-la...
Justo,
prossigo, um homem entre seus iguais e diferentes, um tipo de velho guerreiro,
que já estou meio cansado de combater o vício. Algo de melancolia se me invade,
e percepções outras, que não fora a simples questão da falta, do luto que me dá
a ausência da nicotina e de suas outras substâncias que contém o tabaco, outras
quiçá que porventura acrescem deveras a rapidez onde se dá a dependência, e o pulmão,
já sentindo, e o moral: caindo. Algo que me pega nos ossos, nas vértebras, algo
que me faz pensar até com a calma aparente das primeiras horas do dia, e sigo
na vertente da exclusão que faço de mim mesmo, um derrotado em todos os
sentidos. Os sentidos continuam plenos, mas a razão me aponta, qual um Mefistófeles
de Goethe, que eu me embotarei nessa mesma questão, e que a razão sequer me
adiantará supor que estarei apto a enfrentar os demônios que me tentam, interna
e externamente...
Conseguirei
ou não vencer essa batalha para que possa estar conforme com a vida que pulsa
no meu coração, que não me envenene mais, que eu tenha algo de um superego que
contenha essa estranha pulsão, esse Thanatos que tanto me invade, esse instinto
de morte? Será que a medicina é algo mais frio do que a ciência, será que a
espiritualidade rogará ser a única vertente possível, creio eu, na eventual
ciência dos espíritos, da alma, que se possa acontecer um milagre? Mas sim, eu
creio em Deus Pai, todo poderoso, Criador do céu e da Terra, e de Jesus Cristo:
seu único Filho: concebido pelo poder do Espírito Santo e nascido da santíssima
Virgem Maria! O medo que se me passa é justamente o crivo dos homens, mas
quando o Salvador diz: “por que temeis, homens de pouca fé?”, é justamente nessas
questões que creiamos mais no Salvador do que na ciência, pois a morte na Terra
é inevitável, mas a vida eterna é obra Dele, e só por Ele nos é consagrada...
No entanto, Deus nos deu este corpo como templo de nosso espírito, e por
determinação consagrada, todo o vício é um tipo de pecado, um pecado contra nós
mesmos, e por isso incorremos em falta se não somos capazes de fazer um
sacrifício por Ele, mesmo na forma penitencial de estarmos vencendo o tabaco e
fazer dessa questão uma simples ordem de fé.
Assim
sendo, uma paradoxal calma se me invade o espírito, lerei os evangelhos, orarei
na presença da Cruz Sagrada, estarei cuidando daqueles que amo, espalharei as
obras que posso e, na presença de Deus, como o concebido Trino, com os sofrimentos
de meu corpo, a falta da substância que me impõe os grilhões do vício, como um
escravo do sofrimento corpóreo, tentarei consentir a mim mesmo que me rendo a
esse Poder Superior, que para mim que se me baste, pois a calma espiritual tem
que ocorrer quando estamos por vezes sobre um mar tempestuoso, nas questões de
sobriedade e capacitação mental para vencermos um vício que nada mais é do que
um sintoma de pecado de si para si mesmo. Não é apenas o cigarro, este é uma
simples ponte para que, no meu despertar para as coisas do espírito, de forma coerente
e estudada, conforme os ensinamentos na catequese, um dia eu possa comungar me
lembrando desta época como se fosse algo que a história da minha vida na Terra
o possa explicar com mais simplicidade.
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