quinta-feira, 18 de junho de 2026

A GANA E A CALMA


                Tenho a vida para viver, já uma vida mais breve, pois sei das certezas que ela encerra, e do destino último na Terra... Sei da fé que possuo, da certeza do Salvador, que terei que cumprir ainda duras caminhadas, com meu corpo que padecerá os desígnios agora mais imediatos de uma gana, de uma compulsão que por vezes penso que Ele colocara no meu caminho para que me detivesse em um estado de sofrimento, mais que não fosse, para ao menos me lembrar que o sofrimento citado não passa da possibilidade de uma ressurreição futura. Em uma música de Mozart, lembro-me que os violinos e o piano me remetem ao início deste que é mais um dia, e os mesmos dias que me aproximam da medicina quem sabe renderão as graças de boas, ou os meandros das más notícias, e o cigarro continua miseravelmente disposto no meio desta louca sociedade de vícios e de purgatórios e infernos dantescos. Não, não é possível que a oriental que toca o piano o faça apenas com sua habilidade, pois algo extremamente espiritual, e quando estou mais em sintonia com o seu tocar se passa que algo de calma notável atravessa-me, e sei onde estou e quem eu era antes mesmo de me lembrar que jamais estarei só, pois Aquele filho do homem o sabe de nossas imperfeições, que somos mortais, e que estou por aqui no planeta apenas para me libertar, depois da minha morte: mas, nem por isso, quero abreviá-la...

                Justo, prossigo, um homem entre seus iguais e diferentes, um tipo de velho guerreiro, que já estou meio cansado de combater o vício. Algo de melancolia se me invade, e percepções outras, que não fora a simples questão da falta, do luto que me dá a ausência da nicotina e de suas outras substâncias que contém o tabaco, outras quiçá que porventura acrescem deveras a rapidez onde se dá a dependência, e o pulmão, já sentindo, e o moral: caindo. Algo que me pega nos ossos, nas vértebras, algo que me faz pensar até com a calma aparente das primeiras horas do dia, e sigo na vertente da exclusão que faço de mim mesmo, um derrotado em todos os sentidos. Os sentidos continuam plenos, mas a razão me aponta, qual um Mefistófeles de Goethe, que eu me embotarei nessa mesma questão, e que a razão sequer me adiantará supor que estarei apto a enfrentar os demônios que me tentam, interna e externamente...

                Conseguirei ou não vencer essa batalha para que possa estar conforme com a vida que pulsa no meu coração, que não me envenene mais, que eu tenha algo de um superego que contenha essa estranha pulsão, esse Thanatos que tanto me invade, esse instinto de morte? Será que a medicina é algo mais frio do que a ciência, será que a espiritualidade rogará ser a única vertente possível, creio eu, na eventual ciência dos espíritos, da alma, que se possa acontecer um milagre? Mas sim, eu creio em Deus Pai, todo poderoso, Criador do céu e da Terra, e de Jesus Cristo: seu único Filho: concebido pelo poder do Espírito Santo e nascido da santíssima Virgem Maria! O medo que se me passa é justamente o crivo dos homens, mas quando o Salvador diz: “por que temeis, homens de pouca fé?”, é justamente nessas questões que creiamos mais no Salvador do que na ciência, pois a morte na Terra é inevitável, mas a vida eterna é obra Dele, e só por Ele nos é consagrada... No entanto, Deus nos deu este corpo como templo de nosso espírito, e por determinação consagrada, todo o vício é um tipo de pecado, um pecado contra nós mesmos, e por isso incorremos em falta se não somos capazes de fazer um sacrifício por Ele, mesmo na forma penitencial de estarmos vencendo o tabaco e fazer dessa questão uma simples ordem de fé.

                Assim sendo, uma paradoxal calma se me invade o espírito, lerei os evangelhos, orarei na presença da Cruz Sagrada, estarei cuidando daqueles que amo, espalharei as obras que posso e, na presença de Deus, como o concebido Trino, com os sofrimentos de meu corpo, a falta da substância que me impõe os grilhões do vício, como um escravo do sofrimento corpóreo, tentarei consentir a mim mesmo que me rendo a esse Poder Superior, que para mim que se me baste, pois a calma espiritual tem que ocorrer quando estamos por vezes sobre um mar tempestuoso, nas questões de sobriedade e capacitação mental para vencermos um vício que nada mais é do que um sintoma de pecado de si para si mesmo. Não é apenas o cigarro, este é uma simples ponte para que, no meu despertar para as coisas do espírito, de forma coerente e estudada, conforme os ensinamentos na catequese, um dia eu possa comungar me lembrando desta época como se fosse algo que a história da minha vida na Terra o possa explicar com mais simplicidade.

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