domingo, 7 de junho de 2026

A FÉ NÃO DOCUMENTADA


              Pressupomos do fato cabal de que exemplos de seres humanos com uma fé inabalável tenham passado pela humanidade em busca de uma vida em comunhão com Deus... E gente que tenha atingido níveis de consciência tais que, na forma do ascetismo cabal, tenham mesmo transcendido a matéria, assumindo o controle mental e espiritual de modo a serem iogues de primeira grandeza, e disso tudo temos registros, e o próprio Cristo, o Filho do Homem dá mostras da fé, da grandeza de se propagar a palavra, e todos os Evangelhos estão aí para corroborar esse fato histórico, mesmo que se atenham alguns a negar a santidade desse que foi o único ser a vencer a morte, a partir do Poder de seu Pai, sem a intervenção que não fosse o que ele mesmo pregara antes, e que dizia já estar consumado. Há imensas multidões que tem fé, no entanto, e que essa mesma fé não está dita em palavras, mas apenas em pensamentos, naquilo que não subentende nada que não seja a coragem de prosseguir crendo, mesmo que a vida encerre dificuldades tamanhas que as mesmas pessoas pensem por vezes não dar conta do que vem pela frente. A coragem que temos em poder sermos melhores, é um dos caminhos que nos levam à divindade, é um dos meios que temos por prosseguir, entendendo que os caminhos da fé por vezes são mais silenciosos que o próprio silêncio e mais solitários do que apenas sabermos que estamos conosco, por vezes conversando espiritualmente com nosso ser mais íntimo.

              Essa fé não registrada encontra ressonância na oração, que por si é um meio que não tangencia o fato, mas busca redarguir sobre os efeitos de se falar com Deus, se estar falando com o que estava documentado, que seja, na Ave Maria, onde ela resolve “agora ou na hora de nossa morte...” Ou no Pai Nosso, que "livra-nos de todo o mal", mesmo que esse mal não tenha chegado ainda, ou mesmo que a obsessão nessa forma de compulsão nos invada, quando estamos crivados de maus hábitos, vícios ou pecados que porventura ainda não removemos de nosso caráter, ou melhor dizendo, de nosso eu maior, ou de nosso self. Seremos cada vez melhores se buscarmos o caminho da santidade, como vereda em que nos encontremos com dias onde o simples fato de encontrarmo-nos com um mentor religioso nos dá as forças espirituais necessárias para que aprendamos mais e mais com os desígnios do que venha a ser a Catedral da citada fé. A um caminho absorto na castidade, e um outro que remonta a luxúria, optamos pelo primeiro, mesmo porque a própria Natureza e seus seres são plangidos pela forma outra que vemos abertamente ser a manifestação sagrada da vida, e por esta estaremos mais vivos, enquanto seres imortais, diante de um patamar em que não pereceremos qual livro que seja soterrado diante da matéria que se vai, livro que não será mais lido, e que viverá depois da morte na Terra, na vida eterna, em um limbo, se estiver mal posicionado em devoção. Apenas o pecado original, que nos dividira o corpo da alma, em que o diabolô, este ser que divide, distinto do símbolo, o que une o significado com o ser, pode concretizar quando retirou o casal original do Éden, onde viveriam para sempre, esse paraíso perto do Eufrates. Deus já o sabia, pois sabe do passado, do presente e do futuro, mas deu ao homem o livre arbítrio, que o homem tem consagrado como veículo dos maiores pecados que tem cometido neste mundo. O homem propõe e Deus dispõe...

              A partir do momento em que o ser humano já vive em um planeta infestado de seres demoníacos, a parte que cabe em sua fé por vezes lhe sufoca um pouco o seu ato, e a partir do tempo que passa o planeta se infesta mais e mais de dissensões e distinções defeituosas, de falhas, de alvores de destinos que já não se encontram, os dissabores, as contendas, as guerras, os caminhos mais difíceis: a miséria e a luta pela vida, nos hospitais, nos manicômios, nas prisões, nas marquises e nas casas e famílias disfuncionais. O que antes víamos como trigo e semeadura vira muitas vezes o joio que não nos apercebemos crescendo em nossos campos. Chega uma hora em que a erva daninha toma conta a tal ponto que a fé no Salvador espelha no seu sofrimento na cruz a certeza de que foi no pão e no vinho do sacramento que temos a esperança de que a última ceia do Senhor tenha sido o encontro derradeiro da Verdade última, a comunhão que fazemos hoje com o corpo e o sangue d’Ele. O que encontraremos pela frente é apenas um veio transformador, onde a eucaristia se torne sempre a possibilidade de sermos maiores do que tudo, e que a mudança no modo de ser de um evangelista nos possibilite a questão máxima de nos permitir sermos mais gigantes diante não necessariamente de uma fé propagada aos quatro cantos do mundo, mas que esse mundo, diante de determinadas circunstâncias, apenas nos ensine, sob os alvitres de Jesus e de Maria, o poder da fé...

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