Relembrando
as injunções da Psicologia Analítica de Jung, e sua conformação do “eu” em
sentimentos, sensações, pensamentos, e intuição, podemos traçar um paralelo na
vida que um escravo da Roma, e tudo o que passou, em que veio a dar nos
costados de se tornar um dos maiores filósofos estoicos da história, junto com
Sêneca e outros. Este conselheiro de Nero condenado a morrer por suicídio por
envolvimento suposto em uma conspiração contra o Imperador: o escravo que se
tornou pensador chamava-se Epicteto, e foi um grande influenciador de Marco
Aurélio, um dos cinco melhores e mais competentes imperadores do maior império
de que a história teve notícia sobre o planeta Terra: o Império Romano. Essa analogia
dos sentimentos, sensações, pensamentos e intuição fez com que Jung em raro
abordasse o estoicismo como sistemática de pesquisas, mas a apatheia (liberdade contra as paixões
destrutivas) abordada no estoicismo vem a dar um reflexo positivo no ponto em
comum entre essas linhas, quando tanto Jung quanto os estoicos primavam pelo
autoconhecimento mental e corporal, e pelo autocontrole como recursos mentais e,
no caso de Jung, muitas vezes místicos e espiritualistas para uma maior sintaxe
à disposição do ser humano.
Na
verdade, a escravidão levou às raias do sofrimento um homem como Epicteto que,
mesmo privado da liberdade, ainda conseguiu estudar filosofia com um outro filósofo
da mesma linha... Foi escravo de Epafrodito, um homem cruel e ex-secretário de
Nero. Na prática, grande parte de seus ensinamentos foram vividos ou
simplesmente percebidos ou intuídos, e sua razão e clareza lógica simplesmente
realizou uma obra gigantesca para a experiência teórica e prática da civilização
humana e sua relação com a Natureza... Simplesmente vemos, centenas de anos
mais tarde, Jung e seus pacientes, os quilates de sofrimento, e como a
construção de mentes fragmentadas já se torna tarefa quase impossível ao olhar
da medicina, onde o autocontrole e a mente assume diversos modais frente às
descobertas do inconsciente coletivo, e como isso se encaixa por vezes na
acepção nua e crua de que, trabalhando uma forma de se encontrar a resiliência
e a construção de uma fortaleza pétrea frente aos infortúnios, os exemplos de
homens como Epicteto, Marco Aurélio, Sêneca e outros tornam-se fundamentais no
estabelecimento de se guarnecer estrategicamente a mente para escapar às
investidas das dificuldades em se prosseguir, ou mesmo atender as demandas em
se autocontrolar frente a vícios ou coisas afins... Mesmo porque, ao erigir as
muralhas onde nos escudamos prudentemente do que devemos evitar, ou mesmo
lançando as cordas do que temos que recolher para as ameias da fortaleza,
carros entram no portão quando as provisões existenciais se tornam um encontro
de pensamento de décadas depois de Cristo com dois mil anos aproximadamente
depois, já despontando um milênio onde a mescla cultural e o advento
tecnológico aproxima de tal modo as culturas que a vida pedirá mais passagens,
mesmo porque quando o ser humano passa de observador passivo a ator de sua
história o diretor saberá melhor de tudo, seja o Pai, o Filho, ou mesmo o
Espírito que se torna o ponto fundamental na aurora de novos modos de se pensar
e encontrar soluções. A questão toda é que um homem que vem de baixo e constrói
sua vida é um exemplo, mas um escravo que vira um dos maiores filósofos de todo
o tempo, e se baseia no estoicismo parece com a história de Viktor Frankl,
homem que sobreviveu por vários campos de concentração e virou um grande
psiquiatra e neurologista. Mas, no entanto, na época de Roma Antiga, um homem
como o imperador Marco Aurélio, detendo mais poder do que qualquer ser humano
na Terra à época, e ser um bom imperador, levar a termo o estoicismo, é um caso
raro de disciplina e controle mental ímpares, posto a fama obscurece muito a
face do poder, mesmo porque o próprio Jung afirmava que a Vontade de Poder
justamente não seria um princípio absoluto da vida, e vinculado com outros
propósitos pode se tornar um fator importante na individuação e construção do “Self.”
Parecia que a vida teria que encontrar com outra vida, e a cultura romana e alemã,
ou suíça, como no caso de Freud e Jung, e mais tarde em pleno século XXI o
estoicismo ser tão importante, com farto material de divulgação, as luzes no
cenário de nossa história parece que aparentam mais brilho nesse amanhecer da
lucidez sobre a civilização contemporânea.
A fortaleza
ergue-se, como Zumbi ergueu Palmares, exemplo de resiliência, em um Brasil
pretensamente matriz, mas colonial e escravagista... Ícones culturais fazem da
civilização algo de lutas, e guerreiros imortais levaram a termo a experiência
histórica para além das fronteiras das possibilidades. Quando Jung tratava da
esquizofrenia, não esperava que a sociedade cibernética de consumo
transformaria a saúde mental com outras enfermidades altamente recorrentes e
exóticas, igualmente frente a substâncias tóxicas que são “inventadas” para
drogar e dar o prazer que tanto o estoicismo combate, porquanto vício. A
virtude toma sua forma, e por mais que o inimigo tente desconstruir ou
impedir-nos de erguer nossa fortaleza, esta se constrói conscientemente,
enquanto nos bastidores de tudo, nos horizontes da nossa civilização Deus
observa e age com a prática cotidiana de nossos guerreiros, sacerdotes,
artistas e profetas, além dos pensadores e homens da ciência, obviamente...
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