quinta-feira, 14 de maio de 2026

A FORTALEZA DO SER NA CONSTRUÇÃO DO “SELF”


              Relembrando as injunções da Psicologia Analítica de Jung, e sua conformação do “eu” em sentimentos, sensações, pensamentos, e intuição, podemos traçar um paralelo na vida que um escravo da Roma, e tudo o que passou, em que veio a dar nos costados de se tornar um dos maiores filósofos estoicos da história, junto com Sêneca e outros. Este conselheiro de Nero condenado a morrer por suicídio por envolvimento suposto em uma conspiração contra o Imperador: o escravo que se tornou pensador chamava-se Epicteto, e foi um grande influenciador de Marco Aurélio, um dos cinco melhores e mais competentes imperadores do maior império de que a história teve notícia sobre o planeta Terra: o Império Romano. Essa analogia dos sentimentos, sensações, pensamentos e intuição fez com que Jung em raro abordasse o estoicismo como sistemática de pesquisas, mas a apatheia (liberdade contra as paixões destrutivas) abordada no estoicismo vem a dar um reflexo positivo no ponto em comum entre essas linhas, quando tanto Jung quanto os estoicos primavam pelo autoconhecimento mental e corporal, e pelo autocontrole como recursos mentais e, no caso de Jung, muitas vezes místicos e espiritualistas para uma maior sintaxe à disposição do ser humano.

              Na verdade, a escravidão levou às raias do sofrimento um homem como Epicteto que, mesmo privado da liberdade, ainda conseguiu estudar filosofia com um outro filósofo da mesma linha... Foi escravo de Epafrodito, um homem cruel e ex-secretário de Nero. Na prática, grande parte de seus ensinamentos foram vividos ou simplesmente percebidos ou intuídos, e sua razão e clareza lógica simplesmente realizou uma obra gigantesca para a experiência teórica e prática da civilização humana e sua relação com a Natureza... Simplesmente vemos, centenas de anos mais tarde, Jung e seus pacientes, os quilates de sofrimento, e como a construção de mentes fragmentadas já se torna tarefa quase impossível ao olhar da medicina, onde o autocontrole e a mente assume diversos modais frente às descobertas do inconsciente coletivo, e como isso se encaixa por vezes na acepção nua e crua de que, trabalhando uma forma de se encontrar a resiliência e a construção de uma fortaleza pétrea frente aos infortúnios, os exemplos de homens como Epicteto, Marco Aurélio, Sêneca e outros tornam-se fundamentais no estabelecimento de se guarnecer estrategicamente a mente para escapar às investidas das dificuldades em se prosseguir, ou mesmo atender as demandas em se autocontrolar frente a vícios ou coisas afins... Mesmo porque, ao erigir as muralhas onde nos escudamos prudentemente do que devemos evitar, ou mesmo lançando as cordas do que temos que recolher para as ameias da fortaleza, carros entram no portão quando as provisões existenciais se tornam um encontro de pensamento de décadas depois de Cristo com dois mil anos aproximadamente depois, já despontando um milênio onde a mescla cultural e o advento tecnológico aproxima de tal modo as culturas que a vida pedirá mais passagens, mesmo porque quando o ser humano passa de observador passivo a ator de sua história o diretor saberá melhor de tudo, seja o Pai, o Filho, ou mesmo o Espírito que se torna o ponto fundamental na aurora de novos modos de se pensar e encontrar soluções. A questão toda é que um homem que vem de baixo e constrói sua vida é um exemplo, mas um escravo que vira um dos maiores filósofos de todo o tempo, e se baseia no estoicismo parece com a história de Viktor Frankl, homem que sobreviveu por vários campos de concentração e virou um grande psiquiatra e neurologista. Mas, no entanto, na época de Roma Antiga, um homem como o imperador Marco Aurélio, detendo mais poder do que qualquer ser humano na Terra à época, e ser um bom imperador, levar a termo o estoicismo, é um caso raro de disciplina e controle mental ímpares, posto a fama obscurece muito a face do poder, mesmo porque o próprio Jung afirmava que a Vontade de Poder justamente não seria um princípio absoluto da vida, e vinculado com outros propósitos pode se tornar um fator importante na individuação e construção do “Self.” Parecia que a vida teria que encontrar com outra vida, e a cultura romana e alemã, ou suíça, como no caso de Freud e Jung, e mais tarde em pleno século XXI o estoicismo ser tão importante, com farto material de divulgação, as luzes no cenário de nossa história parece que aparentam mais brilho nesse amanhecer da lucidez sobre a civilização contemporânea.

              A fortaleza ergue-se, como Zumbi ergueu Palmares, exemplo de resiliência, em um Brasil pretensamente matriz, mas colonial e escravagista... Ícones culturais fazem da civilização algo de lutas, e guerreiros imortais levaram a termo a experiência histórica para além das fronteiras das possibilidades. Quando Jung tratava da esquizofrenia, não esperava que a sociedade cibernética de consumo transformaria a saúde mental com outras enfermidades altamente recorrentes e exóticas, igualmente frente a substâncias tóxicas que são “inventadas” para drogar e dar o prazer que tanto o estoicismo combate, porquanto vício. A virtude toma sua forma, e por mais que o inimigo tente desconstruir ou impedir-nos de erguer nossa fortaleza, esta se constrói conscientemente, enquanto nos bastidores de tudo, nos horizontes da nossa civilização Deus observa e age com a prática cotidiana de nossos guerreiros, sacerdotes, artistas e profetas, além dos pensadores e homens da ciência, obviamente...

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