terça-feira, 2 de dezembro de 2025

O QUE VEM DEPOIS VIRÁ


                Podemos viver mais cerrados, qual em uma casa em nossos quartos, como na cumplicidade de nossos espaços, caminhando dentro de nós mesmos e de nossa fé... Tal não fora um tempo em que muitos não saberão em que realmente acreditamos, esse Poder Superior que pode ser Javé, Cristo, Krsna ou Buda, ou mesmo fazermos parte de uma distante tribo, e tudo depende da situação cultural de nossas sociedades: "quem somos, de onde viemos e para onde vamos", a famosa frase que está na obra de Gauguin, em sua maravilhosa pintura. O mito nos ajude, a tal ponto em que os gregos nele acreditassem, posto a religião é algo que o transcende, o torna palpável, pois quando se crê que a realidade da Ressurreição de Cristo foi real podemos crer na Natureza cósmica de Deus, e seus rebatimentos na Natureza viva da qual participamos na razão consubstanciada pela citada fé. Assim como o mundo está em mutação constante, a eletrônica, seus meios, a tecnologia, a matéria, o mundo das coisas, dos objetos, que tão bem Baudrillard soube enunciar em sua obra semiológica, assim seríamos quase profetas quando lemos porventura que no ato que um segundo encerra para aquele que vem depois, traçamos uma vereda diamantina, pela simples questão das certezas de estarmos indo em direção a um porto seguro, a podermos estar na citada vereda sem termos muitas dúvidas em relação a ela, quando quase de forma budista estivermos acompanhando a passada de um inseto como rebatimento de um ser que nos ensine algo, no apanhado indizível da mesma Natureza e sua dialética perante esse Poder gigantesco que se chama Deus, na acepção de quando temos que encontrar um nome, e por que não? Virá depois algo de monta, quem sabe, mas a presença do futuro é algo que sempre temos em mente, pois essa incógnita é um dos mistérios de um mito em que nos aproximamos de Eras em que os Vedas o saberiam dizer com propriedade, pois é um conhecimento revelado e, se neles vimos a Verdade, com seus ensinamentos, convém anunciar as boas novas...

                Quando da crença de um vaishnava de que Sri Chaitanya anunciara que viria um tempo de luz de seis mil anos sobre o planeta, mesmo que houvéramos já ingressados na Era de Kali, a Era do Ferro, de duração de 432.000 anos, em ciclos que sucedem quando Nietzsche, assoberbado com seu “Eterno Retorno” tomava ciência, condoído, de coisas que quiçá compreendera duramente, mas que conseguiu trazer à luz do pensamento e da sua razão filosófica, mesmo que saibamos que os Shastras existem muito tempo antes do filósofo alemão, o Ocidente se encontra de modo por vezes cáustico com a espiritualidade oriental, de modo a não sabermos nós, ocidentais, por quais caminhos andaremos sobre a esteira do mundo em que vivemos, no modo em que concebemos tantas serem as jornadas do conhecimento. Supondo que em todas essas questões as religiões trazem suas interpretações sobre a esfera espiritual, quem sabe o misticismo como um todo seja apenas a busca evidente de que o ser humano tece sua jornada por regiões que desconhece, sempre nessa busca, mesmo que passe por diversas formas da religião e sua aceitação, ou mesmo quando interpreta seu parecer religioso sob os prismas diversos da sua compreensão sobre esse assunto. Não se trate aqui de diferenciar um dogma religioso, algo consentido pela crença de alguém como fato religioso, enquanto a outras designações se afirme ser mitologia, posto outro ser pode crer no mito e mitificar a questão da fé em outra designação, igualmente, em um rebatimento de prejulgar, um modal avesso a uma mente mais aberta para a Natureza mesma da espiritualidade, em um sentido mais amplo...

                A questão que fecha o pensamento e o torna quadrático pode estar incluída na falsa assertividade de imposições de Natureza cultural, quando o que se pressuponha ser inquestionável, por vezes na acepção de um único indivíduo pode não se encaixar nos citados dogmas que porventura temos por seguir nas frentes civilizatórias de toda uma coletividade, quando justamente a religião se torna algo que no mais das vezes tem cunhos de quase compulsoriedade na salvação de uma alma, na visão de certas igrejas que tem por base a orientação equivocada aos seus fiéis.

                A liberdade religiosa não impõe caminhos, e nem regras, mas cada denominação possui certos cânones, que sempre devem ser respeitados. Isso não impede que o ser humano empreenda, na sua jornada rumo à espiritualidade, alternativas que ele mesmo pode sentir serem melhores para seu entendimento e práticas nesse campo da existência, mesmo que na realidade não se encontre rebatimentos pragmaticamente concretos conforme tal ou qual designação religiosa. O que importa é a importância de uma vida espiritual, conforme o entendimento até mesmo de vertentes psicológicas, com estudos desenvolvidos onde pacientes ou mesmo adictos a drogas encontram sua libertação diante das dificuldades nesse refúgio imenso que são as religiões e sua vida espiritual. Uma das rupturas entre Freud e Jung, foi que Freud pensava ser a religião uma sublimação “válida” das pulsões sexuais, da libido. Jung já sabia da importância inequívoca das religiões para a cultura e a existência do homem na Terra, condição que pertence a muitos arquétipos do inconsciente, e a existência pura e simples do fato de que a religião é tão antiga quanto a humanidade.

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