terça-feira, 9 de dezembro de 2025

A CONFORMAÇÃO COM A ILUSÃO DO CONSUMO

 

                Sentir algo sem referenciar o sentir é como deixarmos rolar a percepção, e certamente não usarmos a razão para sequer nos situarmos quando estamos usufruindo de algo, na falta de um juízo para sabermos se – de fato – aquele sentir é bom ou ruim para nós. No entanto, o que antes eram flores, pode parecer com um cacto com o tempo, o que antes era primavera, pode se tornar um gélido inverno, assim como o inverso ocorra, depende do tempo que passa, e das circunstâncias onde e como vivemos, e de quem somos de fato, em essência. Por vezes a velhice de um homem ou de uma mulher pode parecer tépida e tranquila, mas pode ser que a vida desse indivíduo tenha sido marcada por sofrimentos severos, e quando toma consciência, não há um tempo certo, podemos tomar consciência de uma vida mais simples e elevada, mesmo aos noventa anos de existência. Quando, tomados por vícios e doenças deles decorrentes, a questão toda é pararmos e tomarmos consciência da gravidade, se quisermos sobreviver, já em idades que impõe fragilidades ao nosso corpo. Algo como um facho, um archote de conhecimentos pautados por luzes em nossa citada consciência, pode ser algo espiritual, uma série de insights, ou mesmo uma conversa com um homem da ciência ou um mestre, um sacerdote em uma missa, ou no encontro íntimo e introspectivo com as coisas que passam a ser anímicas, como a Natureza e seus seres, um mantra soletrado baixo, um ato devocional, etc, qualquer coisa assim pode verter um manto de serenidade sobre o nosso espírito e clarear a nossa mente, por vezes tão assoberbada por circunstâncias que antes nos pareciam severas e duras. Na realidade, na acepção crua da realidade, existe um onirismo que não está presente só na letargia do sono, mas que transcende aquela e que pode ser anima ou animus, um lado oculto, um símbolo perdido no inconsciente coletivo, ou mesmo a dureza fria de uma lógica cartesiana e, por vezes, tão útil.

                Muitos cidadãos do mundo correm, no entanto, no usual de suas vidas cotidianas, atrás de coisas para preencher seus vazios, na forma de objetos, prazeres mundanos, atos de consumo, mensagens pseudoafetivas, amores que projetam como ideias, consomem abusivamente o álcool, drogas, e etc, e se iludem como a parafernália da sociedade moderna como se tudo o que se nos apresenta fosse um novo mundo, mesmo recebendo as notícias de que o que fazem mais não seja do que colaborar para a destruição do mesmo, com tantas as indústrias poluentes, tantas contendas geopolíticas e tantas as relações de poder.

                Em eras como a nossa, de profundas mudanças tecnológicas, o abuso das comunicações para fins quaisquer que não sejam mais essenciais, quando se evita simplificar as coisas, o ser humano, para sobreviver em meio à crise de identidade e financeira, busca trabalhar incessantemente, para ganhar o pão e a morada em sistemas cruentos como o nosso nos dias atuais. Passa a consumir exageradamente a própria informação que, suculentamente, seu ego alimenta em linhas de tempo de seus celulares, na forma própria de recriar laços afetivos, ou recriar relações de mando ou de poderes, como jamais se viu na superfície terrestre, nessa acepção nua e crua de se obter o consumo da informação internamente, como se nossa fala fosse mais importante a nós de se escutar, do que a mensagem que jamais receberemos, pois do outro lado o outro mensageiro já nos desligara do sistema, muitas vezes, ou remotamente cambia uma relação frenética nas pausas em que não responde para nos tornar atrelados ao seu próprio e açambarcado sistema de informações, muitas vezes remetendo a mensagem para outro endereço e analisando-a, para depois sucinta e dentro da farsa ensaiada, suprir-nos da resposta, por vezes tardia, mas exata como algo que não tenha conteúdo maior, porquanto fala de conteúdo dispensável...

                O funcionamento da engrenagem de consumo, dentro da esfera das guerras comerciais deste novo milênio está atrelado com mecanismos de controle e etapas onde estratégias de comunicação virtual são utilizadas, a grosso modo, muito mais intensamente do que se supõe, e a margem de humanismo está sendo cada vez mais solapada, mesmo no boicote existencial aos seres mais autênticos, ou nas máfias paralelas, tanto no Ocidente como no Oriente. Isso reduz aos que são mais afeitos à libertação espiritual de cerne verdadeiro, e não os grupos de seitas ou religiões “protegidas” por um status estrutural das sociedades no âmbito das cidades e dos campos, que acabam por perseguir grupos religiosos, como os da Umbanda, que ainda são livres em sua concepção mais pura e de raiz cultural africana. Como um exemplo cabal, as facções criminosas muitas vezes se aliam a grupos evangélicos na guerra declarada contra os membros dessas religiões, cometendo crimes e outras barbáries, em cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo, grandes centros de nossa nação. Demanda que se faça um sistema de segurança operacional de monta a reprimir esse tipo de barbárie, pois somos um país laico, de livre expressão cultural e religiosa, e deixar que elementos nocivos e iludidos como essa súcia de traficantes e bandidos que cometem esse tipo de crime saiam ilesos é compactuar e se conformar não apenas com o que eles significam para a sociedade em termos de bandidagem e sectarismo religioso, mas nos insumos que fazem garantir a muitas vítimas o consumo de drogas que cada vez mais alimentam essas citadas facções e as fazem expandir a rede do crime. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário