sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A ALCUNHA DO PROGRESSO MATERIAL


              Dê-se o nome a que for dado o nome, qualquer que seja, no rótulo de uma garrafa de uísque, a estampa em azul e rosa na embalagem de um cosmético: as coisas são como que aparentemente enunciadas didaticamente na sociedade de consumo, configurando a grande contradição de se pagar justamente pelo conteúdo que a embalagem representa, o seu marketing, a veia diferenciadora, o investimento do capitalista que estudou iconograficamente suas lógicas de mercado, para influir no comportamento do consumidor final. 

               O objeto em si, torna-se a mente de si mesmo, a consciência do “em si”, quando o objeto adquire a consciência do outro, de quem paga, ou seja, abstrai valor, e sai mais satisfeito com a aquisição, seja porque comprou algo que signifique sua vida aos fragmentos, seja porque escolheu no “livre arbítrio” seu uísque escocês, para mitigar uma sede que outros, em quaisquer meios ou circunstâncias de trabalho, estariam ao menos pensando neste momentum, nesse minuto da aquisição, ao transportar, alguns em um cesto de Natal, outros em um saco de papel pardo. O objeto está no “aqui” do “lá em qualquer lugar”: a gôndola, o endereço, a seara do consumo, a catedral virada shopping center em uma metrópole, onde muitos adoradores do nada se vêm caçoando do sacro, mas só nos momentos em que não seja àquela hora dominical onde vão render as Graças ao Nosso Senhor...

              Esse comportar-se da “alma máter” do produto, essa matéria composta, essa indústria que burila a tal ponto o fator em si, que muitos sequer falam que está na genética das lojas, estaria efetivamente na genética do sistema, desde que o homem inventou o escambo. Vem das profundezas do inconsciente certo desejo, e o fetiche é saber que certo objeto seria proibitivo, mas encerra no “per si”, ou no “agora”, a lista sintética da memória do gadget, funcionalmente, na busca digital, e no que representaria, vinculada ao processamento da memória humana – pois efetivamente o treino gera a prática mesclada ao mecanicismo do ato – o ato em si, posto mais para a ação, a ação reativa, ou seja, o que se espera que ganhe ou perca, se perder é melhor para se ganhar, ou qual a dimensão da pulsão que leva a certas insanidades na economia da psique financeira, e de fato, a economia material, eterna contradição capitalista contemporânea, apenas acrescida de mais subterfúgios e fugas, de mais insumos e recursos. 

               A pulsão freudiana admitida, consentida, realocada, possível, realizável. Uma pulsão rediviva, genealógica, não recalcada jamais, pois se assim fosse a enfermidade do ser seria quase inequívoca, não apenas porque representaria a quebra do Totem, mas igualmente a negação do Tabu. A espinha dorsal, o desejo, algo do “agora” ou do planejar no “quando”. Esse quantum, que é o essere, o material vivo do ser, não propriamente do que seria o Luto e a Melancolia do não essere, mas o recrudescimento de uma própria enfermidade, enquanto a fuga da espiritualidade não desse o aval de que materialmente o mesmo ser se ativesse no pressuposto de viver no consumo o ato cristão que nega, mesmo por vezes sendo o Pastor que arregimenta as ovelhas, amealhando o dízimo de uma nova plataforma da fé, financeiramente falando. 

               E pur, si muove, como disse Galileu, na Inquisição. Se move a teoria da terra plana, se não fosse por dizermos que a esfera dos nossos meios não fosse mais plana do que um smartphone, com direitos a que passemos o dedo por sobre uma foto, mas não beijaremos uma live na porta de uma balada ou um forró "explícito", para não darmos a impressão de que nem todos interagem com a ciência de modo a que pressintamos estaremos íntimos com máquinas, já predizendo o futuro das carnes virtuais e programadas na mesma imagética sonambúlica da ilusão, conforme a inferência dos neurotransmissores, das linguagens e da própria cosmética de um sistema que devemos saber que possui muitas contradições, mas que a própria consciência que o suprassuma dentro de um contexto de releituras e processos que vão transformando o que era o trigo, depois se beneficia e se transforma no pão, mesmo que ainda assim seja sintético... Assim seja a vida, e que muitas pulsões saudáveis se deem na esfera do conhecimento, pois o que antes seria por vezes um perde-se para ganhar, pode ser uma senda mais de vitória, subentendendo-se que o sacrifício de muitos fazem parte do citado processo existencial, e que o "aqui" pode ser a compreensão maior de onde estamos, e o "agora" suprassuma o universo da temporalidade.

                E onde estaremos depois, quando os níveis de consciência requisitarem de nós mesmos um saber maior, que porventura possa crescer no progresso material, e pode evanescer no espiritual, mas isso sem dúvida estaria tão intimamente ligado que a validação suprema dos lucros obtidos pela indústria dos bens de consumo apenas reiteram que não estamos em uma sociedade livre, pois mesmo aqueles que se autodenominam extremamente religiosos hão de transformar, como diz a ciência, a água em vinho, mas não para provar que o milagre existe, mas sim para comercializar o feito e criar possivelmente uma nova indústria da fé: essa estranha mercadoria quase amorosa, tão facilmente obtida na sílaba pronunciada quando sequer pensamos sobre seus significados outros...

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