domingo, 23 de novembro de 2025

O EU INTERIOR E A DEPENDÊNCIA DO TABAGISMO


                Somos tomados por forte desejo de fumar, quando estamos viciados. Como afirma Allen Carr, temos a dependência química, e a dependência psicológica, ou o condicionamento em usar dos cigarros em vários momentos de nossas vidas. Como em sua abordagem, o problema menor seria a dependência física, e o maior a dependência psíquica, onde as situações onde acreditamos ser o cigarro indispensável seriam aquelas que nos impulsionam a fumar. Quando temos que cumprir um trabalho intelectual, quando pintamos uma tela, ou mesmo para nos encontrarmos com a pessoa amada, o pressuposto é que fumemos um cigarro, mas, na realidade, isso tem que ser quebrado. Ellen Carr propõe uma parada definitiva, mas há na medicina o tratamento por vezes com adesivos, principalmente com relação àqueles que portem enfermidades mentais onde, porventura, a parada imediata poderia trazer danos psíquicos, sendo que o acompanhamento clínico, e uma vida espiritual sejam de valor importante para a integridade do paciente.

                Na abordagem do Nicotina Anônimos, a vontade de fumar deve ser aceita, conforme a orientação da Oração da Serenidade, similar à do AA, onde o alcoolismo deve ser rejeitado, e o desejo de beber algo a ser aceito como uma coisa que não podemos mudar. A situação é que há duas frentes opostas, uma que diz que devemos interromper de uma vez o consumo, e outra que se deva diminuir para que não haja danos ou desconfortos maiores ao psiquismo do paciente na sua ânsia pela nicotina. Na verdade, creio que há caminhos para a libertação desse grilhão, e o fato é que essa substância realmente causa uma dependência – ao olhar da medicina – severa aos que são fumantes pesados dela.

                Quiçá os aspectos da compulsão sejam afeitos a origens mais remotas de nossa psique, como recalques do inconsciente, problemas de comorbidades psíquicas como neuroses ou mesmo psicoses, o ato de fumar inconscientemente, ou querermos parecer mais adultos fumando, como se isso ainda fizesse parte da realidade dos tempos atuais, onde a nicotina por vezes é execrada, até mesmo, em alguns meios, mais do que a maconha, propriamente dita. O problema é que, a médio ou longo prazo a maconha pode trazer danos psíquicos maiores do que propriamente até mesmo o álcool, conforme dados da ciência médica. Mas toda a substância, quando misturada com medicamentos, não será nunca bem vinda à saúde do paciente, pois o álcool continua a ser o carro chefe de todas as outras, levando à insanidade, e à morte, muitas vezes.

                O homem como o conhecemos tem buscado o conhecimento, o prazer, a colocação profissional e melhores meios de viver a vida... Por sua Natureza, a maneira de encarar a vida sempre passa pela história que teve, os descaminhos, seus erros e fracassos, e seu modo de lidar com os traumas que vivera na infância, quando existiram de fato, a vida familiar, e a maturidade que por vezes lhe falta em ser alguém mais pleno enquanto indivíduo no seio da coletividade, e no seu íntimo, com suas descobertas diárias, sua percepção a respeito das coisas e dos outros seres humanos e suas idiossincrasias perante a própria vida que segue com as dificuldades que encontra pelo caminho, ou os desafios de cada jornada, em seu dia a dia. Com suas imperfeições, busca remediá-las a ponto de em grande parte delas fugir e não encarar sua realidade, usando de substâncias para se anestesiar frente a esses óbices, tentando obter nessa fuga o prazer adicional e relacionando-o com determinadas situações, acabando por tornando dependente dessas substâncias, como o álcool e as drogas, entre estas o tabaco.

                Quando citamos a compulsão pura e simplesmente, principalmente entre o álcool e o tabaco, conforme sejam, essas duas drogas lícitas, e vendidas enormemente em qualquer lugar, estaremos falando sobre fatores de risco altamente severos à saúde de um homem ou de uma mulher, e por vezes de crianças e adolescentes... Por exemplo, quando temos um mendicante que nos pede um cigarro, ele o faz na rua, como se fora a coisa mais natural, acende-o, e não pediria a nós um cigarro de maconha, e jamais uma pedra de crack, mas sim o dinheiro que igualmente pede e, no mais das vezes, infelizmente, é para fazer uso dessas substâncias. Qual não fosse, se encontra outro de sua classe, bebendo, pode compartir dessa cachaça, ou mesmo estar no posto de gasolina, em casos extremos, pagando um pouco de etanol para beber com um pouco de água. Desde os recônditos dos becos os mais sombrios até as festas do grand monde, as drogas como o crack continuam presentes, posto a adição não encontra suas sombras apenas no ser humano, mas em qualquer meio que a circunde. E a nicotina estará presente, até mesmo para que a cinza dos cigarros seja utilizada para acender a pedra fatídica, ou seja, o cigarro é aproveitado em todas as suas modalidades, matando aos poucos e fazendo morrer a questão da sobriedade inclusive moral daqueles que pensam que estariam fazendo algo que não lhes faz mal, no sentido de ignorar a medicina, e isso igualmente para quem fuma da erva, em geral associada à coca inalada, posto o uso conjunto é muito recorrente, esquecendo de levar a citada medicina em consideração, apenas nos casos extremados onde internações compulsórias e veredictos judiciais são anunciados diariamente.

                Resta sabermos do nosso caráter, da história da compulsão, do fator praticamente freudiano do lado inconsciente, mas igualmente da importância de sabermos de fato que será justamente no equilíbrio entre a nossa questão do consciente e do inconsciente pessoal e coletivo que estaremos encontrando nosso self, ou seja, esse equilíbrio que, no processo de individuação previsto e vivenciado por Jung em sua vida, a jornada por vezes é dura, mas deixamos de projetar aquilo que não seja o nosso mais profundo eu, em virtude de podermos viver plenamente limpos de tudo o que nos acomete o espírito, em termo de drogas e comportamentos tóxicos. Tudo que deixamos de resolver diante de nós mesmos, com as nossas dificuldades, toda essa procrastinação deixa de fazer sentido se partirmos para a ação, e termos a consciência mais aflorada é fruto desse citado processo de individuação, onde saltamos de onde somos aquela figura egoísta, pontuada por uma vida de caráter duvidoso, para encontrarmos um centro vital, o nosso self, que fisicamente seria parecido com o termo chi, chinês, nas artes marciais... Um ponto de equilíbrio psíquico, e seria redundância afirmar que por vezes esse amadurecimento existencial passasse por uma história árdua de erros e acertos, até tomarmos consciência do fato de que seria justamente nesse quinhão do ser que reside o nosso profundo eu e, porventura, a libertação possível e praticável de quaisquer vícios de drogas ou comportamentos e compulsões onde porventura tenhamos vivido grande parte de nossa existência, mas que fez parte intrínseca da individuação citada, propriamente dita.

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