Jung
lera muito jovem o livro “A Interpretação dos Sonhos”, de Freud, o mestre de
Viena, e chegara à conclusão de que valeria muito esse ensinamento, bem como a
sexualidade fosse de fato uma energia muito intensa desde a infância,
inegavelmente: a libido, como bem pontuara Freud, interpretando a causa de
muitas neuroses à repressão instintual das pulsões sexuais, como energia
primeira do ser humano, aquilo que o move, e que o leva a ter as citadas
pulsões que, quando emergem, se recalcadas, vão para o inconsciente na forma de
nódoas que devem ser recuperadas depois, os traumas, os chistes que os revelam,
ou a associação livre e a interpretação dos sonhos, como forma de resgatar,
através da psicanálise, para o lado consciente, a fim de obter a “cura” do
paciente. Na visão de Jung, no entanto, a mesma libido seria traduzida como “energia
psíquica”, algo que não reduziria o ser à sexualidade pura e simplesmente, mas
uma energia similar à "vontade" de Schopenhauer, sem, no entanto, enveredar pelo
caminho da filosofia. Uma energia sempre em movimento, que pode estar vinculada
a muitos aspectos ou desejos do ser humano, revelando-se em vários níveis e
dando vasão a que seja manifesta em amplo espectro. Com relação a alguns de
seus pacientes, Jung notava que não apenas não tinham interesse pela
sexualidade, como sequer pela vida ou pelo mundo exterior, chegando à conclusão
de que o dogmatismo de Freud sobre a libido não tinha sentido, pois jamais
alguém seria movido pela sexualidade para ter acesso à vida de per si.
A arte,
a poesia, a cultura em relação ao mundo, tudo não faria tanto sentido se
tivesse apenas como motor intrínseco a sexualidade como pano de fundo. Quando
Freud colocou Jung como presidente da Associação Psicanalítica Internacional, como
seu sucessor, em 1910, mais tarde, em virtude de rupturas de ordem teórica sustentadas
pela posição de Jung em relação à libido e na espiritualidade que ele tinha em
sua visão com relação à psicologia, veio a dar-se o rompimento entre os dois
mestres em 1913. Equivocadamente Jung foi acusado, entre outras coisas de ser
simpatizante do nazismo e antissemita, sendo que muitos dos seus seguidores, em
vários países e disseminadores de suas ideias eram judeus, e o nazismo de Hitler
condenou os seus livros a serem queimados não apenas em território alemão, como
em qualquer nação ocupada. Justamente pelo fato de um médico como ele se
preocupar com diversas culturas, se dispor a tratar dos portadores de
esquizofrenia, de ter total atenção com todas as diversas modalidades de
pessoas as mais díspares, de tratar com desvelo a doença mental em todos os
seus aspectos. Houve também um rancor injustificado da comunidade acadêmica quiçá por ele ter se desentendido com Freud, fato que muitos não
aceitaram facilmente, na questão algo ousada de que alguém quisesse refundar a
psicologia com outro prisma e com outros conceitos, ampliando seus
significados... A diferença fundamental entre um médico e outro é que Freud não
tratou das psicoses, e Jung chegou a estudar profundamente esses males mentais
e experimentar métodos terapêuticos que até hoje têm repercussão internacional,
mesmo em Israel, com muitos seguidores. Jung continuou na Alemanha, e seus
trabalhos foram reconhecidos, finalmente, por exercer fielmente a medicina
psiquiátrica e alguns de seus colegas pediram a ele, depois que Hitler pegou o
poder na Alemanha, que assumisse a Sociedade Médica Internacional de Psicoterapia,
com sua autoridade de homem da ciência e sendo suíço. Continuou trabalhando, e
algumas conferências internacionais através dessa instituição foram feitas em
outros países, dando prosseguimento, mesmo aos dissabores da guerra que se
aproximava, a que alguns importantes passos fossem dados em direção à pesquisa
e ao desenvolvimento da citada ciência. Seus livros foram poupados, e seu
trabalho continuou.
Pois
sim, depois da ruptura com Freud, fundou a Psicologia Analítica, fez diversas
viagens mundo afora, viajando para a África, viveu entre os índios Pueblo na
América do Norte e teve um processo criativo intermitente até mais de oitenta
anos...
A
energia psíquica proposta por Jung, primordialmente, entra em harmonia com
todos os seus posteriores estudos, como se sua obra fosse uma chama inextinguível,
algo que fez como que enfermos aparentemente sem escape de vida dessem sinais
para que o retorno do seu lado espiritual ou anímico fosse o pressuposto mais
tangível de obterem um convívio social. Foi o surgimento de dois grandes titãs
do pensamento: Freud e ele. Freud foi exilado para a Inglaterra já no final dos
anos 30 e morreu de câncer na mandíbula, e Jung, o velho sábio, em sua casa na
Suíça, vivia com a simplicidade ímpar, sem luz elétrica, sem água encanada, um
lar que ele mesmo comparava com o universo da psique, e sua espiritualidade.
Entre outras coisas, quando ia para a Suíça passar uns tempos... Passando a
tempestade da Segunda Guerra, continuou trabalhando, pesquisando, e
contribuindo para os alicerces da psicologia analítica, encontrando adeptos
mundo afora, com pacientes de vários lugares do mundo, incluindo os EUA. Vale a
dizer que a energia que nos move é tão imensa quanto o Deus que supomos, e que
esse mesmo Deus nos encaminhe para um mundo sem guerras, e mais homens que, como
Jung e Freud, tanto contribuíram para o alvorecer do pensamento humano e sua
prática cotidiana da medicina.
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