sábado, 1 de fevereiro de 2025

A LATITUDE DO QUERER


               Na forma do desejar, estamos afeitos a muitas coisas. Por vezes nos tornamos objetos de nós mesmos, e a própria forma de um andarilho adicto – ou não, pois essa suposição igualmente é válida – que esteja passando a poucos metros de nossa “realidade de conforto” não nos imiscui do fato que por vezes discutimos o sabor da pérola que não existe na ostra... Esse desejo do palpável, da marca que existe, a farinha de trigo que possui nome, a chegada dos ingredientes, sua transformação e tudo o que implica no valor da mercadoria, quiçá sejamos a mesma mercadoria, não necessariamente tocada ou “consumida”, mas negociada, por vezes por caminhos outros que não sejam nessa ordem, ou mesmo honestos. Significamos algo, mas para significar nos elos da corrente, o pé de apoio por vezes deixa que aquela encoste no chão, junto a um tipo de residual que permite a oxidação de alguns elos, a ruptura, o desgaste.

               Meio que saibamos que fazemos parte do que o “outro algo” signifique, porquanto a farinha não é nada sem o ovo, ou sem o parafuso que faltou para o caminhão proceder ao transporte até as vias de escoamento, bem como à semente biologicamente por vezes funesta em sua origem que compromete outro elo, que é a idoneidade da marca. Temos por ali o agricultor, a casa das ferramentas, o último gesto do pastel consumido, o ovo que vai por dentro da carne do recheio, e o garçom que trabalha por vezes como um mouro para que o dono do negócio enriqueça, por tabela, o banqueiro, que é considerado um dos reis da transação final, enquanto ser mais passivo, enquanto emprestador, ou mesmo agiota “mais comportado”. Farináceos outros entram nas negociatas, e a base vira o empreendimento dessa substância na forma de poeira, estimulando o mercado e dando mais azeite à engrenagem...

               O desejo passa a ser igualmente uma mercadoria, uma coisa que ata o trabalhador, seja no escopo das origens, quando o fator é monetário e mantenedor da família, ou mesmo na ponta final, quando se considera o final o fim em si, outra modalidade, por vezes um alterno mais explosivo dessa corrente veloz, onde tudo tem sua hora, seu instante, seu espaço, e suas “estradas”...

               Manter o extra como coadjuvante, manter a organização como negócio, não seria tão belo quanto arredondar o valor de um doce na hora em que o consumidor retira a nota, em que o preço sequer é discutido, e o doce não supre, posto entidade quase não existente, porquanto o negócio anda mal quando não consegue lavar sua própria calçada. A Natureza pontua de outra forma, enquanto os homens comerciam e tomam de seus empréstimos, as vespas correm frouxas nos desavisos do tempo e a plataforma do querer urge que o tempo voe, ao menos para se pagar o freelancer do dia! Nota-se que muitos estão situados no tempo e no espaço para dirimir as dúvidas de um trabalho de equipe, mas outros estariam, com tecnologias de suporte, fazendo do home office um trabalho exemplar, dentro da sua cabana digital, como bem previra Toffler, em sua Terceira Onda.

               Alguma verdade palpável existe no desejo quase de um “objeto a” de esfera lacaniana, pelo menos enquanto se serve a bola de sorvete, e o desejo sequer tocara o sabor do doce, da massa, meio de querubim comprando como uma criança que, no cenário noturno, outra vai beber vinho em companhia de uma mulher que julgar afeita ao gozo de seu corpo. O vinho simboliza o mesmo desejo quando é servido, e a coleção se torna completa, a sedução está pronta para ser embalada e desfrutada, bastando para isso ter um carro do lado de fora de algum lugar, alguma caverna que os leve a uma outra cave, um catre qualquer, quiçá mais sofisticado: com dossel! Não que desse para simplificar desse modo, mas entre quatro paredes por vezes os espelhos do motel tem olhos e ouvidos atentos...

               Ao ser questionado, o senhor do capital relembraria ao amigo detalhes, um amigo com mais capital, e assim o desejo dilui no próprio valor, do capital ao capital, de uma fonte a outra, do trabalhador, que é gozo de si sem gozar, ao menos do jeito do seu colega trabalhador-gerente, que assume um outro escopo, uma mais de gozo maior, se for considerar, a pulsão do desejo não recriado, ou os restos do desejo sequer imaginado. Bastando para isso ver o capital como outro significante, um elo a mais na corrente, com pé de apoio, corrente mais erguida, mas ainda presa no tornozelo...

               E assim a tribo se forma, os elos da corrente, a chusma do desejo, o papel da mercadoria e a possibilidade de socializar comprando, ou ao menos sabendo fazer. Qual em uma taba, a dança dos primitivos, e tudo o que sonhara o capital se dilui no ar, pois o desejo em estar encaixado fora da corrente, para romper o grilhão, descartaria tudo e todos e viveria da terra como silvícola, mas com um celular à mão, pois não existe existir sem dedos que o apoiem.

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