domingo, 12 de janeiro de 2025

ÉTICA E ACESSIBILIDADE NA SAÚDE MENTAL


                Como tantos somos, por vezes peregrinos de um tempo que não retorna, reféns de nossos traumas, por vezes com trocados para comprar um gole de cachaça, ou mesmo uma pedra de crack... Somos a humanidade, e isso é apenas uma mera suposição lógica? Nos tempos contemporâneos, até os beijos são quimeras, o afeto vira comércio e o mercado impõe certas restrições onde a individuação depende do status e do acesso ao que se chama vida de normalidade, aceite, que reza a um comportamento ilibado, a uma mera questão formal da moralidade que projetamos: do “outro” em nós mesmos, muitas vezes.

                No Brasil, possuímos um sistema de saúde pública, não sendo sempre algo que um ideal da citada saúde nos permitisse espelhar uma realidade presente no que vemos de ausente no planeta, as guerras, os desencontros, o questionado meio de se viver, os desafetos, e as doenças de cunho mental, sobremodo as que necessitam de intervenção da medicina como um todo. Aquilo de idealização perfeita... Como nos EUA não há sistema algum de saúde pública, e os enfermos e adictos são vistos pelas ruas, como em qualquer país de terceiro mundo, mas com as desigualdades sobremodo acentuadas pelo fausto que encerra esse viés civilizatório: as grandes cidades estadunidenses e nenhuma preocupação real com a saúde de imigrantes, de populações negras, de latino-americanos e etc. Para citar um exemplo da falta de acesso corriqueira na realidade de um país considerado o mais rico do planeta!

                Será realmente ético vermos que o acesso daqueles que portam inquietações psíquicas graves, que necessitam do amparo de profissionais da área tenham que contar apenas com psiquiatras que justamente estão sobrecarregados com demandas em que os miseráveis são apenas, a grosso modo, medicados e ficam sob rígida observação, quando não estão submetidos a idas e vindas de manicômios, em internações compulsórias, onde a parte ambulatorial mal dá solução para todo o problema, de drogas e afins. A ética na psicanálise permite que o profissional receba o justo, permite ao paciente sair da consulta a hora que bem quiser, e a conformação da realidade da desigualdade social apenas reitera, independentemente da existência concreta de uma ética que norteia a profissão, não provê satisfatoriamente o acesso dos enfermos aos cuidados necessários, pelo menos na escala que se espera, na atualidade. Por isso a necessidade de se amplificar as políticas públicas no sentido de melhorar os tratamentos e dar o suporte necessário a tantos e tantos miseráveis ainda no Brasil e, por que não dizer, no mundo como um todo, pois é migrando que muitos vão vivendo suas vidas, por vezes insatisfeitos com regimes políticos ou com situações de ordem financeira ou familiar.

                Há que se medir e prestar atenção ao que já existe, valorizar os serviços públicos de saúde, pois, é motivo de se pasmar, há gente que critica os serviços públicos, ou que negam que o Governo Federal não esteja tentando melhorar o nível de saúde no escopo de sua administração. Como em escala anterior, o Programa Mais Médicos foi um exemplo que marcou a administração anterior colocando a serviço de quem não tinha acesso aos cuidados da medicina, mais profissionais que se dispuseram a trabalhar aqui no território nacional. Havemos de ter mais parcerias, e saber que os bons profissionais por vezes encabeçam trabalhos voluntários, prestando seus serviços com valor e préstimos a quem necessite, mesmo que a formação do psicanalista, por exemplo, não tenha sido laureada em uma universidade estrangeira, ou das elites, aqui no país. A acessibilidade urge, ladeada por uma ética consonante, e isso há de ser feito com esforços do povo brasileiro e seus agentes, com uma vontade política, e com os requisitos essenciais de minorar as desigualdades sociais no território brasileiro.

                Vai contra a ética você permitir o uso da maconha, como um exemplo do que ocorre por aqui, sabendo que esse substância causa esquizofrenia, ou não enxergar a problemática das drogas como um todo e tudo o que implica as doenças mentais causadas pelo seu uso e do álcool excessivo, tentando botar panos quentes em questões que afligem famílias inteiras, tornando enfermos seus membros e fazendo-os muitas vezes atravessar a miséria material com a miserabilidade espiritual, rebaixando a vida a um contexto existencial de nulidade e não significação. A ética torna-se um contexto maior, um contexto mais amplo, via de regra, não um tipo de codificação do que se pode ou não fazer na clínica, ou quais seriam especificamente os direitos do paciente, mas sim, como os potenciais pacientes da sociedade que vivemos na latitude da realidade contemporânea em um país de terceiro mundo podem ter acesso à medicina ou outras terapias, como a psicanálise, tão importantes no processo de melhorar um pouco a vida desses seres humanos...

                Passamos a viver um grande mal-estar civilizatório. Em tese, muito é uma questão de intenção de governo, da iniciativa privada, das instituições várias e centros de reabilitação, além dos grupos de recuperação do alcoolismo de das drogas, como um todo, e sua atuação tão presente no mundo inteiro. A partir do momento que houver uma mão pedindo ajuda, há que se ter o amparo de uma mais sólida, quiçá o sujeito-suposto-saber lacaniano, mas que seja, todo o profissional voluntário que queira participar de uma grande reconstrução nesse sentido sempre deve ser bem-vindo, pois não se reconstrói apenas a partir das ideias, mas da prática e da ação nesse sentido...

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