Como
tantos somos, por vezes peregrinos de um tempo que não retorna, reféns de
nossos traumas, por vezes com trocados para comprar um gole de cachaça, ou
mesmo uma pedra de crack... Somos a humanidade, e isso é apenas uma mera
suposição lógica? Nos tempos contemporâneos, até os beijos são quimeras, o
afeto vira comércio e o mercado impõe certas restrições onde a individuação
depende do status e do acesso ao que se chama vida de normalidade, aceite, que
reza a um comportamento ilibado, a uma mera questão formal da moralidade que
projetamos: do “outro” em nós mesmos, muitas vezes.
No
Brasil, possuímos um sistema de saúde pública, não sendo sempre algo que um
ideal da citada saúde nos permitisse espelhar uma realidade presente no que
vemos de ausente no planeta, as guerras, os desencontros, o questionado meio de
se viver, os desafetos, e as doenças de cunho mental, sobremodo as que
necessitam de intervenção da medicina como um todo. Aquilo de idealização
perfeita... Como nos EUA não há sistema algum de saúde pública, e os enfermos e
adictos são vistos pelas ruas, como em qualquer país de terceiro mundo, mas com
as desigualdades sobremodo acentuadas pelo fausto que encerra esse viés civilizatório:
as grandes cidades estadunidenses e nenhuma preocupação real com a saúde de
imigrantes, de populações negras, de latino-americanos e etc. Para citar um
exemplo da falta de acesso corriqueira na realidade de um país considerado o
mais rico do planeta!
Será
realmente ético vermos que o acesso daqueles que portam inquietações psíquicas
graves, que necessitam do amparo de profissionais da área tenham que contar
apenas com psiquiatras que justamente estão sobrecarregados com demandas em que
os miseráveis são apenas, a grosso modo, medicados e ficam sob rígida
observação, quando não estão submetidos a idas e vindas de manicômios, em
internações compulsórias, onde a parte ambulatorial mal dá solução para todo o
problema, de drogas e afins. A ética na psicanálise permite que o profissional
receba o justo, permite ao paciente sair da consulta a hora que bem quiser, e a
conformação da realidade da desigualdade social apenas reitera, independentemente
da existência concreta de uma ética que norteia a profissão, não provê
satisfatoriamente o acesso dos enfermos aos cuidados necessários, pelo menos na
escala que se espera, na atualidade. Por isso a necessidade de se amplificar as
políticas públicas no sentido de melhorar os tratamentos e dar o suporte
necessário a tantos e tantos miseráveis ainda no Brasil e, por que não dizer,
no mundo como um todo, pois é migrando que muitos vão vivendo suas vidas, por
vezes insatisfeitos com regimes políticos ou com situações de ordem financeira
ou familiar.
Há que
se medir e prestar atenção ao que já existe, valorizar os serviços públicos de
saúde, pois, é motivo de se pasmar, há gente que critica os serviços públicos,
ou que negam que o Governo Federal não esteja tentando melhorar o nível de
saúde no escopo de sua administração. Como em escala anterior, o Programa Mais
Médicos foi um exemplo que marcou a administração anterior colocando a serviço
de quem não tinha acesso aos cuidados da medicina, mais profissionais que se dispuseram
a trabalhar aqui no território nacional. Havemos de ter mais parcerias, e saber
que os bons profissionais por vezes encabeçam trabalhos voluntários, prestando
seus serviços com valor e préstimos a quem necessite, mesmo que a formação do
psicanalista, por exemplo, não tenha sido laureada em uma universidade
estrangeira, ou das elites, aqui no país. A acessibilidade urge, ladeada por
uma ética consonante, e isso há de ser feito com esforços do povo brasileiro e
seus agentes, com uma vontade política, e com os requisitos essenciais de
minorar as desigualdades sociais no território brasileiro.
Vai
contra a ética você permitir o uso da maconha, como um exemplo do que ocorre
por aqui, sabendo que esse substância causa esquizofrenia, ou não enxergar a
problemática das drogas como um todo e tudo o que implica as doenças mentais
causadas pelo seu uso e do álcool excessivo, tentando botar panos quentes em
questões que afligem famílias inteiras, tornando enfermos seus membros e
fazendo-os muitas vezes atravessar a miséria material com a miserabilidade
espiritual, rebaixando a vida a um contexto existencial de nulidade e não
significação. A ética torna-se um contexto maior, um contexto mais amplo, via
de regra, não um tipo de codificação do que se pode ou não fazer na clínica, ou
quais seriam especificamente os direitos do paciente, mas sim, como os
potenciais pacientes da sociedade que vivemos na latitude da realidade
contemporânea em um país de terceiro mundo podem ter acesso à medicina ou
outras terapias, como a psicanálise, tão importantes no processo de melhorar um
pouco a vida desses seres humanos...
Passamos
a viver um grande mal-estar civilizatório. Em tese, muito é uma questão de
intenção de governo, da iniciativa privada, das instituições várias e centros
de reabilitação, além dos grupos de recuperação do alcoolismo de das drogas,
como um todo, e sua atuação tão presente no mundo inteiro. A partir do momento
que houver uma mão pedindo ajuda, há que se ter o amparo de uma mais sólida,
quiçá o sujeito-suposto-saber lacaniano, mas que seja, todo o profissional
voluntário que queira participar de uma grande reconstrução nesse sentido
sempre deve ser bem-vindo, pois não se reconstrói apenas a partir das ideias,
mas da prática e da ação nesse sentido...
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