sábado, 4 de julho de 2026

O VÍCIO NA NICOTINA: AS RECAÍDAS RENITENTES


              Tomo para mim certas responsabilidades, mas o que se passou hoje, nesta madrugada, foi um mal estar no coração, certamente por estar usando adesivos de reposição de nicotina e não ter suportado a angústia da compulsão pelo tabaco. A impressão que tive foi de morte quase súbita. Mais do que depressa, retirei o adesivo e continuo fumando, havia esquecido de tomar o ansiolítico noturno, e a expectativa de falar com o médico pneumologista é grande. Tomei o ansiolítico já na madrugada, e sei que não vou conseguir dormir mais esta noite, temendo por não resistir muito tempo a esse suplício... Maldita seja a indústria que inventou o cigarro, maldito seja esse vício diabólico, essa doença da qual faço parte e que sei que me consome o pulmão e minha vida, sem nada de bom a oferecer, a não ser destruição e padecimentos. É um crime saber que essa droga tremenda é liberada, e que a nicotina não perde nem para o crack em termos de tornar uma pessoa dela dependente, agrilhoando-a a uma escravidão física, emocional e espiritual. Uma ira sem precedentes perante mim mesmo me acomete, e acredito ser o ser mais abjeto de entre os homens, por não ter capacidade de controlar algo que me mata pouco a pouco. De participar desse estranho festim demoníaco, esse sabá medieval, essa droga em que jamais encontrei precedente, em todas que tive contato em meus tempos de ativa de drogadição. Estarei buscando o suicídio, ou a leve impressão de que meus temores não sejam maiores do que a dita realidade onde me encontro me farão me encontrar com aquela com toda a força da minha consciência? Me parece que minha psicose não me deixa em paz, que não aguento o rojão, que aquilo a que me proponho ser sequer se aproxima de quem eu realmente sou.

              Todas as minhas compulsões parece que possuem um único endereço: o cigarro. Proponho-me a ver o que acontecerá comigo, se não encontrar a esperança dentro do escopo da medicina. Devo tentar amanhã, mas não me atrevo mais a colocar o adesivo, nem por uma sombra do destino. Sou totalmente impotente diante do vício da nicotina, e a isso devo regrar uma lei qualquer que me ampare, quem sabe o poder de Deus, mas não faço mais do que continuar fumando, só por hoje? Pois a noite não termina, e estou exausto dessa luta que vem continuada por quase dois anos, preocupando-me e me absorvendo dias e meses sem conta. Não sofrer por antecipação, assim me disseram, e não adianta mais nada, assim é a minha percepção do problema a ser resolvido. Mas não, há que se lutar, e um bom guerreiro não nega o combate jamais! Por mais que seja escravizado pelo inimigo, deve se perdoar por não ter feito o suficiente, e correr adiante da carruagem buscando se salvar, e pedindo ao próprio Salvador para que se apiede de sua alma. De tantos pecados cometidos, a lei de ação e reação me coloca diante de mim mesmo as faltas que cometi perante muitos a quem declarei inimigos sem jamais tê-los conhecido de fato. As circunstâncias em que me envolvi em contendas praticamente ilusórias foram fruto de uma patológica imaginação e total falta de coerência em um comportamento dito civilizado, que carrego imensos frutos resultantes desses atos. Esta autoanálise leva ao lugar comum da insanidade, e rogo a um poder superior que a me devolva. Seria capaz de entregar tudo a Ele, se em troca em houvera prometido nada mais fazer do que prestar o serviço a Deus, assim como eu O concebo. Mas ainda parece que não serei forte o suficiente, pois enquanto escrevo já acendo outro, e mais outro cigarro... E isso me parece uma roda viva, algo que não terei como evitar, pois não encontro coisas similares em nenhuma ação que pudesse tomar perante um passo possível a ser dado por um homem que emerge da sombra de si mesmo. Mas que a luta continue sempre, e jamais um homem pode se considerar derrotado perante algo que não faça parte intrínseca de sua vida, como um vício... Seguir os ditames da medicina, tentar todos os recursos, quiçá antes resolver os problemas emocionais e espirituais, quem sabe seja esse o caminho para uma recuperação integral, em todas as suas frentes. Há que se jogar a toalha no ringue e se considerar derrotado perante algo maior do que o enfrentamento cara a cara. No mais, um dia segue-se depois do outro, e todo o dia é dia de recuperação, para aquele que tenta se respeitar e a seu próprio corpo. 

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