Visto como
uma substância das coisas do afeto, como algo realmente importante, o perdão é
algo que infere sermos mais do que apenas ação e reação, estímulo e resposta, pois
essencialmente o que temos em nosso universo do espírito é a faculdade de perdoar.
Quando se afirmar que o prazer que outros nos concedem, por vezes a frustração que
pode acontecer pela falta do mesmo “outro” que se torna objeto de nossas
aspirações e projetos de vida, quando pensamos que esse alguém falhou por algum
motivo, mesmo perniciosamente, devemos ceder e “conceder-nos...” Não precisamos
crer que devamos educar tal pessoa, a não ser que seja uma criança, mas certas
orientações são por vezes necessárias, e o perdão fala alto ao diálogo, à
compreensão e certas idiossincrasias outras igualmente importantes, como a misericórdia
e a alteridade.
Na
sociedade atual, prima-se muito pela ação das recompensas, do prêmio, da
comemoração de algum negócio, do dinheiro que se ganha, da coisa mercenária e
comercial, quase acima de tudo e todos. Os financistas os sabem bem desse
oficiar. Praticamente as relações humanas se medem em valores monetários, em
trocas de favores, em hedonismo, na prática sexual irrestrita, e poucos são
aqueles que realmente valorizam a família e tudo o que significa a vida em salvação,
pois só se atém no que pode auferir em ganhos na vida terrenal. Uma forma de
prestarmos um ato de perdão é auto perdoarmo-nos pelas faltas ou pecados que
temos cometido, até que possamos confessar, depois de uma preparação prévia,
quando sentimos que estamos autorizados a isso. Não se trata de elocubrações
mentais, de como devemos partir para sermos melhores do que possamos um dia,
mas simplesmente de fazer as coisas funcionarem a partir de uma piedade que
passamos a ter pelo próximo, amando a Deus e todas as criaturas terrestres... O
homem e a mulher existem para que a providência seja dada a todos os seres do
planeta, e o respeito à ecologia, a tudo o que significa esse imenso lar do
Criador, seja a atitude da capacidade do ser humano na transformação da
matéria, mas igualmente na comunhão espiritual entre os povos. Não estabeleçamos
distinções efêmeras, mas espalhemos a consciência mais plena de que a mesma
providência seja algo que o perdão da humanidade inteira possa redimir – ao menos
em parte – as questões relativas ao joio que cresce em nosso jardim, e que
Cristo afirmara para deixar como é de fato o sentido de saber que haverá o
momento certo em que a separação entre ele e o trigo será um fato concreto.
Podemos nos perdoar, pois, pecadores que somos, deixamos essas jaças nas gemas
preciosas de nossas almas existirem, como foi o pecado original: um tipo de capacitação
ancestral para praticarmos o pecado, mas podemos igualmente evitar de cometer
esses erros, nos arrependendo – dia a dia – quando reformamos nosso caráter e
partimos para a entrega a Deus de nossos atos, na consecução pura e simples de
deixarmos a Sua Palavra agir em nosso coração. Respeitaremos os homens e suas
culturas diversas, mas não podemos exigir que o sistema de recompensas nos
trave em nossos propósitos mais puros.
Penitência significa uma disciplina mental e espiritual, um desconforto por vezes até físico, para obtermos um benefício que chegará mais tarde, no sentido até mesmo de respeitarmos a vida na Terra, esse bem que recebemos, pela graça do Senhor. A saúde mental, física e espiritual faz parte de uma tríade, onde o dom que um médico recebe se torne a vertente que fará com que aponte os erros do paciente, ou seus acertos, mas um bom sacerdote encaminhará seu “paciente espiritual” para os caminhos da paz e da bem aventurança. Por isso, igualmente, devemos perdoar-nos, no sentido de que na realidade mais pungente e premente a ciência se una à religião para que estejamos vinculados a um bem estar amplo, que identifique nossos problemas mais graves, e que possamos igualmente nos livrar das amarras que nos atam a esferas nada promissoras quando não nos permitimos ao milagre... Por isso, ao perdoar, necessitamos de um ato de contrição, de um ato de fé. Quiçá seja mais difícil pedir perdão do que perdoar, pois quando perdoamos a falta supostamente não fora nossa, mas quando pedimos por perdão somos até certo ponto culpados perante as nossas atitudes perante um outro ser humano e pedir por ele nos coloca em estado de humildade onde reparamos os danos que causamos a outrem. Nesse viés, quando estamos com a ira de não obtermos as recompensas, vêm as dificuldades de perdoar, mas, outrossim, quando pedimos perdão, nada temos a perder, senão apenas fazer a nossa parte. Em ambos os casos vale o perdão, pois Aquele que morreu na cruz nos ensinou que devemos perdoar setenta vezes sete, pois a atitude do perdão é praticamente infinita...
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