De um
dia a outro, quem não soubesse do tempo, o que realmente acontece na jornada do
dia, ou nos embates das noites. Os tempos do homem sempre foram os mesmos,
ainda que supuséssemos haver diferenças entre os nasceres e os poentes nas
longitudes do planeta... Calores e suores atravessados quase pela nossa medula,
ossos esfrangalhados, vícios desmesurados, carestia, miséria, seres notívagos
em busca de acolhimentos impossíveis, sofrimentos, faltas e ausências. Qual não
seria a vida se não fora a mesma de sempre, e qual não seria a equação se a
resolvêssemos a contento todo o tempo? Por que uma expectativa sobre um semblante
desnudado entre a frieza de suas convicções e a insanidade de sentimentos
ausentes de humanismo? Padeço por aqueles que estão esquecidos sob marquises,
estão em hospícios, ou mesmo os inocentes que enfrentam duras penas em seus
sofrimentos por vezes compulsórios, quando o que cometeram foi simplesmente
amar além de suas próprias medidas...
A vida
plena, o que seria além de consentir o que temos, e ser feliz com o essencial,
com essa bênção de estarmos em condições de ter uma razão que não nos nuble o
ser que somos. A bendita questão de pronunciarmos nossa fé no Salvador, para
que ilumine a senda daqueles que sofrem em demasia, e por nós olhai todo o
tempo, para que d’Ele sejamos dignos da vida que d’Ele a nós é concedida.
Clamando, em nossas vozes mais internas, em nossos desejos mais viscerais, para
que nos seja dada a clemência dos céus e não padeçamos no inferno. Almas soturnas
plangem suas pernas sobre ruas sem destino, desmembrando do de si para o nada,
como que à busca de algo que seja químico, como que em um desespero louco em si
mesmo: o panorama insano da perdição! Seres humanos catam o lixo nas ruas,
tentando encontrar nos resíduos da sociedade um alimento, ou mesmo latas de
alumínio para trocar por pedras do “paraíso”: as drogas do per si. Em outros
lados, no mesmo mundo em que vivemos sob o emblema da vida, muitos se matam em
guerras cruentas, déspotas urgem pelos poderes, e diversas formas do pecado se
manifestam sob as roupagens titânicas do mal.
Eis que
surge um clarão, uma luz divina, o sol no céu, mesmo que por imaginação
circunflexa, e estamos diante do mundo tal como ele é: imenso, maravilhoso,
seus seres, seus pássaros, suas vidas... E ainda não vimos tudo, vimos apenas
um início, tal é a transmutação da carne, seus elementos vitais, e o Espírito
que nos anima. Seguimos vivendo, e alguns enfrentam suas lides e purgam
verdadeiras missões atrozes, mas nada comparado ao que outros, que já morrem
pelas calçadas, largados, representam os veios de um Carrara que não serviria
para erigir uma Pietá. Nada além de nos abrigarmos na sensatez e partirmos para
conflagrar um estado de coisas que se atinem, algo que dê um sentido melhor na
azáfama, esse caos aparente, essa sociedade onde o consumo se posta diante de
nós com certos confortos, mas que nos despojemos um pouco, que seja, não para
tecer uma crítica, mas para nos colocarmos diante dos titãs da maldade com o perdão
que nos infeste, em uma razão primeva e primeira.
O ser
que somos que nos conforte, mas sozinhos não seremos o ser maior, não seremos
salvos. A paixão em alguns que sofrem deveras, não apenas em sacrificar-se por
muito tempo, assaz, não deveria nem ser objeto de contemplação, pois aquele que
sofreu todas as dores do mundo, esse: olhai por nós! Que nós sejamos objeto de
Deus, que Ele venha, Senhor de tudo e de todos, nos dar Seu amparo para que
sejamos dignos de sua misericórdia divina. E que não merecemos um átomo de Seu
perdão, pecadores que somos e seremos sempre, a não ser que possamos crer na
redenção espiritual, na Sua Santidade e em todos os Santos, que sofreram seus
martírios pela humanidade.
O
despertar espiritual pode vir com um tempo em que não obtemos no sacrifício de
um dia, um mês ou um ano, mas eventualmente com o atraso de séculos de
sobrevivência de nossos antepassados nas veredas mais cristalinas da
purificação, quando de nos apercebermos que a construção paulatina de nosso Eu
mais verdadeiro passa, sim, sob a alfombra do tempo eterno. E tantas são as
vinte e quatro horas, e sofremos, e vivemos... Imensa dor me acomete pelos
desvalidos, e por não ser eu o agente de que o sofrimento desses seres não seja
algo possível de desfazer ou de consertar, pois nem um político genial poderia
dar continuidade a algo que nem algum imperador de Roma obtivera êxito no maior
império da Terra! Sob os dissabores de um tempo onde havia a crucifixão, houve
um homem que permanece vivo, entre nós, para todo o sempre, e o que ensinara não
foi o mais importante, mas a salvação que nos trouxe para a vida eterna se torna
o emblema mais carismático de que é possível uma Ordem melhor para vivermos
mais justamente em sociedade. Mesmo que não saibamos que muitos padeçam, sempre
é tempo de crermos melhor que nós mesmos para que esse Espírito que nos abrace
a todos nos sirva de lição basilar para que compreendamos que no mínimo a
fraternidade e a comunhão seja a condição primordial entre os devotos do
planeta: a nossa Casa Comum.
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