sábado, 7 de março de 2026

DENTRO DAS POSSIBILIDADES


              A magnitude de nossa fé não é delimitada pelo fato de estarmos alheios das possibilidades em medir o que seja viável para estarmos em sincronia espiritual com uma fé divina. Simplesmente passamos por vibrações espirituais, por sacrifícios, por etapas, por conclusões, racionais ou irracionais, mas vivemos a impressão de que seremos, com um mínimo domínio teológico, mais aptos a fazermos crer em nós mesmos a impressão de que estaremos controlando em nós mesmos certos substratos de nosso eu com a compreensão de que, distante do muito ou do impossível que pensamos não estar ao nosso alcance, dentro de nosso possível, Deus dá conta do recado e nos coloca adiante de nós mesmos a vereda que antes não tínhamos condições de trilhar, livre dos obstáculos do caminho, mas devemos ter condições de prosseguir, sempre, na vereda, pois o ato de fé é de prática, pois o Criador faz o impossível para que alcancemos nossos objetivos, mesmo sabendo que nosso possível seja um severo sacrifício ante o cansaço, o trabalho, a devoção e a determinação de prosseguirmos em Seu caminho. A função primeira de nossa espiritualidade é seguirmos o passo Dele em torno de Seus mandamentos e a tábua de nossa salvação é o que nos resguarda, nos tira de muitos perigos, nos avisa, quando oramos por clamar Sua proteção, ou mesmo quando pedimos a Ele, esse Poder Trino, a parte que nos cabe, em missão que fartamente nos dispõe a Natureza de nossos atos diante do Altíssimo.

              Sabendo-nos sofredores em lugares onde por vezes nos sentimos mais tristes, quando estamos aparentemente ilhados em meio a dissabores, agrilhoados por preocupações, quando recebemos um ignorar tácito de alguém, o desencontro de uma mentalidade hipócrita, ou mesmo estando em locais mais festivos e as tentações vêm a roldão, tentemos o equilíbrio entre as coisas, entre os nossos conflitos internos e nossas extroversões com relação ao meio que nos cerca, por vezes sendo introvertidos publicamente e extrovertidos no recôndito de nossos lares. Ao inverter papéis, estaremos mais felizes quando solitários, e taciturnos por entre as gentes, e o que pode parecer um fato existencial pouco comum pode ser a saída como estratégia onde passamos a comandar melhor nossa ação diante de um mundo que nos espera o previsível, o comportamento repetitivo, ou mesmo o vício que temos por algo que se nos pega irremediavelmente perante o nosso bem estar psíquico, minando-o.

              Passamos por dias afoitos, querendo lutar por nos livrar do tabaco, e por vezes mal sabemos que a nossa fé nos diria que Deus essencialmente nos quer livre dele, e por mais que cruzemos por sinais divinais que nos digam o oposto, quem sabe seja porque ainda não retiramos nossas ervas daninhas do nosso jardim, pois há flores e frutos que querem apenas respirar um alento de vida... São Francisco comungara das uvas com um frade que estava doente e debilitado, e este se lembrara por sempre o dia em que passaram conversando sob uma videira, simplesmente orando a Deus e o louvando. Os jardins desse santo eram repletos de bem aventurança transcendental, e de conforto espiritual aos que deles desfrutavam. Assim como fora um homem desapegado, que sofrera, renunciado dos prazeres mundanos, São Francisco revelou ao mundo uma vida em que simplesmente que, onde houvesse a dúvida, ele levaria a fé... Fez de seu caminho uma seara espiritual reconstruindo igrejas, falando aos sofredores, irmanando com a Natureza e seus seres, tornando o seu possível o impossível de Deus. Assim sendo, o possível que realizamos, dentro de nossas limitações humanas, dentro de nossa fé, quando a praticamos obrando na senda, Deus faz o impossível acontecer. Não fora por isso, há dias em que precisamos refletir...

              Nas vertentes de um ocaso onde pensamos que estaríamos sem saída, onde nada do que pensáramos daria certo, Jesus aparece como exemplo imortal, seu sofrimento nos nubla nossa vida incerta, e pensamos nesse impossível revelado, tornando a fé e sua razão algo que faz sentido em nossas vidas: subiu aos céus, reside ao lado de Deus... Maria, sua mãe, fica na Terra, a Casa Comum, conforme a encíclica Laudato Sí de Francisco, o último Papa. Maria, a mãe Gaya, e seu filho, Jesus Cristo, o unigênito, o Deus encarnado. Saberíamos de nossa fé algo mais do que isso, quiçá, quem sabe o Budismo nos traga luzes sobre Sidarta Gautama, o Buda, ou quem sabe Krsna resida no coração da devoção, igualmente... Mas quando pensamos em Francisco, o santo, pensamos em Jesus, onisciente, dentro do ser crístico que reside em nós, principalmente no mundo Ocidental. Não importa a orientação, o Ser Maior concebemos diante das possibilidade de nossa fé, dentro do que seja a crença que temos por um Deus que perdoa, que leva a luz onde há trevas, e que leve a fé onde haja a dúvida. Essa mesma fé que remove montanhas, que podem ser desde obstáculos intransponíveis até corações transformados em pedra, que cristalizaram de tal modo a insensibilidade que se tornam verdadeiros desfiladeiros de desventurados, onde só um amor e perdão gigantes, e a fé pétrea as transformam em tenras ervas de primavera... Jesus foi sacrificado por aqueles que não compreenderam sua palavra, mas sua crucifixão estava escrita por sua própria ressurreição, que até hoje faz com que um homem qualquer possa escrever sobre isso com as palavras vivas da Verdade e da Luz. “A fé nos permite sorrir apesar da dor, não desistir jamais, procurar e aceitar as vontades de Deus, superar as aflições, combater o bom combate, dar um testemunho de vida coerente, não se enganar com as ilusões do prazer fácil e, enfim, ter a lucidez que nos indicará os melhores caminhos para a nossa evolução pessoal.” ("A Oração de São Francisco", Anderson Cavalcante e Gabriel Perissé, Ed. Sextante).

              Situando nossa condição mais favoravelmente, não sentimos a dor daqueles que atravessam, opressos, o oceano de suas angústias. Para estes a dita dor é motivo de se querer uma superação necessária, e seguir trabalhando a obra posta no sacrifício, sente-se por fim  pelo menos nos signos que deixamos ao longo de um período os resultados do poder de Deus sobre nossa obra e nós mesmos. O fenômeno da salvação vira uma questão de tempo, e as mudanças em nossa vida passam a acontecer antes do que esperávamos, na velha textura que deixamos ao vento, para que a Natureza dos eventos do Cristo a toque, como em uma alquimia que desse certo: o milagre em nossas vidas!

              Desde que passem os dias, as coisas podem se encaixar, o tempo é inexorável, as gerações se sucedem, surgem governos, conflitos, pessoas se intoxicam e, enquanto isso, somos meros instrumentos da paz do Senhor. Seguimos conversando conosco mesmos, e isso não apazigua a muitos, mas no mínimo traduz-se em tomada de consciência sobre muitos fatos que se nos ocorrem, justo, quando refletimos ou meditamos sobre nossas vidas, dando um intervalo entre algo que acontecera antes e aquilo que marcamos para um compromisso escalar, não como algo que nos faça mal, mas justamente o que vem para equalizar e equilibrar o andamento de uma roda que ainda fazemos girar mesmo com as dificuldades de encontrar a fé e a força necessárias para tanto. A partir daí, por vezes quando já estamos exaustos, Deus nos concede o que era impossível para nós, e obtemos Dele o empurrão para que andemos com mais facilidade sobre a superfície que, antes nos parecesse chumbo, vira um tapete de cristal imantado com energia para que naveguemos sobre ele com a facilidade de verdadeiros seres humanos...

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