quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

OS LIVROS DE NOSSAS VIDAS


                Não precisamos ser especialistas em literatura para escrevermos nossas histórias, ou mesmo sabermos ler ou mesmo escrever, pois a simples fala escreve, de uma forma ou de outra, quando imprime os sinais diante do tempo e de quem escuta, mesmo a nós mesmos, de onde somos e para onde vamos, quem somos como seres humanos e quais são os nossos propósitos ou os nossos atos diante da existência. A neurolinguística, sendo subliminar na essência, não rege o propósito de dizer com sinceridade, pois este sentimento é maior mesmo do que a ciência qualquer, pois fala uma linguagem que vem do coração... É da alma que tratamos aqui, não da lógica ou do verbo em si, ou das conexões linguísticas e suas interpretações ou assertividades motivacionais, pois nem tudo é mecânico, regra ou norma, mesmo que saibamos que somos regrados por leis na sociedade, e que tudo o que fazemos há de respeitar os espaços dos outros enquanto seres que coabitam o nosso mesmo patrimônio, que é o escopo social. Pontuaremos sempre novas frentes de conhecimento se pararmos com os vícios de que tal ou qual ciência, que tal ou qual cacoete de saber pretensamente adquirido faça parte de nosso eu, quando mais não sabemos exatamente onde colocamos um lápis na noite anterior, se vamos usá-lo mais vezes, ou se lavamos a louça do almoço, no dever de cada dia, ou se tomamos o nosso leite ao quebrarmos o jejum, antes de especular a nós mesmos que na noite anterior déssemos um espetáculo à parte.

                Escreveremos ou soletraremos páginas inquietas por vezes, páginas de dor, páginas de alegria, de ressentires, conforme um estatuto estaremos recriando muitas vezes algumas normas procedurais, algumas regras, faremos leis, compilaremos versos, comporemos músicas, ou mesmo abraçaremos um irmão, fraternamente, o que fará parte de um capítulo importante de um livro que deixamos fechado na nossa lembrança por muito tempo, com uma abertura por vezes rara e que porventura faz parte intrínseca de nossos papéis defronte da grande aventura da arte da literatura da vida. Outrossim, esta forma de nos encontrarmos com um destino mais feliz, por sabermo-nos que não somos proprietários sequer de nosso sofrimento, pois disso Deus estará igualmente senciente, conforme as predições das conjunções escriturais sagradas. Sói sabermos que nas searas de elaborarmos o texto sobre nós mesmos temos que viver cada parágrafo, cada linha, cada vírgula, letra, palavra, ponto. Mas, como em uma história muitas vezes visceral, nossos sentimentos mais singelos transformam-se por vezes em tempestades, e em outras um trovão pode se tornar mais terno do que um jasmim. A luz ilumina nossa treva, e a treva da noite nos acalenta em nosso sono... Tudo se torna um contraponto, e Bach se revela na sua tessitura, mesmo àqueles que não se permitiam sequer escutar uma música barroca, pela proximidade apenas da gaita-ponto. Essa é a maravilhosa experiência em vivermos, e observarmos nossos ires e vires, sairmos das nossas cascas de ovo, revela a nós mesmos a vastidão não apenas da palavra proferida por seres como o Cristo ou Buda, como Krsna, ou Alá, mas não importa, seremos ausentes ou não de nós mesmos, escreveremos nossos passeios, desditas e infortúnios, pois tudo faz parte da passagem que estamos vivendo neste mundo.

                A luz se fez em Gênesis, e a Criação igualmente se fez nos Vedas, supondo que, apesar de sermos um entre bilhões de seres humanos, seremos um espelhamento de níveis de consciência que por vezes galgamos, sempre de forma dinâmica, nesta grande e suprema dialética da Natureza, que é a eterna consorte de Govinda: Deus, assim como quem vos escreve concebe. Não importa a identificação da crença, o importante é sabermos que, portadores de uma impressão sobre tudo ou aquilo que nos faça um sentido mais pleno, somos instrumentos, e que o mensageiro não é tão necessário, mas sim a mensagem, e esta vem como um tipo de bússola orientadora para que um bom timoneiro aprume o barco da esperança como um tipo de nau onde não haja sobreviventes, mas sim viventes em plenitude...

                Mesmo que alguns parceiros diletos não estejam mais presentes para testemunhar os livros que, juntos, tecemos ao longo de nossas jornadas, mesmo que nos faltem, temos ainda que dar o testemunho e a continuidade no processo de continuar a citada jornada, para que, ainda que o livro jamais seja completamente escrito, possa ser um libelo, uma ponta de lança naquilo a que chamamos a grande experiência humana da vida. E essa experiência fique de certo modo sendo o chamariz para novas e novas outras, em escalas que ainda hoje são de suma importância, e rogaremos a Deus, o Criador cósmico, nosso Pai Celeste, que justifique nossos atos, que nos dê a fé necessária para que recriemos vínculos com dilet@s companheir@s, e que prossigamos no caminho da mesma fé imorredoura que nos leve sempre adiante para mais e mais veredas diamantinas, posto quem ganha com isso é o ser humano, e que os outros seres sobre o planeta sejam nossos iguais em carne e espírito para que passemos a escrever nossas notas com mais ciência de que, mesmo aparentemente solitários nesse mundo, jamais estaremos sozinhos...

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