sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

A TERAPÊUTICA DO ACASO


            Foi “por meio de algo”, que “fiz algo”, que “a coisa transbordara o copo”, que “nada fizera mais sentido”: seriam acepções controversas, determinadas, mas que o psicoterapeuta, ou analista, estaria de modo a não ter total segurança em lidar com a questão, pois a cadeia de significantes transformara o acaso da linguagem no próprio arquétipo coletivo de um sentimento expresso e oculto, uma forma, uma determinação excludente porquanto significante primeiro. Algo que não se conheceria, mas que não seria volátil, porquanto mais sólido no espaço-tempo... A própria noção do espaço como algo construtor, algo de engenharia, de estrutura, qual noção que temos de uma área-base, um fundamento mais amplo, onde a linguagem se estrutura e vai consolidando seus citados fundamentos, vai construindo seus nós e bifurcações e suas equações, o teste da resistência dos materiais e as plantas pré-programadas, antecipatórias do mundo real: a grande arquitetura do ser humano, suas vicissitudes, seus movimentos ou suas questões, culmina tudo na velha questão da tinta jogada a esmo sobre o papel, e a forma, em determinada circunstância, se faz, como se o acaso houvera criado o Universo, ou este recriara a palavra. O jazigo da circunstância está para a recriação do ser algo que remonte o luto de não se saber empreender a continuidade de uma obra a partir de uma existente forma do inconsciente, no caudal de relacionarmos por vezes o sagrado do amor erótico, ou o signo do amor considerado purista com algo de Thanatos, ou pulsão de morte, aquilo de contradição inerente ao acaso espiritualista, o modo inconsciente de aflorar enquanto se pensa o acaso do surgimento de um inconsciente coletivista que emerja da lavra do autor.

            As coisas vão além da mera terapia, e a consistência de reformarmos o que havia de fundações antigas na área de trabalho remonte um universo do saber mesmo que a citada área transcenda a psicanálise e transborde em tal número de informações que diversas pastas e inúmeros arquivos já traduziriam farto material para consultas, dados estatísticos e conhecimentos cabais a respeito do universo de muitas matérias, nesses diretórios mais afeitos a não tanta casualidade, mas de um acaso mais permanente. Essa história volátil e não linear, transcenderia Saussure, posto o inconsciente seja esfera volátil, e a tipificação da linguística já não seria mais tanto linear, com o advento da IA, onde o acaso do mecanismo de engenharia de busca age com sua engenharia reflexa e remonta logicamente um saber que já é lavra antiga, ensimesmado com um sistema que é filtro da obra humana, e falível enquanto saber primeiro da lavra mais inteligente, porquanto Eros, ou “pulsão do conhecimento de vida”. Tanto que não haveria uma inteligência artificial delirante, alheia à razão, assim como seria impossível criar aquela uma obra como o “Ulisses”, de James Joyce, ou “O Processo”, de Kafka, ambas obras praticamente delirantes, aos olhos da “antiga literatura...” A respeito, para citar um exemplo: processamos sempre, mas o olhar que possuímos de nós mesmos não nos dissocia de algo maior do que nós mesmos, sempre, e sempre que se fizer necessário o acaso será nossa fonte, esse acaso que busque dos arquétipos mais ocultos o diapasão que nos afine e coloque mais lenha na fogueira da interpretação da própria linguagem, mesmo sabendo que o arquétipo tenha sido premonitório, essencialmente místico, ou o tanto que nos bastava para matar a sede nos “intervalos” entre um ato falho e um chiste.

            Aquilo que tanto se nos bastou para acompanhar a história e ver, na degradação de um milênio culminado na horda, alguns signatários, vêm com seus desafiadores e pressurosos atos de xenofobia e racismo, enquanto em outros hemisférios a história desvela novas formas de supremacia na atitude de grupos e minorias que agem para tornar o poder e a mesma citada barbárie algo comportados no viés das esferas do poder, da supremacia étnica, do que antes fora escravo: no gênero, no número e no grau. Silenciosamente, como se fora algo previsível, como em um sonho, onde não há meios termos, mas apenas aquela pulsão aflorada, uma questão de ordem vertical, pseudodemocrática, pois trata-se da questão de certos embates como que de um lado da mesa equalizadora, abolindo-se o stéreo, e tocando o mesmo áudio nas duas caixas. Como na banalização do ânus, a se citar que esse orifício possui uma musculatura, que cansa de fazer aquilo de se praticar eroticamente apenas essa realidade... Mesmo que se saiba que incentivo chauvinista continuar a haver para que a mulher trabalhe seu glúteo no sentido de manter a união, estável ou não, como se um extraterrestre já mandasse ver na não perpetuação da espécie, pois o homem do milênio prefere estar com o mandato do ostracismo espiritual, a ver que na realidade aumentada o acaso o transfere com a ausência da responsabilidade, nua e crua, de se fazer valer da sua posição e evadir do compromisso parental, seja qual for, justamente para ser um tipo de patrão de si mesmo ou de um grupo, onde se tornará dono de um harém, ou coisa que o valha... As pulsões tornadas em seu modo mais grotesco se tornam possíveis, e o superego não censura, com os alicerces do pré-consciente, seu parceiro inevitavelmente mais afeito a uma vida civilizada. Essa liberação da pulsão vinculada à adição às substâncias as mais variadas, faz com que as famílias se diluam, caia o “nome do pai”, o “grande outro” na questão não substitutiva, e a necessidade do que antes seria terapia algo de acaso mesma, se torna esfera da intervenção psiquiátrica frente a diversas modalidades deste que seria o “estigma do milênio.”

 

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